Cidades
MORRE O RADIALISTA E PERITO CRIMINAL AÍLTON VILLANOVA
Ele não resistiu às complicações decorrentes do tratamento contra a Covid-19
Um olhar que percorria a cidade em busca de humanidade, uma voz possante, capaz de chamar a atenção dos mais desatentos ouvintes, um jeito único de noticiar e contar histórias, um exímio perito - principalmente na arte de fazer amigos. Assim pode ser descrito o jornalista, perito criminal e radialista Aílton Villanova, que morreu na quinta-feira, 7 de janeiro de 2020, por complicações decorrentes da Covid-19.
Aílton iniciou a trajetória na comunicação em 1956, quando tinha apenas 15 anos. Teve o primeiro texto publicado na edição de domingo do Jornal de Alagoas, incentivado pelo professor Lauro Costa, do Lyceu Alagoano.
No ano seguinte, ainda na escola, foi contratado como repórter policial da Gazeta de Alagoas e passou a trabalhar na Rádio Difusora. Desde então, passou pelos mais importantes jornais do Estado: Tribuna de Alagoas, Jornal de Alagoas, Diário de Alagoas, Correio de Maceió, Correio de Alagoas e Tribuna Hoje, onde assinava uma coluna de crônicas.
Em 1976, encabeçou o projeto ousado de inaugurar as transmissões jornalísticas da TV Gazeta. Foi diretor de Jornalismo da emissora e apresentador do então chamado “Jornal Nacional Alagoas”, hoje AL-TV segunda edição, que precedia o Jornal Nacional. Na década de 1980, participou da fundação da Rádio Gazeta FM (Rádio Clube de Alagoas), apresentando uma programação que mesclava música e notícias. Enquanto os colegas jornalistas se referem a Aílton Villanova como um grande mestre da comunicação, vindo de uma época em que nem existia faculdade de Jornalismo, os leitores o descrevem como um jornalista que noticiava como quem falava com um bom amigo. Para o escritor Carlito Lima, Aílton possui um legado que vai além das áreas em que atuava. Ele explica que a união de crítica e humor, além da sensível capacidade de garimpar histórias nos lugares que ninguém queria ir, fazem do jornalista um “herói que a Covid nos levou”. “Meu Deus! É duro, é inacreditável, uma tristeza profunda em cada amigo, em toda Alagoas, que perde um herói, destemido delegado, uma das figuras mais respeitadas dessa cidade”, lamenta Carlito. ”A Covid levou nosso maior contador de histórias, uma das maiores perdas da cultura alagoana. Que Aílton Villanova, um lutador por uma sociedade melhor e mais justa, esteja em paz. Homens como Ailton não se apagam da memória, será sempre lembrado por tudo que fez em vida. Dizem que não existem homens insubstituíveis. Pois Ailton Villanova é insubstituível em nossa comunidade, em sua terra, em Alagoas”, finaliza o escritor.
O FIM DA LENDA DOS HIGHLANDERS
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A morte de Aílton Villanova foi confirmada pelo filho, o chargista e publicitário Leo Villanova, que postou uma homenagem ao pai nas redes sociais. “Nesta quinta-feira, 07 de janeiro de 2021, no preciso horário das 20h46, eu deixei de acreditar na lenda dos Highlanders, aqueles que seguem na Terra não importa qual seja o desafio que a morte lance à sua frente. Foi nesse dia e hora que meu pai, Ailton Villanova, se foi”, diz trecho da postagem.
Na publicação, o filho lembra que Aílton é mais uma vítima de um inimigo “invisível e covarde, que, quando se revela, já tem forma de doença avassaladora”, fazendo referência à Covid-19. Na mesma quinta-feira, o Brasil completava 200 mil mortes pela doença provocada pelo novo coronavírus.
