Cidades
Construtora � denunciada por irregularidade em obra
FÁTIMA ALMEIDA Cerâmica caindo, teto desabando, afofamento do reboco das paredes, vigas com armadura exposta, problemas nas instalações elétricas e infiltrações diversas. Para os moradores do Edifício Itapiuna, na Avenida Deputado José Lages, na Ponta Verde, o sonho de um confortável apartamento perto da praia se tornou um pesadelo. De acordo com os condôminos, os problemas estão por todos os cantos do prédio e começaram a aparecer desde a entrega do empreendimento, há 10 anos. Segundo o síndico Antônio Heliodoro, logo no primeiro ano de moradia, entre 1993 e 1994, a garagem inundou várias vezes, ao ponto de os moradores terem que retirar seus carros às pressas. Também nessa época um princípio de incêndio provocado por um curto-circuito nas instalações elétricas quase toma dimensões trágicas. Foi controlado antes de chegar ao primeiro andar. De acordo com os moradores, a causa apontada no laudo foi a fiação molhada numa bandeja de distribuição que ficava no chão da garagem. O seguro cobriu o prejuízo, mas não cobriu as despesas com a obra para erguer a bandeja de fios de forma que ela ficasse suspensa no teto. Há pouco tempo uma moradora teve outro grande prejuízo. Uma placa de cerâmica da fachada do prédio desabou do sétimo andar sobre o carro dela, estacionado na garagem. ?Por sorte ninguém se machucou até agora?, comentou um morador. Sorte mesmo, porque as placas de cerâmica caem de todos os lados. As falhas na parede, no alto do prédio, mostram a seriedade do problema, que se agrava a cada dia. Quanto mais caem placas, mais infiltrações acontecem e novos blocos ameaçam desabar. Perigo Dentro dos apartamentos, para fixar um quadro, por exemplo, é preciso furar bastante até encontrar base concreta. As varandas têm suporte para armar redes, mas ninguém se arrisca desde que um armador soltou quando uma gestante dormia na rede. A moradora do 401 conseguiu fixar os suportes na coluna, mas o teto da varanda começou a desabar. Nos dois banheiros da casa, um problema vivido pela maioria dos condôminos. O teto desabou sobre o sanitário, por causa de vazamentos nas tubulações do andar superior. A situação chegou ao ponto de um dos moradores, que acabou vendendo o apartamento, fixar um guarda-chuva armado sobre os vasos sanitários. Na casa de gás todo o reboco do teto desabou. Os problemas parecem não ter fim para os moradores do Edifício Itapiuna e segundo eles, a construtora nunca demonstrou interesse em solucionar os defeitos de qualidade e segurança reclamados e constatados em perícias realizadas pela própria Caixa Econômica Federal, agente financiador da obra. Os condôminos resolveram apelar para a Justiça. Uma Ação Civil contra a Construtora Ancil foi julgada em primeira instância, pelo juiz Gustavo Souza Lima, que condenou a ré ao pagamento de R$546.862,38, considerados proporcionais à correção dos defeitos constatados nos laudos, além de 80% das custas processuais, fixadas em 15% do valor da condenação. A empresa recorreu da sentença e o processo está em tramitação. Em agosto de 2000, os condôminos acionaram o Ministério Público com uma Notícia Crime contra o dono da construtora, engenheiro Remy Barros, visando responsabilizá-lo juridicamente pela integridade física dos moradores do prédio em relação aos problemas decorrentes dos vícios de segurança e qualidade da obra e recentemente entraram com uma representação junto à Associação dos Empresários do Mercado Imobiliário (Ademi), solicitando providências em relação ao sócio. Além dessas ações, a construtora é alvo de várias outras individuais movidas por moradores do Itapiuna, que alegam prejuízos morais e materiais. Os condôminos dizem, ainda, que por causa dos problemas não param de gastar: são despesas com perícias, advogado, reparos na garagem e em outras áreas do prédio, equipamentos que queimam por causa das instalações físicas e elétricas. ?Pagamos uma prestação alta (acima de R$ 700), e não tem um único mês que não tenhamos que arcar com alguma despesa por causa dos problemas existentes?, observou uma moradora. Um dos laudos de perícias realizadas destaca que o emboço trazido no desprendimento das placas cerâmicas, é, ?notadamente composto de cimento, saibro e areia, com grande pulverulência?, e que isso mostra que ?a composição desta camada é deficiente em aglomerante (cimento portland), sendo um ponto fraco da fachada?.