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De volta �s origens

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Fábia Assumpção Se alguém perguntar onde fica a Ladeira Eustáquio Gomes de Mello, com certeza nove entre dez maceioenses não vão saber informar. Mas se perguntarem onde fica a Ladeira da Catedral, certamente esta dúvida será dissipada rapidamente. Pois é: as Ladeiras Eustáquio Gomes de Mello e a da Catedral são exatamente a mesma, só com nomes diferentes. Situações como esta são comuns em várias ruas de Maceió, que, por terem mais de uma denominação, geram uma grande confusão no dia a dia das pessoas. A identidade cultural e histórica da cidade também se apaga um pouco, quando nomes tradicionais de ruas são mudados repentinamente. Mas muitos gestores públicos parecem não se preocupar com isso. Em vários bairros da Capital, principalmente os mais antigos, a confusão nos nomes das ruas é grande. Isso porque a maioria das pessoas prefere continuar chamando-as pelos nomes mais tradicionais e popularmente conhecidos, como é o caso da Rua Formosa, na Ponta Grossa, que chegou a receber o nome do ex-governador de Alagoas Silvéstre Péricles de Góis Monteiro. Apesar de pomposo, o nome não emplacou. No Centro da cidade, exemplos como esses se repetem em várias ruas. Há também casos recentes, como a Avenida Amélia Rosa, na Jatiúca, que passou a ser chamada de Avenida Antônio Gomes Barros. Outra mudança que corre o risco de se tornar letra morta. Alguém, por acaso, sabe onde fica a Avenida Júlio Marques Luz? Não? É a velha e conhecida Avenida Jatiúca. Foi preocupado com essa situação, principalmente com a descaraterização da identidade cultural e histórica da cidade, que o jornalista Ênio Lins conseguiu a aprovação de uma lei de sua autoria, em 1990 ? quando exercia o mandato de vereador ? devolvendo a ruas, ladeiras, becos e praças do centro histórico de Maceió seus nomes originais, os verdadeiros,dados pelo povo ? e muito mais bonitos. Segundo Ênio, foi preciso um ano de pesquisa nos arquivos da Prefeitura de Maceió, para conseguir revogar os decretos que modificaram os nomes de várias ruas do Centro da cidade. Foi graças a esta lei que a Rua João Pessoa voltou a ser denominada oficialmente de Rua do Sol, como sempre foi conhecida. Assim como outras : Rua da Alegria ( Joaquim Távora); Rua Augusta (Ladislau Neto, também apelidada de Rua das Árvores), Avenida da Paz (Duque de Caxias), Boa Vista (Conselheiro Lourenço de Albuquerque), Rua da Praia (Libertadora Alagoana), entre outras. A Rua Senador Mendonça ganhou de volta a denominação original de Rua do Livramento, nome da imponente igreja instalada no local. ?Existia uma tradição em nomear o nome do logradouro em função da Igreja?, acentua Ênio. Não é à toa que, apesar de oficialmente registrado como Palácio Floriano Peixoto, a sede do governo do Estado nunca deixou de ser chamada pelo povo de Palácio dos Martírios. Ênio acrescenta que houve casos em que ele preferiu não revogar o decreto que dava nova denominação a alguns logradouros. Foi o caso da Rua Melo Morais - aquela ao lado do Palácio do Palácio Floriano Peixoto e que vai até o mercado -, conhecida como Rua do Apolo. ?Preferi não modificar o nome de Melo Morais, porque era uma decreto com mais de 100 anos?, justificou. Ou seja, mais de um século depois de ter recebido o nome de Melo Morais, a rua continua sendo chamada pelo nome anterior, Rua do Apolo. Houve casos que Enio Lins não titubeou, a exemplo da Rua do Sol, cujo nome havia sido mudado para João Pessoa através de decreto em 1937. O jornalista ressalta que a maioria dos decretos com mudanças nos nomes das ruas de Maceió foi exatamente deste período, quando estava instalada a ditadura do Estado Novo, de Getúlio Vargas. Neste período, muitos nomes de ruas foram modificados