Cidades
Igrejas de Marechal Deodoro sofrem com abandono
ELEXSANDRA MORONE Marechal Deodoro tem quase quatro séculos ? 393 anos, para afirmar com mais exatidão. O município, um dos mais importantes para o segmento do turismo em Alagoas, possui um patrimônio capaz de rivalizar com cidades brasileiras igualmente seculares, a exemplo de Ouro Preto (MG), Olinda (PE), São Luís do Maranhão (MA) e até mesmo Salvador (BA). A diferença entre o lugar onde nasceu o Marechal Deodoro da Fonseca (o primeiro presidente da República) e todas essas outras localidades diz respeito, basicamente, à quase total ausência de cuidados com os monumentos históricos, construções cujas fachadas e estruturas refletem sem disfarces o abandono no qual se encontram. O patrimônio cultural de Marechal Deodoro ? cidade tombada em níveis municipal e estadual - sofre com uma deterioração visível, que piora a cada dia. O sítio arquitetônico local já conta com três casos de perda irreparável, segundo informa a recém-empossada diretora da 10a Sub-Regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a museóloga alagoana Cármen Lúcia Dantas. No rol de monumentos ?irrecuperáveis? constam a Igreja de Nossa Senhora do Amparo, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pardos e a Igrejinha do Conjunto do Carmo. ?Esses três exemplares históricos só possuem hoje suas caixas arquitetônicas, fator que torna o trabalho de restauro praticamente impossível. É uma situação de calamidade, pois quando perdemos os prédios, perdemos uma série de referências de época, essenciais para a 0manutenção de nossa história e de nossa memória cultural?, pondera Cármen. Seriedade A museóloga ? que assumiu a diretoria da 10a Sub-Regional (subordinada a 8a Superintendência do Iphan, com sede em Sergipe) há duas semanas ? explica que essa situação é fruto de um imbróglio de conseqüências nocivas que envolve tanto a esfera dos poderes municipal e estadual como também a comunidade. ?Sabemos que o Iphan não dispõe de verbas suficientes para cobrir e custear os processos de restauração e manutenção de todos os sítios históricos brasileiros. Em Alagoas, as condições financeiras não são diferentes. Mas a instituição pode orientar e avalizar projetos e iniciativas locais, até porque não adianta recuperar sem pensar no modo como vamos manter os monumentos depois. Eles irão sofrer desgastes e precisarão novamente de recursos para restauro?, afirma Cármen, com conhecimento de causa ? ela esteve à frente do Museu Théo Brandão durante quatro anos, em sua fase de restauração, deixando-o com o projeto de manutenção do prédio e do acervo viabilizado. ?Devemos trabalhar com seriedade nessa área, tanto com relação aos bens imóveis como também no que diz respeito aos bens móveis?, enfatiza. Para o fiscal do Iphan em Alagoas, arquiteto Mário Aloísio, a cidade de Marechal Deodoro precisa urgentemente de uma ação conjunta de recuperação e preservação. Ele diz que todas as instâncias ? públicas, privadas ou comunitárias ? devem se mobilizar para encontrar soluções para o problema. ?Marechal Deodoro merece um tratamento decente. As igrejas que hoje se encontram destruídas no município não eram de responsabilidade do Iphan, muito embora nós tenhamos tentado buscar maneiras de resolver a situação. Mas sem apoio fica complicado efetuar qualquer mudança no quadro?, avalia ele. O coordenador técnico de proteção do Iphan de Brasília, arquiteto José Mendes Galvão, disse à reportagem da GAZETA que o Departamento de Proteção do Instituto não recebeu nenhum relatório sobre os problemas. ?Poderíamos ter ajudado de alguma forma, inclusive prestando consultoria técnica. É claro que os projetos de recuperação dos patrimônios podem sair do próprio Iphan, mas também podem ser elaborados pela comunidade, pela Igreja e pelos poderes municipais e estaduais. Nada impede que a iniciativa parta dessas instâncias?, ressalta Galvão, lembrando que o único monumento sob os cuidados do Iphan em Marechal é o Convento de São Francisco.