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Historiador confirma morte de Zumbi em Vi�osa

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VALMIR CALHEIROS O historiador gaúcho Décio Freitas, autor, entre outras obras, de Palmares, a Guerra dos Escravos, já com várias edições, sendo a inicial em espanhol, editado pela primeira vez em português em 1973 e traduzido em outros idiomas, confirmou, em entrevista exclusiva a nossa reportagem, que Zumbi, o líder maior das lutas dos negros contra as desigualdades, foi traído por um dos companheiros e morto pelos bandeirantes, em 20 de novembro de 1695, em um sumidouro na Serra Dois Irmãos, em Viçosa, a 86 quilômetros de Maceió. A serra tem 400 metros de altitude ? é o ponto culminante do município. E ainda deixou a entender que investiga a hipótese de o ?Rei dos Palmares? ter vindo com alguns liderados até a localidade de Garça Torta, na parte norte da capital alagoana, a fim de tentar a fuga para a África pelo Oceano. Alfredo Brandão Até prova em contrário, foi o historiador alagoano de Viçosa, Alfredo Brandão, quem informou pela primeira vez, por meio do livro (Viçosa de Alagoas, de sua autoria e editado no ano de 1914, no Recife) a história de que Zumbi foi morto neste município. Ao descrever a respeito da origem da cidade de Viçosa, Brandão cita diversos pontos do município que já eram habitados nessa época, destacando, entre outros, o Sabalangá e a Mata Escura, ocupados por ?moradores que se sucediam desde os tempos dos Palmares?. Os primeiros desses habitantes foram de uma sub-tribo dos caetés ? os caambembes, ?que viviam em contínuas lutas com os cariris e outras tribos tapuias habitantes das caatingas?, que viviam perto do Litoral e tiveram que fugir para o Sertão para escapar de ser trucidados como os caetés, chacinados por vingança pelos colonizadores portugueses após a matança do primeiro bispo do Brasil, d. Pero Fernandes Sardinha e seus companheiros. E também pelos negros escravos fugidos dos engenhos, e ?embrenharam-se nas florestas e estabeleceram um quilombo ?que começando por um simples valhacouto, transformou-se nesse formidável agrupamento que, sob o nome de República dos Palmares, se tornou notável. Não só pela tenacidade e heroísmo com que os negros se bateram pela liberdade, como ainda pelo trágico fim de seus defensores. A julgar pelas afirmativas de Alfredo Brandão, a célebre República dos Palmares a ? Tróia Negra?, situou-se mesmo em terras da Viçosa e não na Serra da Barriga e suas imediações, em União dos Palmares, como aponta a maioria dos historiadores. Segundo o historiador viçosense, ?pode-se, hoje, provar que a zona hoje ocupada pelos negros abrangia os vales do Parayba e do Mundahú, desde as cabeceiras desses rios até poucas léguas de distância das lagoas, e estendendo-se para o norte, ao longo do cordão de ?matas bravas?, ia morrer muito alem dos atuais limites com o Estado de Pernambuco. Os pontos, porém, onde os mocambos mais se condensaram eram, justamente aqueles em que as matas se tornaram mais férteis, mas ricas em palmeiras e em caça e que por sua espessura poderiam oferecer mais abrigos aos negros e mais dificuldades às entradas. Esses lugares eram os ocupados hoje pelos municípios de União dos Palmares e Viçosa, e mui especialmente por este último, o qual é o berço e o túmulo da República dos Palmares, o primeiro refúgio e o último reduto dos desgraçados quilombolas?. Diz, ainda, Alfredo Brandão, citando um Diário da Viagem de uma das expedições dos holandeses aos Palmares, a do capitão Blaer, esses invasores pernoitaram, uma vez, no próprio local onde hoje se ergue a cidade de Viçosa e encontraram diversos mocambos em diversos pontos atualmente abrangidos pelo município. Um desses mocambos era o velho