Cidades
NATAL: Os anjos invadem a Terra trazendo presentes de luz
RAIMUNDO GOMES Natal é uma data diferente dos demais dias do ano. É como se todos os Anjos invadissem a Terra, trazendo presentes de luz e enchendo-nos de uma sensação de paz, de esperança, de fraternidade. De lá do alto, o dono da festa (Jesus) contempla cada coração, muitos deles endurecidos, não se deixando ser tocados pela cintilação do amor natalino na sua mais alta e delicada expressão. Mas há, também, aqueles que alegram ao Senhor, que transformam cada minuto de suas vidas em momentos de celebração, por entender que o Natal tem o condão miraculoso de lembrar-nos que somos uno com o Menino Jesus, com tudo e com todos. O verdadeiro Natal, na expressão do cônego Henrique Soares da Costa, reitor da Igreja do Livramento e mestre em Teologia, revela um Deus de carne e osso! Mais ainda: o modo como o Senhor vem sempre a nós, como nos aparece, como se nos dá, como pode e quer ser encontrado: na fraqueza, na força, na pobreza, na doçura ? e não na força, na riqueza, no terror. Os exemplos a seguir caracterizam bem o verdadeiro sentimento cristão, a forma como Deus age e se revela aqueles que o buscam com pureza em suas intenções; aqueles que o amam acima de todas as coisas e sentem em sua pele a dor que está sentindo seu próximo. Um homem temente a Deus, crente, em dias que antecediam o Natal, como hoje, reuniu-se com a esposa e quatro filhos à mesa para o último jantar de tudo que lhe restou na dispensa após quatro meses de desemprego. Como fazia de costume, antes da refeição agradeceu ao Senhor por tudo que Ele tinha feito por sua família até aquele dia. Mas naquele momento, a tristeza invadiu seu coração. Com lágrimas banhando-lhe a face, pediu a Deus que o ajudasse, renovando-lhe a fé e a esperança de que o Senhor nunca desampara aqueles que n?Ele esperam e confiam. À noite, em sua prece antes de dormir, novamente pediu a Deus que tivesse compaixão de sua família. Ao adormecer, alguém lhe apareceu, em sonho, e mandou que ele acordasse cedo e fosse com a esposa ao supermercado que ficava próximo de sua residência, em Casa Amarela, no Recife, e colocasse em dois carrinhos mantimentos suficientes para o sustento da família por um mês. Ele teria que fazer isso o mais rápido possível, para ser o primeiro cliente a registrar as mercadorias no caixa. Ao acordar, logo depois do sonho, o homem chamou a esposa e contou-lhe o que tinha acontecido. Na sua concepção, fora um anjo do Senhor que lhe apareceu. Confiantes de que se tratava de uma providência divina, ele e a esposa foram os primeiros a entrar no supermercado. Cada um com um carrinho, encheram de tudo e correram para o caixa. ?Seja o que Deus quiser?, confidenciava o homem, diante do olhar atônito da esposa, quando registrava os primeiros produtos. Ao ver o caixa passar as últimas mercadorias, ele começou a sentir calafrios. Mas manteve-se confiante no Senhor. Quando o penúltimo pacote era registrado, alguém anunciou no serviço de som da loja: ?Prezado cliente do caixa cinco (era o caixa em que ele estava), parabéns por ter sido o primeiro a chegar aos nossos caixas, com carrinho. O senhor é o contemplado de hoje da nossa promoção-surpresa da semana de Natal e não vai pagar nada por suas compras?. O homem abraçou-se à esposa e ambos choravam de alegria e emoção. O gerente da loja aproximou-se para dar os parabéns e ficou surpreso ao vê-los chorando. O homem lhe contou o sonho que o fez ir ao supermercado. Emocionado com o tamanho da fé que moveu o casal, o gerente ainda pagou o táxi para levar as mercadorias (o casal não tinha um centavo no bolso) e mandou que o homem voltasse depois do Natal para lhe conseguir um trabalho. Otestemunho do homem do Recife, que ouvi há alguns anos, mostrando como Deus, em sua graça e misericórdia, responde as orações daqueles que Nele depositam sua fé e esperança, veio-me à mente, esta semana, quando conversava, no Trapiche da Barra, com um casal de missionários que também pode ser inserido na galeria daqueles que, no Natal e em todos os dias do ano, além da fé, exercitam o dom de amar ao próximo como a si mesmo. Carlos Roberto Marques Ferreira (Roberto Diamanso, como é mais conhecido), 40 anos, natural de Taquarana (AL), sentiu, ainda jovem, em São Paulo, onde residiu durante 22 anos, o desejo de trabalhar com sua esposa, América, no Ministério Ágape, ajudando e evangelizado pessoas excluídas. Há 16 anos ele era funcionário da Febem, onde descobriu sua vocação para cuidar de crianças e adolescentes. O desejo que ardia em seu coração há alguns anos o levou, juntamente com sua esposa, também num período natalino, a procurar o Juizado da Infância e da Adolescência, no bairro do Morumbi, onde residia, e colocar seu lar para receber crianças abandonadas. De uma só vez chegaram oito. Depois vieram mais duas. Foi preciso pedir demissão da Febem para se dedicar mais à Missão Ágape e cuidar das crianças. Convidado para trabalhar com jovens em uma igreja na cidade de Estância, o casal e seus 13 filhos (três biológicos e dez adotivos), transferiram-se para Sergipe, onde residiram por dois anos. No ano passado, também no período de Natal, eles receberam convite para vir trabalhar na Igreja Batista, no Trapiche. O casal comprou uma casa na Praça Pingo D?Água, nº 75, no final da Av. Siqueira Campos, onde reside com sua garotada. Ao visitá-los, esta semana, fiquei admirado ao ver o amor com que as crianças são tratadas, num lar humilde, mas cheio de ternura, de paz, de uma felicidade que brilha na face do casal e de cada um de seus 13 filhos, com idades entre 6 e 18 anos. Da mesma forma que os filhos biológicos, os adotivos chamam Diamanso de pai e são chamados de ?filhos queridos que o Senhor nos deu?. Vivendo pela fé Com R$ 600 que recebe de um jogador de futebol que trabalha atualmente na Espanha e mais R$ 1.200 de uma igreja da Flórida (EUA) e da venda de um CD de músicas evangélicas, que canta ao som de seu violão, Roberto Diamanso sobrevive condignamente com sua família. ?Vivemos pela fé. Se faltar alguma coisa, pedimos a Deus e logo aparece alguém para nos ajudar, como surgiu recentemente o movimento Desperta Débora?, afirma o missionário-cantor. Todas as crianças estudam em colégios particulares, por conta de outra ajuda que o casal recebe de um dos diretores da área de marketing do jornal Folha de São Paulo. ?Trabalhamos para construir um celeiro de missionários e Deus nunca deixou faltar em nossa mesa as três refeições. Pelo contrário, sempre estamos ajudando outras pessoas mais necessitadas?, reforça Diamanso. Ele espera concluir em 2004 o processo de adoção, iniciado em São Paulo, dos 10 filhos. ?Todos os dias, no início da noite, reunimo-nos, eu e minha família, num momento devocional para agradecer a Deus as bênçãos que ele repete a cada manhã em nossas vidas. E colocamos diante D?ele, também, a necessidade de consolidar a adoção dos meus filhos queridos?, completou o missionário, sendo carinhosamente beijado por algumas das crianças.