Cidades
Eles se aproximaram para matar de pertinho
FELIPE FARIAS CELIO GOMES Dois dos homens que participaram da emboscada ao deputado estadual Cícero Ferro (PMDB) teriam ido ao Hospital Memorial Arthur Ramos logo após a chegada das vítimas no dia do atentado, em 31 de janeiro. Esses e outros detalhes do atentado foram revelados ontem pela própria vítima da tocaia, o deputado estadual Cícero Ferro, que falou pela primeira vez à imprensa em entrevista coletiva. Ele confessou que tentou se defender com uma pistola e disse que o crime não teve motivação política. Ferro atribuiu o crime ?a inveja? que o primo e adversário político sentiria do fato de que, depois de trabalhar para o pai de José Nilton, Cícero Ferro foi prefeito de Minador do Negrão e está no quarto mandato de deputado estadual. Cícero Ferro disse, ainda, que só vai ter sossego, se sentindo seguro, quando os autores da tocaia estiverem na cadeia. Ele acusou mais parentes e políticos da região e fez uma crítica ao Judiciário: a juíza Iva Bernardete, da comarca de Cacimbinhas, que tem jurisdição sobre Minador do Negrão, concedeu habeas-corpus preventivo ao vereador Jacó Cardoso Ferro, que também agiu como mandante, segundo o deputado. ?Isso aconteceu mesmo depois de ele ter passado 20 dias sumido, logo depois da emboscada; o que prova a sua culpa, e sem nem sequer ter sido decretada sua prisão?, acusou o deputado. Mesmo sendo obrigado a usar cadeira de rodas, por causa da lesão no fêmur esquerdo fraturado por uma das balas, Cícero Ferro estimou que em dez dias estará de volta à Assembléia Legislativa. A seguir, os principais trechos da entrevista. - Como o senhor se sente? - Eu e o Zé Maria [José Maria Ferro, primo e motorista] sofremos um dos piores atentados da história de Alagoas. Nós estávamos na estrada de uma fazenda minha quando fomos fechados e o nosso carro foi atingido exatamente por 154 tiros. E Deus, que foi o todo-poderoso num atentado desse momento, mostrou ao José Nilton Cardoso, aos filhos dele e a um grupo de bandidos que o acompanha que ninguém é mais maior do que Deus. Foi uma tragédia premeditada (o próprio José Nilton dirigiu o carro e desceu atirando). Ele, os seus dois filhos que nos seguiram e mais os sobrinhos continuaram atirando em pleno centro da cidade de Minador do Negrão. Minha fazenda fica a 500m da cidade. Fui agredido e atacado em plena cidade. - Além do José Nilton, quem mais o senhor reconheceu? ? José Nilton ia dirigindo, desceu do seu carro e começou a atirar. Um filho dele, chamado Wanderley, ia no banco da frente, desceu do seu carro e começou a atirar. Um outro filho seu, de nome Waldeck, ia no banco de trás da caminhonete [Mitsubishi L200 verde] e começou a atirar; um senhor, que eu não conheço, ia no banco traseiro do carro, desceu e começou a atirar, e dois elementos, de nome Moacir e Cicinho, atiraram com espingarda doze de cima da caminhonete. - Comenta-se que o senhor estava armado. Isso é verdade? ? Não, em momento nenhum eu estava armado. Aí o Zé Maria me alertou que tinha uma pistola no porta-luvas do carro. Eles vieram se aproximando para matar de pertinho. Foi quando aí eu dei alguns disparos sem direção... - Chegou a atingir alguém? ? Não, não posso dizer se alguém foi atingido. Eu sei que eu já estava ferido na cabeça, com quatro tiros na cabeça. O Zé Maria estava ferido. Eu dei alguns disparos, oito, com uma pistola que é registrada. Foi o que afastou os que vinham se aproximando para atirar na cabeça, para matar de pertinho, como era a intenção deles. - O que foi que o senhor disse na hora? - Eu disse ?Zé Maria, nós vamos morrer?. Ele falou: ?Tem uma pistola aí no cofre?. Foi quando eles se afastaram. Eu não tenho inimizade nenhuma com esse pessoal. Esse atentado teve apenas um intuito animal. Na minha cabeça, só há uma justificativa: inveja. Eles não se conformam que eu sou de Minador do Negrão, já fui trabalhador alugado para o pai dele arrancando mato, e me tornei prefeito e deputado estadual no quarto mandato. Não me curvo diante de bandidos que vêm me pressionar, me reprimir para me matar. - Mas disseram que o atentado partiu de resistências ao fato de sua esposa ser candidata a prefeita, e ele (José Nilton) seria o próximo indicado... - Isso não existe. Não há motivo para um atentado brutal como esse. José Nilton desceu atirando dando ordens a seus capangas: ?Matem o homem que eu estou pagando vocês para matar ele?. Isso foi o que eu ouvi e que outras pessoas que moram perto também ouviram. Esse atentado foi feito em plena cidade para ele mostrar que é o valentão. Mas Deus é mais valente. - O senhor vai continuar em Minador do Negrão? - Vou continuar em Minador do Negrão e volto para a Assembléia na próxima semana para trabalhar. - Comenta-se que o senhor vai comprar um carro blindado. - Isso é conversa. Vou apenas garantir os meios para me defender. Não quero revide. Quero que a Justiça seja feita para aqueles que se acham donos de algumas regiões na força da bala. - O que fez cada uma das pessoas que o senhor