“Nós, os parentes, nem pudemos nos despedir dele. Os muitos amigos que ele prezava tanto nem vão poder prestar aquela última homenagem, que seria um misto de choro e lembrança divertida de uma das muitas histórias que ele contava todos os dias. Esse é o último requinte de crueldade dessa doença”, continua Leo, antes de agradecer aos familiares e amigos e fazer um alerta: “Ainda temos um longo caminho pela frente até que possamos ver novamente os sorrisos uns dos outros nas ruas da nossa cidade”.
LEGADO DE RESPEITO E AMIZADE
Além de toda a contribuição profissional, nos mais de 60 anos de Jornalismo e outros tantos como perito criminal, Aílton Villanova possui um legado de respeito, admiração e amizade. O experiente jornalista e cartunista Ênio Lins, atual secretário de Estado da Comunicação de Alagoas, relata que Aílton foi o professor de grandes jornalistas alagoanos, na escola da vida e do Jornalismo, e diz que o amigo é uma grande referência para o jornalismo alagoano de todos os tempos. “Conheci Aílton Villanova em 1979, quando iniciei no Jornalismo. Era uma época em que ainda não estava implantada a escola de Jornalismo em Alagoas, então, a formação do jornalista era na prática, tinha que aprender a profissão ouvindo e procurando ser corrigido pelos profissionais mais experientes. Um dos profissionais mais experientes que eu tive a honra de ter como professor, na prática e na teoria do jornalismo, foi Aílton Villanova. Então, desde 79, ouvi as orientações, procurei tomar cuidado com as observações que ele fazia sobre o que eu estava a escrever ou a desenhar, sempre tive Aílton Villanova como um professor e como um companheiro de Jornalismo. Durante muitos anos ilustrei a coluna dele, que nos últimos anos tem sido brilhantemente ilustrada pelo filho, o grande Leo Villanova. Então, para Aílton Villanova, o meu testemunho, o meu tributo e a grande emoção de me despedir desse grande jornalista, desse grande comunicador”, finaliza Ênio Lins.
Claudemir Araújo, editor-geral da Gazeta de Alagoas, se despede de Aílton Villanova dizendo que Alagoas perde “um grande homem, grande talento, grande profissional e grande alagoano.”
“E eu perco um grande amigo. Comecei no rádio e, posteriormente, no jornalismo por influência de Ailton Vilanova, numa época em que ele brilhava com sua voz incomparável na Rádio Gazeta. Depois, nos encontramos na redação da Gazeta de Alagoas, onde aprendi a respeitá-lo ainda mais, tanto como mestre da crônica policial, como pelo trabalho brilhante e honesto que realizava na polícia e, principalmente, pelo seu caráter. Dias atrás, passamos quase uma hora ao telefone, discutindo os problemas de Maceió e da profissão”, revela o editor. “Mesmo cansado, com a saúde debilitada, ele levou até o fim o desejo de ser vereador. Nenhuma ambição; puramente desejo de levar seus ideais de decência e de luta para a Câmara. Não logrou êxito, mas quem perdeu foi a cidade. Lamentável, sob todos os aspectos, perdermos um homem como o Aílton! Que Deus o receba em Sua Glória!” Diversas entidades e autoridades, como o vice-prefeito de Maceió Ronaldo Lessa (PDT), comentaram a morte de Aílton Villanova. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Alagoas (Sindjornal) evidenciou, por meio de nota, o profissional que Aílton foi. “Deixa um rico legado às novas gerações de profissionais de comunicação, numa trajetória também marcada por senso ético exemplar no exercício do jornalismo”, diz trecho. A Perícia Oficial, também por meio de nota, destacou que a história da perícia criminal em Alagoas se confunde com a própria história de vida de Villanova. “Sua experiência na área de criminalística o credenciou como professor na Academia de Polícia Civil de Alagoas (Apocal) e em cursos de preparação para peritos criminais no estado. Posteriormente, quando o DPC ganhou autonomia administrativa, se desvinculando da Polícia Civil, e se transformando no Centro de Perícias Forense (CPFor), foi Villanova o escolhido para ser o primeiro diretor geral do órgão que hoje é a Perícia Oficial de Alagoas”.