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PRECONCEITO CONTRA PESSOAS COM PROBLEMAS MENTAIS AINDA É GRANDE, DIZ PSIQUIATRA
A temática da redação do Enem 2020 repercutiu nas redes sociais no último domingo (17). Tendo como tema ‘O estigma associado às doenças mentais na sociedade”, a prova abriu as discussões em torno das discriminações que pessoas com problemas mentais sofrem nos dias de hoje. Em Alagoas, segundo levantamento, somente em dezembro de 2020 houve 127 internações no Portugal Ramalho, único hospital psiquiátrico público do Estado. Contudo, diferentemente do que se acha, o preconceito é visto em diferentes esferas dos problemas mentais.
Segundo os indicadores do Portugal Ramalho, nos últimos três meses de 2020, a instituição registrou 382 internações, ficando o mês de outubro com maior número de casos, com 134 internações. Em seguida, vem o mês de dezembro, totalizando 127 casos registrados, e o mês de novembro, com 121 casos. O total de leitos disponíveis atualmente é de 160. As internações incluem casos de psicose, depressão, tentativas de suicídio, entre outros.
Já em 2019, de janeiro a dezembro, a instituição fez 31.758 atendimentos no total, de urgência e emergência psiquiátrica, das quais 1.618 ficaram internados, conforme os registros. Na divisão dos casos por local de atendimento, o Ambulatório em Saúde Mental do HEPR- PISAM registrou 23.638 consultas, entre outros, pela equipe multidisciplinar; O centro de Atenção Psicossocial-CAPS Casa Verde ficou com 7.403 atendimentos e o Centro de Atenção de Álcool e Drogas-CEAAD, com 10.616 registros.
De acordo com a psiquiatra Júlia Soeiro, os casos de preconceito com pessoas que possuem algum tipo de problema mental não acontece somente em casos mais ‘graves’. Apenas o fato de os pacientes demorarem para procurar ajuda, por vergonha de ir ao psiquiatra, já mostra o estigma de ter algum transtorno mental e de contar para outras pessoas. Quadros muito prevalentes de depressão e transtornos de ansiedade sofrem sim esse preconceito. Não apenas pacientes psicóticos.
“Existe também uma confusão de sintomas de transtornos mentais, como se fossem problemas de caráter, e isso estigmatiza as pessoas também. A ideia de que conversando, ou apenas mantendo a fé, você cura depressão, por exemplo, também mostra uma crença de que a doença é falta de fé ou de suporte, o que não é a realidade, como sabemos bem”, ressaltou a médica.
Júlia relatou também sobre a dificuldade que alguns pacientes passam para assumir que estão fazendo um tratamento. Segundo ela, alguns não contam que fazem tratamento psicológico ou que tomam algum tipo de medicação, seja para colegas no ambiente de trabalho ou até mesmo para familiares, por conta do receio de serem excluídos do círculo social a que pertencem.
APOIO FAMILIAR
A psiquiatra frisou que, independentemente do grau de gravidade do problema, o apoio familiar e dos amigos é imprescindível para quem está passando por algum caso de transtorno mental. “É muito importante a família se informar bastante, conversar com os profissionais que fazem o cuidado do paciente para saber manejar, saber o que pode ser do transtorno mental e o que não pode. É importante saber que a doença mental é uma doença como outra. O paciente precisa de cuidado em algumas situações, mas pode viver muito bem”. Segundo ela, muitos de seus pacientes relatam sofrer certo tipo de segregação por sua condição mental. Muitos, de acordo com Soeiro, sofrem por não ter apoio e às vezes terem orientações contrárias da própria família, como, por exemplo, familiares que aconselham o paciente a parar de tomar os medicamentos ou pararem com o acompanhamento. Além disso, os casos de preconceito dentro do espaço de trabalho também são bastante acentuados. “Eu diria que isso, esse estigma, pode acontecer com todos os diagnósticos, desde os esquizofrênicos até os pacientes deprimidos ou com transtornos de ansiedade. Por isso o apoio é necessário. As pessoas não conhecem e às vezes parecem possuir até medo de conhecer”, salientou a médica, dizendo ter confiança que, após 2020, onde empatia e saúde mental foram tão faladas, as pessoas diminuam o preconceito e a discriminação por aqueles que não são iguais a eles.
MEDO DO JULGAMENTO
A situação de Nastacia Carolina, estudante de 21 anos, foi um dos casos onde, apesar de não ser problema psicótico, o medo de ser julgada por conta de suas crises de ansiedade foi predominante. “Eu sempre fui uma pessoa muito comunicativa e gostava de estar sempre com meus amigos, porém, algumas situações aconteceram e acabei não falando para ninguém por orgulho e vergonha de ser julgada. Acabou que eu não consegui lidar mais. Embora sempre que eu saía, estava sorrindo e fingindo estar feliz, mas sempre que voltava para casa eu desabava e chorava, aparentemente sem nenhum motivo”, disse. “Sempre tive tudo, uma família estruturada, faculdade dos sonhos, muitos amigos e um relacionamento ‘perfeito’. Minha mãe começou a achar estranho eu chorar por tudo, não ter ânimo para muitas coisas, inclusive sofri muito com compulsão alimentar e tinham dias que ficava deitada com o coração muito acelerado e suando frio. Foi aí que minha mãe resolveu marcar um psicólogo”, relatou a jovem. Nastacia contou ainda que a maioria de seus conhecidos achava que suas crises eram ‘frescura’ ou que eram para chamar atenção, e que precisou que seus pais percebessem a situação e a obrigassem a fazer uma terapia, porque a própria tinha preconceito, pelo desconhecimento sobre o assunto. “Acho que ainda é um assunto pouco tratado, eu tinha a sensação de que se buscasse ajuda as pessoas pensariam que eu tava ‘louca’. Creio que deveria ser um assunto mais abordado, nas escolas e nos veículos de comunicação e também um acesso mais fácil ao psicólogo, pois sabemos que não é tão acessível a todos.” Ela também lembrou a importância de procurar ajuda especializada e como isso é fundamental na melhora. “Depois que eu iniciei a terapia minha qualidade de vida melhorou muito. Muitas pessoas sofrem com ansiedade e depressão, mas ainda acreditam ser besteira. O medo da maioria das pessoas é parecer fraco e incapaz de cuidar da própria vida e dos problemas. Acredito que quem tem depressão e transtorno de ansiedade, ou outros problemas, e consegue pedir ajuda, é muito corajoso, porque não é fácil admitir para si que está doente”.
*Sob a supervisão da Editoria de Cidades