para homenagear personalidades que deram apoio ao ?movimento revolucionário? de 1937. Razões culturais e históricas também levaram Ênio a insistir na proposta de que as ruas voltassem aos seus nomes. A mesma Rua do Sol, lembra o jornalista, é conhecida mundialmente através das obras de Graciliano Ramos, traduzidas em mais de 40 idiomas. ?A Rua do Sol é citada numa passagem do livro São Bernardo, e está incluída em composições de Chico Buarque, Djavan e Luiz Gonzaga?, observa. ?Em qualquer parte do mundo, quem lê a obra de Graciliano Ramos saberá que existe uma Rua do Sol em Maceió?. Até a Avenida da Paz não escapou às mudanças. Batizada com esse nome pelo prefeito Jayme de Altavilla, para lembrar o fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, a avenida passou a ser chamada Duque de Caxias. Para Ênio, sem desmerecer a figura de Duque de Caxias, a mudança foi um contra-senso. ?A Avenida foi a primeira urbanizada na orla marítima de Maceió, e a homenagem à paz é um apelo contemporâneo?. Nomes pitorescos Vai longe o tempo em que as ruas centrais de Maceió e de alguns bairros antigos recebiam nomes bastante pitorescos, mas que ainda hoje servem como referência para alguns moradores. ?Ladeira do Urubu?, ?Beco do Sapo?, ?Rua do Veado?, ?Sovaco da Ovelha? e ?Beco do Mijo? foram os nomes de batismo de várias ruas de Maceió. Eles não resistiram ao tempo. Com outros, a coisa foi diferente. Ainda hoje, no Centro, são conhecidos os Becos de São José e da Moeda. Apesar de ser oficialmente denominada Ladeira Dr. Passos de Miranda, para os moradores de Bebedouro e do resto da cidade ela é a Ladeira do Calmon, e não há decreto que mude isto. Na Ponta Grossa, o nome de Baltazar de Mendonça nunca emplacou na Rua da Soledade, assim como Virgílio Guedes na Rua dos Timbiras. No bairro do Feitosa, os moradores continuam conhecendo as ruas ?Orelha de Aço?, ?Beco da Bosta?, ?Lagoa do Jacaré?, ?Rua da Jia?. E no Poço não há quem desconheça as ruas como a do Ganso ou o Beco das Sete Facadas. De onde esses nomes surgiram, pouca gente sabe, mas com certeza são mais fáceis de ficar na memória da população do que muito nome de autoridade. Ênio Lins acrescenta que muitos nomes de ruas são mudados por oportunismo ? para retirar nomes de pessoas não muito agradáveis aos gestores públicos ? ou mesmo por falta de novos logradouros para homenagear algumas personalidades. Recentemente, o médico Ib Gatto Falcão ? presidente da Academia Alagoana de Letras ? foi homenageado dando nome ao viaduto do Poço. Neste caso, Ênio afirma que, além da importância da figura de Ib Gatto Falcão, a homenagem não resultou de uma mudança do nome de um logradouro já existente, mas batizou uma nova obra. Tantos nomes para uma mesma rua também preocupam a direção da Empresa de Correios e Telégrafos (ECT). A empresa assinou um convênio com a Prefeitura de Maceió para tentar organizar a confusão gerada por várias ruas com o mesmo nome ou outras sem nenhum. O assessor de Comunicação da ECT em Alagoas, Carlos Gonçalves, comenta que em algumas ruas as correspondências só chegam graças à experiência dos carteiros. ?Existem inúmeras ruas com o mesmo nome, principalmente de santos, como São José, São Paulo, São João e outros?, brinca Carlos, afirmando que algumas chegam a ser batizadas até com o nome dos próprios carteiros, para que eles tenham uma referência na entrega das correspondências. Sobre as ruas que voltaram a ter os nomes antigos, Carlos Gonçalves salienta que as correspondências são entregues mesmo quando constam os nomes que vigoraram antes da lei de autoria do jornalista Ênio Lins. O Código de Endereçamento Postal (CEP) leva em conta o nome oficial, ou seja, na Rua João Pessoa o que consta é o da Rua do Sol, o original e verdadeiro.

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