Cidades
MORADORES ACUSAM BRASKEM DE DESCASO
O drama dos moradores dos bairros do Pinheiro, Mutange, Bebedouro e Bom Parto, em Maceió, que foram afetados por rachaduras em decorrência da mineração, permanece até hoje. Os donos de alguns imóveis afetados entraram em contato com a Gazeta de Alagoas informando que, mesmo após todo esse tempo, não estão sendo contemplados pelos acordos oferecidos pela mineradora. Muitos, segundo relatos, estão na divisa entre as áreas de risco e as áreas de monitoramento, não sendo beneficiados pelos acordos.
De acordo com Wellington, que entrou em contato em nome de seu pai, Carlos Alberto Brito, um idoso de 64 anos e que mora na Rua Bela Vista, no bairro do Pinheiro, rua essa que permanece na divisa entre uma área de fraturamento intenso e uma área de passível expansão dos processos erosivos, sendo representadas pelas cores roxo claro e verde escuro, respectivamente, segundo o mapa mais recente divulgado pela Defesa Civil de Maceió, o medo e a angústia pela possibilidade de perder sua família são grandes.
“Meu pai está sim em uma área de risco, porque a Braskem já colocou o selo em todas as casas próximas, somente a dele que não foi afetada. Eu ligo para eles o tempo inteiro e não me dão respostas. Já vieram aqui em casa quatro vezes e nada aconteceu. Na última vez que vieram, acredito que no começo do mês, disseram que entrariam em contato e até agora nada. Sempre que eu ligo e digo o nome de meu pai eles desligam o telefone”, relatou o morador.
O homem, visivelmente emocionado, apela por ajuda e conta que seu pai é um homem de idade, que não pode passar por isso. Segundo ele, que é casado e não mora mais no bairro, seu pai vive com seus irmãos e o medo é constante para a família toda. “Eu não quero perder minha família inteira para que decidam fazer algo. Só quero que meu pai saia de lá e receba os direitos dele, porque isso não é culpa nossa. Nós ligamos todos os dias e ninguém nos diz nada.”
A mesma situação é vivida por Joyce Oliveira, que mora também no bairro do Pinheiro, na Rua Professor José da Silveira Camerino, e que conta permanecer na fase de monitoramento, mas sem previsões de acordo, diferente de estabelecimentos em ruas vizinhas que já foram fechados pelos riscos. “Aqui estamos na fase de monitoramento, que seria a verde escura, mas estamos vendo um progresso, no sentido negativo, do avanço das fissuras nos apartamentos e na área comum, como o elevador, que é um risco. O que nos preocupa é que aqui ao lado tem uma galeria e ela está sendo fechada, os inquilinos próximos já vão sair, e para a gente nada mudou. Como o risco é só de um lado da rua?”, questionou a moradora.
“Não é só especulação, nós estamos vendo os sinais e as rachaduras estão crescentes. O medo é constante aqui, temos moradores com rachaduras no piso. Saiu um mapa recente e nada mudou, o que não faz sentido, porque a situação se agravou. A Defesa Civil chegou a vir aqui, disse que entraria em contato com laudo mas até hoje nada. Por isso, alguns moradores estão querendo se juntar para tentar alguma coisa. O que tem que ser pleiteado é a inclusão do prédio na área de acordo. Eu só quero, assim como os outros moradores, receber a indenização pelo que fizeram”, pontuou. Um dos moradores do mesmo condomínio de Joyce e que preferiu não se identificar, contou que a situação é de medo constante e, em seu caso, o agravo é que sua esposa está grávida. “As rachaduras no meu apartamento cresceram muito, para se ter noção, elas vão do teto até embaixo, e tem uma no piso do meu quarto, pense no perigo que é isso. E não faz sentido, porque o prédio é novo, ou seja, o problema é maior. Moro com minha esposa, que está grávida, como a gente pode ficar tranquilo em uma situação dessas? Não sei nem sequer se posso arrumar um quarto para meu filho com o risco que está”, relatou o morador.
Ele informou também que uma Junta Técnica da Braskem visitou seu apartamento e constatou a situação, porém, ainda não liberou o laudo do local. Contudo, o morador relata que viu o novo mapa divulgado pela Defesa Civil, e nele, a área que ele mora, permanece da mesma forma, mesmo a Braskem estando ciente da situação de seu apartamento. “Temos uma galeria e uma escola fechadas na rua ao lado por riscos, mas aqui nada. Não queremos nada além de um acordo justo com a mineradora.”
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“Nós estamos inicialmente esperando o laudo da Defesa Civil, através da Junta Técnica que eles têm com a Braskem, a partir dessa laudo e da resposta deles nós iremos tomar as medidas cabíveis com relação a isso. Inicialmente tentamos o contato com a Braskem e posteriormente iremos para a questão judicial.”
BRASKEM
Em nota, a mineradora Braskem informou que, desde que entregou os estudos de impactos de superfície às autoridades competentes, a empresa está em tratativas técnicas para a definição de possíveis novas ações a serem adotadas, em comum acordo, nos bairros afetados pelo fenômeno geológico. A ampliação da área de desocupação e o Mapa de Setorização de Danos e de Linhas de Ações Prioritárias da Defesa Civil seguem sendo discutidos com as autoridades. “A prioridade da Braskem continua sendo a segurança dos moradores da região”, destacou. “O acordo assinado entre os ministérios públicos Federal, Estadual, defensorias públicas de Alagoas e da União e a Braskem prevê que os imóveis localizados em áreas adjacentes ao mapa podem ser avaliados por uma junta técnica, a pedido do morador. Se constatada a situação de risco estrutural grave, tais imóveis serão incluídos no Programa de Compensação Financeira e Apoio à Realocação da Braskem. A junta técnica reúne especialistas das defesas civis Municipal e Nacional e um perito indicado pela Braskem. Para acioná-la, o morador deve ligar para o telefone 0800 006 3027. A ligação é gratuita”, frisou a empresa.