Cidades
MORADORES DE BAIRROS POBRES SÃO MAIS VULNERÁVEIS À PANDEMIA
Algumas áreas da periferia concentram maior número de mortos pelo novo coronavírus
A pandemia do novo coronavírus é ainda mais cruel para quem vive em comunidades consideradas mais pobres, onde os serviços básicos não atendem à demanda e a população depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS). Em Maceió, por exemplo, todos os bairros registraram casos de Covid-19, mas algumas localidades - principalmente da periferia - contabilizam número maior de mortos.
Os seis bairros de Maceió com mais óbitos provocados pelo novo coronavírus são Jacintinho, Benedito Bentes, Cidade Universitária, Tabuleiro do Martins, Clima Bom e Vergel do Lago. Eles, juntos, contabilizaram mais de 350 vítimas, cerca de 37% do total de mortes em Maceió.
Os números mostram que os seis bairros têm mais de 9,7 mil casos confirmados da doença, mais de 34% do número geral de infectados na capital, que se aproxima mil óbitos e quase 29 mil notificações.
Os dados não contabilizam os pacientes que não informaram a localidade onde moram. O levantamento foi atualizado na quinta-feira (1) e consta no painel de informações interativas sobre a pandemia da Secretaria de Planejamento, Gestão e Patrimônio (Seplag).
Em maio, um levantamento feito pelo IBGE já mostrava que bairros considerados mais pobres de Maceió registraram mais óbitos em decorrência da Covid-19, como o Benedito Bentes, Vergel do Lago, Ponta Grossa e Cidade Universitária.
Por essa linha de que os pobres sofrem mais com a pandemia é que um estudo conduzido pela Universidade Federal de Pelotas, divulgado no mês passado, aponta que essa parte da população brasileira tem duas vezes mais chances de ter sido infectada pela Covid-19 do que os mais ricos.
Emerson do Nascimento, professor de Ciência Política do Instituto de Ciências Sociais da Ufal explica que a pandemia do novo coronavírus tem promovido perdas humanas incalculáveis, mas também tem servido para realçar as nossas desigualdades sociais históricas. E que as condições de isolamento, que ainda a principal ferramenta de proteção e prevenção contra a Covid-19, não se distribui de forma homogênea por toda a população, muito pelo contrário.
“Para muitos, o acesso a condições de higiene e a possibilidade de realização do trabalho por home office mostrou-se um privilégio de poucos. À propósito, não podemos esquecer que as condições ideais de isolamento de alguns, deram-se e ainda se dão, exatamente, às custas da exposição de muitos”, avalia.
Ele acrescenta que, “não por acaso, é recorrente na fala de muitas pessoas, sobretudo moradores das periferias, que o isolamento sempre lhes foi algo distante que, na prática, pouco ou nada vivenciaram. Nesse sentido, é perceptível que aquele discurso inicial que tanto se propagou nas primeiras semanas, quando foi oficialmente decretada a pandemia pela OMS, a ideia de que estamos todos no mesmo ‘barco’ não encontra qualquer ressonância na vida real”, diz.
GRUPOS MAIS PRIVILEGIADOS
Na opinião de Emerson, há grupos mais privilegiados do que outros e esses privilégios interferem diretamente nas condições de resistência e exposição ao novo vírus e que não se pode fazer pouco caso dessa questão. A Gazeta pergunta ao professor se acredita que o Estado oferece condições para que os mais pobres possam ficar em casa nessa pandemia. “A necessidade de intervenção do poder público no caso da pandemia do novo coronavírus foi indispensável, seja como regular das atividades de rotina (ainda que saibamos das limitações dessas medidas sobre parte da população mais vulnerável), seja como promotor de acesso a uma fonte de renda emergencial por esses meses”, explica. Na avaliação do professor, o acesso à renda emergencial cumpriu um papel fundamental, garantindo condições mínimas de sobrevivência, especialmente para os mais vulneráveis, mas também para aqueles que tiveram suas atividades interditadas em função do isolamento social como os trabalhadores do entretenimento, das artes e, especialmente, os pequenos empreendedores.