Palmares que, então, se achava abandonado. Novos documentos No entendimento de Décio Freitas, a Serra da Barriga faz parte do contexto por ter sido a capital dos Palmares, porque Palmares era formada de umas onze povoações, mocambos. Macacos, em União dos Palmares, era o mocambo principal. Já a Serra Dois Irmão foi o refúgio, após a destruição de Macacos. Lá, ele (Zumbi) ficou ainda por cerca de três anos. Rearticulou suas forças e estava de novo a de-senvolver atividades bélicas, com considerável número de seguidores. Zumbi estava reconstruindo seu exército. Freitas esteve em Maceió, na última quarta-feira, participando de um seminário realizado no auditório da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), como parte das comemorações da Semana da Consciência Negra, para proferir uma palestra acerca de sua obra. E também para acompanhar os trabalhos de edição de mais um livro, - A República Palmares - Documentos, ?com pelo menos 600 páginas, sobre Palmares, o qual deverá ser lançado nos primeiros meses de 2004. ?Busquei documentos inéditos para elaborar este outro livro. Uso este termo ?república?, porque no Quilombo dos Palmares o poder não era exercido hereditariamente. Existia igualdade civil; não havia uma nobreza, nem sucessão no poder, como nos reinados. Agora, não era uma república democrática, até porque este conceito não existia: era igualitária, mas não democrática?. - O que existe de novo na história de Zumbi? - Eu gostaria que houvesse um avanço muito além de meu livro sobre a história de Palmares. Para ensejar isso é que fiz a doação dessa farta documentação à Ufal, mas, infelizmente, não houve avanços. Todo esse tempo passou e ninguém se interessou. Este último reitor (Rogério Pinheiro) determinou a publicação deste livro. Isso privou os pesquisadores, ao longo do tempo, de uma fonte riquíssima. Essa publicação deveria sair agora, neste 20 de novembro, dia da Consciência Negra, mas pelo que me informaram, houve problemas de ordem técnica com a gráfica. Os documentos para a elaboração deste livro foram colhidos, pesquisados, em Portugal no Arquivo Histórico Ultramarino, no arquivo da Torre do Tombo, na Biblioteca da Ajuda e no Arquivo Distrital de Ébora?. - O que existe de errado na história de Palmares? A tese do suicídio coletivo desapareceu? - Essa história do suicídio eu a desfiz. Ele (Zumbi) não se suicidou. Eu provei que ele morreu combatendo. Depois da queda da Capital Palmares, Cerca Real dos Macacos (Serra da Barriga, em União dos Palmares) ele se refugiou em uma caverna, e aí traído por um de seus homens de confiança, foi morto pelos Bandeirantes. - Essa caverna seria na Serra Dois Irmãos, em Viçosa? - Exatamente. Ele tinha um homem da confiança dele, que era um mulato por sinal. Eles se refugiavam numa caverna, um sumidouro, na Serra Dois Irmãos, hoje Viçosa. Então, os Bandeirantes prenderam este homem de confiança. Torturaram-no e mediante promessas de recompensas, ele se prontificou a revelar o esconderijo de Zumbi. Então se dirigiu à boca da caverna e do lado de fora ele deu a senha, e Zumbi saiu da caverna, então, os Bandeirantes o fuzilaram. Zumbi foi vítima de uma traição. Isso está no meu livro: Palmares, a Guerra dos Escravos. Nesse próximo trabalho eu ratifico. O que se dizia, era que ele tinha se suicidado, por ocasião da queda de Macacos, mas descobri que não. Ele foi morto depois, em 20 de novembro de 1795. Como também descobri que Zumbi não era um posto militar. O que comprovei é que Zumbi foi uma pessoa física e que não existiam vários zumbis, como pensavam. - Alfredo Brandão também atesta que Zumbi morreu em Viçosa, como também, atesta a existência de um sumidouro. O senhor ratifica está história? - Sim. Conheço a obra de Alfredo Brandão e ratifico, com