Cidades
‘ESTAMOS NUMA PANDEMIA OCULTA’, AFIRMA INFECTOLOGISTA
Raquel Guimarães alerta para falta de testes para Covid; Estado tem cerca de 7 mil pessoas esperando resultado do exame
O relatório divulgado pelo Observatório Alagoano de Políticas Públicas para o Enfrentamento da Covid-19 levantou uma importante questão no tocante ao déficit de testagem do novo coronavírus em Alagoas. Apesar de apontar uma queda no número de casos e óbitos no Estado, o estudo mostra uma crescente de internações hospitalares no interior e na capital alagoana. Segundo a infectologista Raquel Guimarães, Alagoas vive uma “pandemia oculta” em função da falta de testes.
Conforme o relatório, a taxa de ocupação atual é de 72% na região. O Subcomitê de Epidemiologia do Consórcio Nordeste coloca 70% como o máximo recomendado. O aumento no Estado foi de 10% em uma semana, com a capital apresentando 53% de ocupação nesta segunda-feira (08).
“Se você olhar nas estatísticas diárias do Estado, temos em torno de 7 mil casos esperando por uma resposta do sistema. As cidades que mais se deram bem foram as que testaram muito, porque quando você faz isso, você deixa o paciente fora do circuito. Esses pacientes que esperam pelo resultado estão em casa ou nas ruas? Não pode haver um déficit de teste a ponto de você deixar 7 mil pessoas sem resultado. A insuficiência de teste no país é grande e mais ainda a demora em dar a resposta ao paciente. Esse resultado deveria sair em 24h, 48h, no máximo, e está levando dias e quando chega o resultado, a pessoa já passou da fase de transmissão e está na fase de convalescença”, afirma a infectologista.
A médica ainda ressalta a importância do atendimento dentro das unidades básicas de saúde. Para ela, se houvesse atendimento adequado nestes locais, a procura pelos hospitais seria menor.
“Os órgãos de saúde só se preocuparam em organizar o sistema hospitalar e ninguém passa para um hospital sem passar por uma rede básica de saúde. A rede básica é a porta de entrada do sistema e, se ela estiver organizada e atendendo às necessidades da população, ela não precisaria chegar no hospital para morrer. O problema é que a rede básica não está organizada, a população não não consegue atendimento se não for na UPA, que já é um tipo de atendimento intermediário. Então, se a rede básica estivesse estruturada, o cidadão seria atendido no pronto-socorro e na UPA, mas eles estão chegando aos hospitais porque é a única opção”, alerta.
Devido ao aumento da ocupação hospitalar, o Governo do Estado anunciou a ampliação do número de leitos em Maceió e no interior. Até o final do mês, mais 30 leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) serão disponibilizados, chegando ao total de 254. Outros 100 leitos clínicos também devem desafogar as unidades.
A preocupação da infectologista está no atendimento prestado ao paciente que chega nessas unidades.
“O tipo de atendimento é importante nesses casos, é preciso ter pessoas treinadas, prestando atendimento de qualidade nas unidades. Não quer dizer que não estejam fazendo, mas o Estado desativou muitas unidades de atendimento e agora está tendo que abrir novamente, fazer novas áreas para atender essas demandas e muita gente pode não está qualificada para este atendimento”.
Ela diz que a queda no número de casos poderia significar o controle da transmissão da Covid-19 em Alagoas, mas que falta ação do governo do Estado nos bairros e cidades do interior com maior incidência de casos.
“Nós temos uma transmissão muito importante em alguns bairros da capital e cidades do interior. O governo sabendo disso, poderia estar agindo mais nessas cidades, como Palmeira dos Índios e Marechal Deodoro, por exemplo, que são focos de caso todos os dias. Isso já demonstra que nós mapeamos todas as áreas de risco, só que o governo não está fazendo uma análise para atuar mais firmemente”, finalizou.