Cidades
MULHERES REPRESENTAM 66% DOS TRABALHADORES EM HOME OFFICE
Alagoanas retratam dificuldades da rotina de conciliar tarefas profissionais e pessoais
O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) revelou que 66% dos trabalhadores em home office, em Alagoas, são mulheres e apenas 34% são homens. A jornalista e mestranda de sociologia Gabriela Palmeira, de 31 anos, faz parte dessa estatística. Ela conta que trabalha de home office desde que o filho tem 10 meses, porém,ficou ainda mais cansativo durante a pandemia. “Não consigo administrar o tempo do home office com a disciplina indicada pelos coachings. É um assunto muito delicado quando pensa-se no ambiente doméstico como ambiente laboral também. Nós, mulheres, já carregamos nas costas historicamente a tripla jornada de trabalho: cuidado com os filhos, cuidados com o lar e trabalho para sustento da casa, então torna-se complicado quando se tem criança correndo, que precisa de atenção para as tarefas diárias, comida para preparar e roupa para lavar, somado ao trabalho, que antes era fora de casa e individualizado (sem o peso da rotina doméstica nesse espaço de tempo), e agora vivencio tudo junto e misturado, ainda tentando não enlouquecer (no sentindo psiquiátrico) e manter um diálogo positivo com a cria em tempos de pandemia”, disse Gabriela Palmeira. Questionada sobre o que mudou na rotina, Gabriela diz que o home office ficou mais cansativo nessa pandemia, já que o filho não vai à escola. “Meu único tempo livre era exatamente no horário escolar; as aulas online consomem boa parte do dia e energia vital; a saúde mental começou a ficar afetada durante a pandemia, inclusive a do meu filho, uma criança de seis anos. Enfim, a relação trabalho em casa foi (in)definida com sucesso”. A jornalista conta que o home office em 2015, primeiro, fazendo trabalhos avulsos como fotógrafa e, posteriormente, como social media. Atualmente segue fazendo home office como social media, acumulando-o à demanda de pesquisa do mestrado – que é também um trabalho não remunerado, já que não dispõe de bolsa. Sobre investimentos em equipamentos ou em uma montagem para criar um escritório em casa, Gabriela conta que não precisou investir porque já possuía equipamentos necessárias. “Ainda a maior dificuldade é lidar com o tempo para que ele seja realmente útil e amigo nas demandas de trabalho, pesquisa do mestrado e criação/cuidado com o meu Joca [o filho]”.
A também jornalista e estudante de letras Milena Monteiro, de 30 anos, com a retomada, saiu do trabalho em casa para a empresa. “Fiz home office por quatro meses [de março a julho]. Toda a rotina mudou, já que meu trabalho era completamente presencial. Foi necessária a adaptação para atenção e divisão de horários para os trabalhos domésticos também. Já que mais tempo em casa, demanda mais cuidados com ela”.
Sobre investir em equipamentos para trabalhar em casa, Milena relata que não foi necessário fazer investimento porque a empresa onde ela trabalha forneceu todos os equipamentos tecnológicos e ela já possui espaço para trabalho em casa. Já às atividades em casa, tendo que conciliar casa e as filhas, ela relata que a divisão de tarefas ajudou bastante.
“De um modo geral, as atividades em casa são divididas, o que deixou mais leve do que poderia ser se eu tivesse que assumir tudo sozinha. Mas o fato de estar em casa implica a atenção aos afazeres domésticos e às filhas também, ainda que seja preciso dedicação exclusiva durante as oito horas de expediente. Como esse período de home office aconteceu em decorrência da pandemia, a única demanda em ambiente externo que tivemos que atender foi o mercado. Estar em casa em tempo integral nos forçou a organizar a rotina dentro do ambiente mesmo”, contou.
Ela retrata que a maior dificuldade é com relação ao acompanhamento das aulas das filhas, tendo que trabalhar ao mesmo tempo. “No início, precisou de um período de adaptação às ferramentas digitais e auxílio mas atividades. De um modo geral, não tivemos maiores dificuldades com o home office. Na verdade, o fato de economizar as horas do trajeto entre a casa e o trabalho, fez com que me atentasse e pudesse investir esse tempo em assuntos pessoais”.
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Já a professora Islanne Silva, de 31 anos, conta que a educação foi um dos setores que primeiro pararam pelo risco de contaminação, então está em home office há quase 6 meses. “A pessoa vai perdendo o tato do tempo, uma eternidade se passou nesse tempo. Tudo mudou em todos os sentidos. Muito mais trabalho, mais cobrança, muitas crises de ansiedade, parece que a pessoa nunca vai dar conta do trabalho, uma situação muito difícil de se estar e o que mais complica é a falta de perspectiva de retorno”. Islanne começa a dar aulas às 9 horas da manhã, para para almoçar e concluí o trabalho às 18 horas. “Eu precisei baixar o WhatsApp de negócios para que as pessoas entenderem que não estou disponível 24 horas por dia, antes disso as pessoas achavam que eu tinha que atendê-las a todo o momento até em fim de semana. Tudo isso acarretou em muitas crises de ansiedade, pois trabalho se misturava a minha vida pessoal”, diz, e desabafa dizendo que “penso que as pessoas acham que quem está em home office não trabalha porque está em casa , mas, isso é uma tremenda falácia porque o trabalho é totalmente redobrado”. Ela também diz que a maior dificuldade nesse momento é lidar com o psicológico. “Tenho muita oscilação de humor, estou extremamente enfadada de estar nessa situação esse tempo todo”.
Fazendo o contraponto, sendo parte dos 34% dos homens que atuam em trabalho remoto, o professor e redator freelancer Flávio Marcílio Maia, 29, conta que faz o trabalho desde março - início dos decretos da pandemia no Estado. “Toda a rotina mudou, desde a hora de acordar até as refeições que muitas vezes foram e são feitas em horas diferentes da usuais. O relacionamento com colegas mudou também, meio que ficou tudo misturado”, salientou. Flávio retrata ainda que, no começo, conseguia administrar bem, mas tem dias que são bem complicados de lidar com tudo que acontece lá fora. “Geralmente pela manhã eu faço coisas mais técnicas como responder e-mails e escrever algum texto, pela tarde quase não funciono e de noite, o horário que deveria estar sem trabalhar é a hora que mais tenho ideias criativas para meus trabalhos”. Sobre a maior dificuldade, Marcílio diz que é lidar com ele mesmo. “De tanto tempo em casa a gente fica tendo conflitos existenciais e pensamentos desnecessários. A ansiedade para sair também é algo difícil de lidar”.
DADOS
De acordo com levantamento do Dieese, do total de ocupados, atualmente 10% trabalham de maneira remota. Ou seja, de 840 milhões de trabalhadores, 8,4 milhões exercem suas funções de suas casas. Em Alagoas, atualmente, são 908,5 mil pessoas ocupadas, sendo 65,5 em trabalho em home office, o que é equivalente a 7% do número total. Além disso, desse universo de trabalhadores em home office, 70% são negros e 30% não negros. Ainda conforme o estudo, 22% ganham mais de 3 salários mínimos e 78% têm casa própria. Enquanto 20% ganham mais de 2 salários mínimos até 3 salários mínimos, 7% ganham de 1 a 2 salários mínimos e 4% ganham menos de 1 salário mínimo.