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Serra Dois Irm�os pode ser parque nacional

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VALMIR CALHEIROS E SEVERINO CARVALHO Encontra-se em vias de implantação o que deverá ser um dos mais importantes projetos turísticos da iniciativa do poder público em Alagoas: a transformação, em parque nacional, da Serra Dois Irmãos. Trata-se de mais uma iniciativa para preservar a memória de Zumbi e resgatar a história das lutas do Rei dos Palmares e de seus seguidores por justiça em relação à raça negra, justamente no município que, conforme garante o historiador Alfredo Brandão, ?foi o berço e o túmulo da República dos Palmares, o primeiro refúgio e o último reduto dos desgraçados quilombolas?. A região é cortada pelo Rio Paraíba do Meio, riquíssima em belezas naturais. De vales verdejantes, cachoeiras, grutas, resquícios de mata atlântica. E de onde se vê, no horizonte, e não muito distante, a outra serra histórica, a da Barriga, em União dos Palmares, cenário das mais terríveis investidas contra Zumbi e seus companheiros. Se depender da disposição do prefeito Flaubert Torres, as atenções despertadas por ocasião das festividades alusivas ao aniversário da morte de Zumbi ? Dia Nacional da Consciência Negra ? também serão direcionadas à Serra Dois Irmãos e, conseqüentemente, à Viçosa, já no ano vindouro, com o Parque devendo ser uma realidade em menos tempo que o tão aguardado Memorial de Zumbi, em União dos Palmares, anunciado pelo governo estadual, pela primeira vez, há 23 anos. Torres fez várias incursões a pé e a cavalo. Determinou a abertura de trilhas que dão acesso à cachoeira dos Dois Irmãos, com uma imensa queda d?água. Esteve no platô, onde vivem cerca de 150 pessoas da agricultura familiar. Providenciou pequenas pontes a fim de facilitar a travessia do Paraíba. Comemora o fato de os passeios até a serra começarem a constar dos programas de domingo de viçosenses. E já organiza, para o dia 30 próximo, uma caminhada até a Cachoeira Dois Irmãos, que contará com a apresentação da Banda Afro-Gurungumba, criada pela Escola Municipal São José, com o objetivo de divulgar o projeto e inaugurar a trilha recém-aberta. São os primeiros eventos destinados a lembrar a passagem de Zumbi por Viçosa. Projeto viável O deputado federal por São Paulo e viçosense Aldo Rebelo (PC do B) esteve em Viçosa recentemente, à convite da prefeitura. Visitou a área que compreende a região da Serra Dois Irmãos. Segundo Flaubert, Aldo Rebelo ficou encantado e garantiu concentrar esforços para viabilizar a implantação do Parque junto com a prefeitura. ?O projeto é amplo, demanda tempo, mas é extremamente viável e vai gerar trabalho e renda. Vamos explorar de forma sustentável o turismo, promovendo caminhadas por trilhas, cavalgadas, outras atividades esportivas, culturais e de lazer?, acredita. O último refúgio ?A região, além de possuir belíssimas paisagens, conta com o apelo histórico de que as últimas batalhas do Quilombo dos Palmares foram travadas ali. Há até um sumidouro, onde Zumbi se refugiou com seus guerreiros acossados pelas tropas de Domingos Jorge Velho. Não sou eu, mas vários historiadores que afirmam ser a Serra Dois Irmãos onde Zumbi encontrou refúgio, mas foi executado?, declara o prefeito viçosense, fundamentado nas afirmativas do historiador conterrâneo Alfredo Brandão e ratificada pelo professor e historiador gaúcho Décio Freitas. Mocambos e ossadas O historiador Alfredo Brandão, em sua obra Viçosa de Alagoas, atestou que os mocambos do Quilombo dos Palmares: Osenga, Andalaquituche e Dambrabanga ficavam em terras onde hoje se situa o município de Viçosa. Sobre este último, o pesquisador compara o nome Dambrabanga com Sabalangá, designação de um dos mais antigos povoados de Viçosa, habitado, à época, por negros livres. Em 25 de abril de 1911, Brandão apresentou ao Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, a hipótese de que a palavra Sabalangá poderia vir de ?Zamba-gona?, nome de um dos chefes palmarinos. O historiador recorre à etimologia da palavra, composta, segundo ele, de duas partes: Zala e Banga. A primeira significa resistência, agrupamento de casas; a segunda, o nome de uma serra onde os negros tinham se alojado no último período da guerra dos Palmares. ?Em carta de 5 de setembro de 1692, o governador da capitania de Pernambuco dizia ao rei de Portugal que o mestre de campo Domingo Jorge Velho ficava com sua gente no coração de Palmares fazendo cruel guerra aos negros, aos quais tinha tido algumas investidas bem-sucedidas, do que se poderia esperar quando no verão fossem os negros desalojados do oiteiro do Banga?, escreveu Brandão; e concluiu: ?Da similitude da palavra Banga com Sabalangá (uma espécie de corruptela) e da proximidade desse povoado com a Serra Dois Irmãos, pode se concluir ser essa a serra ou oiteiro a que alude a consulta?. Brandão escreveu que ?a maioria dos nossos historiadores circunscreve o domínio do Quilombo à Serra da Barriga. Porém, os pontos onde os mocambos mais se concentravam eram justamente aqueles em que as matas se tornavam férteis. Esses lugares eram os ocupados hoje pelos municípios de União e Viçosa e mui precisamente por este, o qual foi berço e túmulo da República Palmares?. Ele baseia sua afirmativa no diário de viagem do capitão holandês João Blaer aos Palmares em 1645, publicado no número 56 da revista do Instituto Histórico e Geográfico de Pernambuco. De acordo com Brandão, o diário fala de uma cachoeira. ?E quem possua algum conhecimento da topografia de Viçosa, orienta-se perfeitamente: a cachoeira do Paraíba a que ele alude só pode ser a da Serra Dois Irmãos?, escreveu. O pesquisador cita ainda a aparição, no início do século 20, de ossadas na Serra Dois Irmãos, resquícios de lutas e a existência de um sumidouro (espécie de esconderijo utilizado pelos negros), também relatado num trecho de um documento do Conselho Ultramarino de 18 de agosto de 1696.

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