base nos documentos portugueses, que Zumbi foi morto em Viçosa. - A história de que Zumbi nasceu em Porto Calvo e foi criado por um padre merece fé? - Não tenho dúvida também quanto a isso. O padre que criou Zumbi, Antônio Melo, era de Salvaterra (pequena cidade portuguesa), para onde retornou e morreu. Eu fui a Salvaterra, onde encontrei, num arquivo, a carta em que ele relata como criou Zumbi. Quando este padre soube da morte de Zumbi escreveu uma carta para outro padre amigo deste, contanto o quanto sentiu pela morte de Zumbi e de como o tinha conhecido. Numa daquelas expedições contra Palmares, colocaram em fuga camponeses palmarinos e, na fuga, uma mulher deixou uma criança recém-nascida para trás. O chefe da expedição apoderou-se- dessa criança e a entregou ao padre, quando voltou a Porto Calvo, já que a cidade era a base de operações contra Palmares. O padre criou essa criança, Zumbi, para ser coroinha de missa. Quando completou 15 anos Zumbi fugiu. E o padre ficou muito triste. Nessa carta que o padre escreveu ao amigo ele relata lamentando que Zumbi tenha saído do ?bom caminho?. Palmares era um verdadeiro Estado. O rei de Portugal chegou a negociar uma trégua com Palmares. Tive acesso a esse documento, uma carta. Houve uma embaixada palmarina até no Recife. E houve uma embaixada do reino até Palmares, então trocaram embaixadores. Palmares era um verdadeiro Estado, com relações diplomáticas. Quem frustrou o primeiro acordo feito por Gangazumba foi Zumbi, que era contra o acordo. - O que ainda se desconhece sobre a história de Zumbi? - Muita coisa ainda precisa ser esclarecida. Como eu digo é uma história lacunar, possui vários espaços em branco. E ainda mais: tudo o que se sabe sobre Palmares é através de documentos de seus inimigos. Cada comandante de expedição exagerava na quantidade de mortos. Uns diziam que haviam matado 15 mil, outros dez mil. Isso aí eu desprezo, porque a população total de Palmares não chegava a ultrapassar esses números. Em alguns casos há contradições nos documentos, por isso, temos de usar certas técnicas de pesquisa. Do mesmo modo, muitos historiadores brasileiros diziam que Zumbi era uma patente militar, e que tinha havido muitos Zumbis. Pois bem, quando estive em Portugal, vi que em muitos documentos davam fé que tinham sido executados muitos zumbis, portanto, tinham razões tais historiadores. Os matadores atestavam a morte de Zumbi junto a um tabelionato, o vice-rei ratificava. Em troca disso, recebiam promoções de posto militar e terras. Só que descobri, numa consulta no Conselho Ultramarino que um parecer pedia a cassação de todas aquelas declarações, porque a afirmação de que tinham matado Zumbi era mentirosa. Portanto, não dá para se confiar cegamente em documentos. É preciso uma investigação muito mais profunda sobre Zumbi. Eu, por minha parte, já trabalhei muitos anos e encerrei. Minha história com Palmares já acabou. Comecei a trabalhar em 1965. - É uma historia apaixonante. - É apaixonante porque eu vi uma luta contra a escravidão, contra o colonialismo português e, no fundo, uma luta, de certo modo, a favor da independência do Brasil. Se os negros tivessem sido vitoriosos, a História brasileira seria diferente. Mas deixaram uma bandeira de luta. - O que falta Alagoas fazer em torno de Zumbi dos Palmares? - Prosseguir na investigação e pesquisa histórica. Acho que Alagoas deve se preocupar menos com o folclore negro e se preocupar mais com a história dos negros. - A Prefeitura de Viçosa quer fazer projeto turístico e histórico sobre Zumbi, o que o senhor acha disso? - Excelente idéia. Gostaria de ir a Viçosa, mas infelizmente estou de viagem marcada. Fica para uma outra oportunidade, com o maior prazer.

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