Cidades
AL tem mais de seis mil vagas para deficientes
O levantamento realizado pela Procuradoria Regional do Trabalho demonstrou que seis mil postos de trabalho estão disponíveis na iniciativa privada para portadores de deficiência. As vagas foram geradas pela Lei 8.213/91, que obriga empresas que tenham mais de 100 empregados a reservar cotas para esse segmento de trabalhadores. ?Apesar de ser um número razoável, apenas 800 pessoas estão trabalhando. Sobram vagas porque falta aos candidatos formação compatível com as necessidades do empregador?, explica a procuradora Virgínia Gonçalves Ferreira, integrante do Núcleo de Combate à Desigualdade de Oportunidades de Trabalho da Procuradoria. As empresas com 100 funcionários devem ter 2% de ocupação por portadores de deficiência; acima de 200, 3%; 500, 4% e acima de 1.000 trabalhadores, 5% . ?Com base nessa distribuição prevista na lei, calculamos quanto cada empresa estabelecida no Estado (são cerca de 130 registradas na DRT, com mais de 100 funcionários) comportaria o trabalhador portador de algum tipo de deficiência. Convocamos os empresários, comunicamos sobre a importância do cumprimento da lei e eles foram receptivos. No entanto, a lei não obriga o empregador a ficar com pessoas que não serão úteis no serviço. Não tem sentido dar o emprego se a pessoa não preencher o perfil. O processo de admissão é o mesmo usado para qualquer outro trabalhador. Exige-se formação técnica para a vaga aberta, o que é correto porque seria humilhante empregar por misericórdia. Nem os próprios portadores de deficiência querem isto. Eles não se sentiriam bem. É um pessoal que faz questão de ser indispensável da função, quer mostrar competência e, afinal, a deficiência não bloqueia sua inteligência. Seu intelecto tem o mesmo potencial. Basta ter acesso à escola, uma formação acadêmica, que a aprendizagem flui normalmente?, observa Virgínia. Ela ressalta que em Alagoas os grandes empregadores ainda são as usinas. O setor açucareiro absorve muita gente, apesar de pagar o mínimo permitido pela legislação, para a maioria dos cargos. Como são abertos mais postos de trabalho em atividades braçais, é inviável absorver o portador de deficiência nesse ramo de atividade. Tem ainda o agravante da distância: fica difícil chegar ao local de trabalho. Vagas O comércio aparece como o segundo maior empregador. Os supermercados, principalmente, têm conseguido preencher as vagas abertas para os portadores de deficiência. No Palato trabalham dois, a rede Bompreço tem cerca de 30, incluindo todas as lojas (o setor de RH do supermercado não confirmou o total). O Via Box também já absorveu esse segmento de trabalhadores em seu quadro. Geralmente, as vagas são abertas no setor de empacotamento. ?São muitas lojas, mas o problema é que poucas têm a cota mínima exigida pela lei: 100 funcionários?, lembra a procuradora. Das 800 vagas preenchidas, 350 foram intermediadas pela Associação dos Portadores de Deficiência Física de Alagoas (Adefal). A entidade mantém um convênio com os Correios e conseguiu incluir 70 pessoas em setores como informática e apoio administrativo, por exemplo. O convênio também foi selado com a Ceal, Companhia Energética de Alagoas e empresas de ônibus. ?Temos, inclusive, cobradores trabalhando na Real Alagoas, São Francisco, São Domingos e Piedade?, disse Gerônimo Cerqueira, presidente da Adefal e vereador. Ele reconhece que o maior obstáculo para o preenchimento das vagas é a escolaridade. ?Infelizmente, predomina entre os portadores de deficiência do Estado a baixa escolaridade. A maioria é pobre e mora em locais de difícil acesso, como grotas, favelas, bairros periféricos. Somos 433 mil habitantes, segundo dados do último senso realizado pelo IBGE, incluindo os 98 mil surdos ? a maioria dessa população é formada por pessoas que apresentam deficiência física, seja ela congênita ou seqüela de acidentes. Dos 433 mil, 82% são analfabetos, daí a dificuldade de inserção no mercado de trabalho. É imperativo lutarmos pelo acesso à escola e isto não se limita à abertura de vagas nas salas de aula. Envolve toda uma infra-estrutura, como garantia de transporte, rampas nas escolas e em todos os locais da cidade onde o portador de deficiência precisa chegar. É um cidadão como qualquer outro e precisa ter acesso a qualquer lugar. Quando a cidade não oferece condições para que o portador de deficiência circule normalmente, é claro que cria uma barreira ao desenvolvimento dessa parcela da população?, concluiu Gerônimo. (FV)