acusa? - O Jacó (Cardoso Ferro, vereador na cidade e apontado anteontem, no depoimento do deputado à polícia), que é cunhado do José Nilton, foi quem fez todo o ponteamento, dando os sinais de onde passei e o que ia acontecer. Para que vocês tenham idéia da agressão que eu sofri, deram um tiro na minha perna que fraturou o meu osso, outro de espingarda 12 que esfacelou, outro de 12 na boca, além de seis tiros na cabeça. E mesmo depois que eu saí do internamento aquelas balas ficaram me incomodando. - Que tipo de atitude pessoal o senhor vai tomar em relação à família do José Nilton? - Não tomo atitude pessoal contra ninguém. Minha atitude é cobrar da polícia, do Tribunal de Justiça e do governo do Estado que tomem uma providência. Vingança não faz parte do meu vocabulário. Esse atentado não é o primeiro do José Nilton comigo. Ele deu uma surra e atirou na cabeça de um primo, o Múcio Ferro. Tem surgido comentários de que o José Nilton tem falado por aí que não se entrega de jeito nenhum; nem à Polícia Civil, nem à Polícia Federal nem à Polícia Militar. - O senhor tem alguma idéia do paradeiro dele? - Não. Se tivesse, ele já estaria preso. Passarei todas as informações que tiver aos órgãos de segurança para que eles sejam presos. Tenho a convicção de que só vou ter sossego na minha vida quando esse pessoal estiver preso. Tenho informações de que eles passaram por Joaquim Gomes na semana passada com três carros de placa fria: uma Ranger, cinza, um Astra verde e um Gol branco. - Antes de chegar a Palmeira dos Índios, o senhor achou que iria sofrer um terceiro atentado? - Suspeitava disso, tanto que de imediato pedi segurança até o hospital de Palmeira. Eles tiveram a ousadia de vir ao Arthur Ramos. Dois bandidos dele vieram numa Ranger cinza, de placa fria, e entraram no estacionamento do Arthur Ramos. - No dia em que o senhor chegou? - Sim. Eles estão se achando os senhores supremos. - O senhor tem medo de um novo atentado? - Eu passo a temer constantemente um novo atentado. A ousadia que eles tiveram em fazer uma agressão como essa em plena via pública, na cidade de Minador do Negrão, pode levá-los a querer demonstrar que são valentes de novo. - O senhor vai reforçar sua segurança a partir de agora? - Naturalmente, vou solicitar à Secretaria de Defesa Social que me dê segurança porque eu não posso continuar exposto. O Estado, a Defesa Social e a Assembléia passarão a ter responsabilidade pela minha vida. Sou um membro desse Estado, sou deputado estadual e essa é a responsabilidade desses órgãos, que em momento nenhum se furtaram em proteger a minha vida. - O senhor pretende fazer algum discurso sobre isso no seu retorno à Assembléia? - Eu estou só esperando uma leve recuperação para voltar à Assembléia Legislativa. Continuo sem poder pisar, sem poder usar a minha perna; estou usando cadeira de rodas. Meu braço esquerdo também está fraturado. Acho que mais uns dez dias eu estou voltando à Assembléia Legislativa. E aí irei expor a situação de Minador. - O senhor acha que a campanha eleitoral em Minador do Negrão vai ser violenta? - Acho que não. O que tinha de ser violento, já foi. Agora, existe naturalmente uma precaução da minha parte. Não vou mais abrir mão da precaução que o governo do Estado tem me oferecido. - Dos mandantes, todos estão foragidos? - José Nilton está foragido e Jacó desapareceu de Minador do Negrão no dia do atentado. Com mais ou menos 20 dias, antes de ter sido decretada a prisão preventiva dele, ele entrou no fórum de Cacimbinhas com pedido de habeas-corpus preventivo - o que prova sua culpa, porque ele foi um dos articuladores do crime). E a juíza concedeu. Ele está em Minador e será decretada uma nova prisão preventiva contra ele. - O que o senhor sentiu no momento do atentado com os tiros, os ferimentos, o sangue? - Eu senti a força de Deus. - O senhor teve medo de morrer? - Em momento nenhum achei que ia morrer. Só Deus é a justificativa para termos levado mais de duzentos tiros e não morrermos nem ficarmos com seqüelas. Tive tranqüilidade para sair com o carro que não parou nem estancou, senão nós teríamos morrido. Deus me deu força para chegar em casa, trocar de carro para que eu pudesse cuidar do meu socorro. - O senhor diria que deve a vida a seu motorista? - Eu devo a vida a Deus, assim como ele deve. Foi Deus querendo provar para o José Nilton, para os filhos dele, os sobrinhos e para o grupo de bandidos que o acompanha que ele não é maior do que Deus. - O que o senhor sentiu no hospital? - Eu tive um coma induzido, no qual passei doze dias, por causa de um edema cerebral. Mas, quando eu estava lúcido, o que me ocorria era a esperança e a certeza na recuperação. - Qual a avaliação que o senhor faz do atentado, politicamente? - Nunca existiu briga. A única briga que existiu lá surgiu de um maluco que induziu todo mundo a assassinar um deputado que nunca fez nada com ele. - Não foi questão política? - O que aconteceu foi que ele quis demonstrar que é valentão e a inveja que ele sente de um homem trabalhador.