Cidades
Celebra��es a Zumbi movimentam popula��o na periferia
FERNANDA MEDEIROS As celebrações a Zumbi dos Palmares, que morreu em 1695 enfrentando grandes batalhas em busca de igualdade social, contra a exclusão do negro, começaram mais cedo no Residencial Graciliano Ramos, no Tabuleiro do Martins. A principal praça do bairro foi transformada, segunda-feira, 11, numa cidade cenográfica, utilizando elementos e adereços originários da população negra na Bahia e em Pernambuco, Alagoas. Zumbi, que entrou para a história como herói dos negros ? o ?general das armas? e líder da Terra da Promissão ? era o alvo principal da performance teatral, promovida pela ONG Graciliano é uma Graça, a convite da produtora Alagoas Terra e Mar, TV GAZETA e Globonews. O grupo, com 80 participantes, sob a liderança do professor Nilson Júnior, presidente da ONG, fará outras apresentações até a próxima quinta-feira, Dia da Consciência Negra. Em uma nação que tem mais de 50% de sua população negra, onde a grande maioria de seus habitantes se situa nos setores excluídos e marginalizados da sociedade, Zumbi, na verdade, é uma simbologia da luta e da libertação do negro, numa história que é muito mais escrava, como mostra a ONG Graciliano é uma Graça, no roteiro da peça teatral em homenagem aos negros. A encenação, intitulada Zumbi ? terra da liberdade, conta a história, a partir do fim do século 16, em Pernambuco e Bahia, estados nordestinos que se destacaram como pólos produtores mundiais de açúcar, sendo o responsável por esses bons resultados o sistema escravagista estabelecido pelos portugueses que, para manter aquele nível de produção, matavam cerca de cinco mil escravos por ano. Revolta sangrenta A ONG lembra na encenação que certos senhores picavam os nervos dos pés dos seus escravos, para os impedir de fugir de suas terras. Mas a própria fuga não foi uma forma eficaz de liberação, enquanto não descobriram a região de Palmares, local para onde migraram negros de várias etnias africanas. Como eles eram de diferentes nações, havia revoltas que acabavam afogadas em sangue. Os escravos das plantações, como também mostra a peça da ONG, não tinham outra alternativa senão a fuga e a conseqüente formação de quilombos e guerrilha. Embora de menor importância, também ocorriam problemas entre os escravos nascidos no Brasil e os recém-chegados da África, entre escravos mulatos e pretos. Os capitães-do-mato saíam em busca de fugitivos. A necessidade de raptar mulheres de outras raças se impôs, devido à escassez de negros nas plantações e engenhos, pois os colonos davam preferência absoluta à aquisição de homens. Ao mesmo tempo em que desenvolviam o artesanato, eles trabalhavam na agricultura. Na África, haviam sido, antes de tudo, homens da roça, a tal ponto que a agricultura parece empregar toda a história do continente africano. Festa da colheita Os palmarinos plantavam milho, feijão, mandioca, cana-de-açúcar, batata, legumes. Duas semanas antes do plantio, preparavam as terras com grandes queimadas. Faziam a semeadura e a colheita coletivamente. Celebravam o término da colheita com uma semana inteira de festejos em que todos folgavam, dançavam, comiam e bebiam. Mantinham, também, extensos pomares com toda variedade de árvores frutíferas. Na culinária, as mulheres faziam comidas à base de banana pacovan, abundante na região. Criavam galinhas e suínos, pescavam e caçavam. Mas, fato singular, não crivam gado, com excelentes pastagens na região. Falavam uma língua toda sua, que compreendia formas da língua portuguesa, africana e indiana. Praticavam uma religião do tipo sincrético, no qual se combinavam elementos das crenças africanas, do cristianismo e dos colonos. A performance teatral da ONG Graciliano é uma Graça termina mostrando o cerco que aconteceu no dia 20 de novembro de 1695, em Palmares, com a prisão e morte de Zumbi, juntamente com outros seis companheiros. Mesmo depois da morte de Zumbi, a luta dos escravos continuou por um bom tempo na região. A resistência fez muito mais do que provar que a luta era possível, escrevendo uma das páginas mais gloriosas páginas da história do Brasil.