Pandemia
ALTA DE MORTES POR COVID DEIXA CEMITÉRIOS DE MACEIÓ SEM VAGAS
Falta de vagas faz com que famílias peregrinem por cemitérios em busca de espaço para os parentes
“Ele tinha que ser enterrado dignamente, como um ser humano merece”. A declaração é de Maria Rosilene Batista da Silva, sobre o enterro do sobrinho Adriano Souza, que morreu no mês passado em Maceió vítima de pneumonia aguda. Ela conta que a família passou por um via crucis para poder sepultar Adriano, que findou, segundo ela, enterrado em meio ao lixo.
A falta de espaços nos cemitérios públicos de Maceió se agravou em razão da pandemia de Covid-19, que tem vitimado tantas pessoas. Dados da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Sustentável (Sudes) de Maceió revelam uma média de 2,4 enterros de vítimas de Covid-19 nos dois principais cemitérios da capital alagoana entre os dias 24 e 31 de março. Os números estão abaixo dos divulgados diariamente pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), que apontam para em torno de dez mortes por dia na capital por Covid.
Contudo, o intervalo entre a morte por Covid-19 e a atualização deste registro no sistema do Ministério da Saúde chega a 47 dias em Alagoas. É o atraso mais longo entre os demais estados da Federação, conforme levantamento feito por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Adriano Souza, que tinha 33 anos, não foi uma vítima da Covid-19, mas mesmo morto sofreu reflexos da pandemia, tendo em vista a dificuldade de sua família em encontrar um lugar para sepultá-lo. A tia dele conta que primeiro foi ao cemitério São José, no Trapiche, para sepultar o sobrinho, mas chegando lá recebeu a notícia de que não havia vagas. Maria Rosilene só encontrou vaga no cemitério Divina Pastora, em Rio Novo.
Mas o lugar reservado para o sobrinho deixou Maria Rosilene indignada. Imagens gravadas pela família mostram uma cova em meio a sacos de lixo. “O lixão eu acho que tá melhor”, desabafa a tia. Ela conta que no lugar era possível ver ossos humanos espalhados. Diante do cenário ela apela ao poder público. “Pelo menos faça uma limpeza”, pede.
O secretário-geral do Sindicato das Empresas Funerárias do Estado de Alagoas (Sefal), Nycolas Macêdo, endossa que os cemitérios públicos de Maceió não possuem mais vagas para atender as demandas. Ele conta inclusive que o problema não é novo. Segundo Macêdo, foi percebido um aumento no número de enterros no mês de março. De acordo com ele, a falta de vagas faz com que muitas famílias peregrinem por cemitérios em busca de uma vaga para os parentes.
O promotor de Justiça Jorge Dórea, da 66ª Promotora de Justiça de Urbanismo da Capital, contou durante entrevista À TV Gazeta que recebeu, no ano passado, informações da prefeitura de Maceió de que havia sido criadas novas vagas e feito reformas nos cemitérios. Mas, diante do cenário exposto atualmente vai continuar cobrando melhorias no serviço.
No ano passado, ainda no início da pandemia, o Ministério Público de Alagoas (MPAL) recomendou à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Sustentável que adote medidas de enfrentamento caso seja estabelecido um caos no serviço público municipal de sepultamento em Maceió, dado o risco iminente de colapso em razão da pandemia da Covid-19.
À época, Jorge Dórea alegou que a preocupação do Ministério Público leva em consideração a crise na Política Municipal de Sepultamento, iniciada em 2015, em que os cemitérios de Maceió estavam funcionando precariamente, sem infraestrutura, conforme foi constatado num termo de inspeção, segundo o qual não estava existindo capacidade e estrutura para realizar, dentro da legalidade, com exigências ambientais, os sepultamentos dos mortos.
A Gazeta entrou em contato com a prefeitura de Maceió sobre a situação de falta de vagas nos cemitérios públicos de Maceió e foi informada que a Sudes está trabalhando para garantir a prestação do serviço e que todas as medidas necessárias serão adotadas.