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Tatuagem: ter ou n�o ter? eis a quest�o

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ALINA AMARAL ?Vivia desejando fazer uma tatuagem. Queria algo personal, que me representasse, escolhi um negativo, nada mais meu, era isto que eu desejava?. Distantes dos conceitos vaidosos, corpólatras, exibição de força ou modismos, Felipe Camelo, que passou toda a vida circulando nos meios da moda e artístico (onde é mais comum o uso da tatuagem) resolve, só agora, às vésperas dos 43, tatuar seu corpo. Felipe é mais um no ranking dos que assumem a tatuagem como um diferencial, uma marca registrada que engrossa a estatística dos estúdios de tatuadores. ?Hoje, no estúdio, recebemos advogados, promotores e já tatuamos pessoas com até 60 anos. Esse processo é enriquecedor para a arte da tatuagem, este público já representa mais de 50% da nossa freqüência?, declara a mananger de um badalado estúdio da cidade, Kedma Villar. Homens e mulheres ?bem resolvidos? assumem sua marca depois de anos de flerte silencioso e respeitoso com a tatuagem, como é o caso do cantor e compositor Macléim, que acabou de fazer a primeira tatuagem aos 45 anos, um camaleão (pós-excentricidades da juventude quando é comum aos adolescentes) ?esta imagem é muito mais que um desenho, é o simbolismo de um momento?. Mas, afinal, o que pode levar alguém a se submeter a um exercício de autoflagelação para gravar em sua própria pele (interferir na obra divina) imagens das quais jamais se livrará? Segundo a psicóloga Alessandra Turton, o ato de se tatuar é uma forma de se comunicar, a tal comunicação não-verbal, que permite que sua imagem fale por si só?. Talvez por isso, elas são fortes sinalizadores das tribos urbanas, ou ainda, depoimento silencioso de posturas de vidas assumidas. Os marinheiros não fogem à regra de exibir em seus músculos imagens, lutadores normalmente aderem à prática, os mafiosos sinalizam o corpo com senhas secretas. Gisele Bündchen Imagem perfeita para uma grande leva de adolescentes e consumidores, a top model Gisele Bündchen exibe, ao lado de um soutien de 4, 5 milhões de dólares, uma singela estrelinha tatuada no pulso direito. Logo, a estrelinha vira moda. ?Elas chegam aos montes de salto agulha e pedem sua ousadia maior: tatuar uma estrelinha?, disse-me uma amiga que encontrou uma boa leva de ?patricinhas? confessas na fila de um badalado estúdio. Liz Moura, uma boa exemplar de uma ?patricinha moderna?, afirma ?tinha vontade de enfeitar meu corpo, acho ótimo que as pessoas vêem a tatuagem como uma coisa moderna, não como uma rebeldia?. A tatuagem atravessou sete mares, sinalizou hierarquias, povos, demostrou força, rebeldia, transgressão e chegou ao terceiro milênio freqüentando restaurantes caros, perfumada com essências francesas e já não causa mais agressão às retinas comportadas (guardadas as devidas proporções, claro). A top model Marina Dias, que tem boa parte do corpo tatuado, hoje freqüenta passarelas de estilistas mais tradicionais e já fez campanhas como Dior, Chanel e Valentino. ?No início, só fazia desfiles de estilistas de vanguarda, hoje não acontece mais?, afirma. Mas o preconceito ainda existe, ?algumas pessoas chegam a dizer: você não vai se arrepender?? afirma a empresária Laline Pauly, que tatuou uma rosa no calcanhar por pura e confessa vaidade, ?queria mesmo me enfeitar?, assume. Laline foi vítima de uma reação alérgica rara à tinta utilizada no processo, ?fiquei triste, o resultado não foi o esperado?. Já o arquiteto Wellington Gomes, que fez sua primeira tatuagem, um tribal na barriga, aos 26 anos e aos 38 tatuou seu nome dividido nos dois calcanhares assume: ?admiro a tatuagem e fiz para mim mesmo, por isto escolhi um lugar que só mostro se desejar, as pessoas ainda têm preconceito sim, mesmo na minha área?. Sobre a escolha do desenho Wellington afirma que ?foi uma inspiração macabra, queria meu nome, uma identidade, lembrei das etiquetas dos corpos no necrotério?, assume. Pacto de sangue Selar amores, tal qual o velho pacto de sangue, essa virou também função das tatuagens, os profissionais da área agradecem, mas nem tanto: ?Não avalizamos este modismo, para nós o importante é que haja o compromisso da pessoa, não desejamos nossa arte desfeita em um futuro?, avalia Cláudia Fanti, tatuadora, considerada uma das mais importantes do País. O ex-casal Latino e Kely Kie promoveu sessões de tatuos e lasers ao decidir e depois mudar de opinião, tatuar seu nome e rosto (um no outro). Nesses casos de paixões alerta Kedma Villar ?desaconselhamos e não tatuamos rosto e nomes por uma questão de ética, além do mais dos 16 aos 18 anos só com a presença dos pais?. A professora universitária que tem as costas inteiramente tatuadas com um ?mangá?, desenho japonês com um ideagrama no centro, que significa ?a pacificadora?, começou sua tatuagem aos 28 anos, passou 13 meses e 89 horas para concluir, avalia: ?Transito em um meio acadêmico, mas nunca sofri discriminação?, afirma Kedma que ganhou este ano na convenção internacional de tatuagem o título de ?melhor tatuagem colorida?. Há ainda outras categorias, a dos místicos que acreditam na força sobrenatural que conferem as suas imagens impressas, os que usam a tatuagem como forma de protesto ou de patriotismo, partidarismo, há os que desejam gravar nomes, selar datas, homenagear filhos, fazer rir, enfim, nas filas dos melhores estúdios de tatoos peregrinos modernos, pós-modernos, vanguardas, rebeldes ou de qualquer outra crença exibem em seus corpos ou no seu desejo um pouco mais da sua história. Hábito Elas existem desde que o mundo é mundo. Certo? Uns dizem que sim outros que não, a verdade é que esta mania milenar está associada com a evolução do homem, ?não há nação que não conheça esse fenômeno?, escreveu Charles Darwin, o pai da teoria evolucionista. Em um passado bastante remoto, as tatuagens sinalizavam crescimento, nascimento, adolescência. Em algumas tribos, seu guerreiros registravam na própria pele hierarquias, poder, vitórias e em alguma outras evocava-se bons e maus espíritos. Provas arqueológicas sinalizam a prática da tatuagem no Egito entre 4000 e 2000 a.C., múmias com sinais que indicam esta prática foram encontradas no Vale do Rio Nilo. Os povos nativos da Polinésia, Filipinas, Indonésia e Nova Zelândia , os Maori, tatuavam todo o rosto em rituais religiosos complexos, estes povos acreditavam que as formas impressas no corpo estavam diretamente relacionadas às graças que esta pessoa poderia receber. A Idade Média impôs a esta prática a visão negativa, que ela carrega até hoje sob o argumento fantasioso de que seria a tatuagem ?coisa do demônio?. Já no século XVIII, tornou-se popular entre os marinheiros, surgiu então o papel do tatuador oficial. Muitas águas e traços malfeitos rolaram até surgir a palavra ?tattoo? criada pelo capitão James Cook (também descobridor do surf), que em seu diário de bordo escreveu a palavra ?tattow?, também conhecida como ?tatau? (que seria a reprodução do som obtido na execução da tatuagem, feita, na época, com ossos finos como agulhas e uma espécie de martelinho para introduzir a tinta na pele). Ao desembarcar no Taiti, na Polinésia, em 1769, James Cook e sua tripulação se depararam com uma gente no mínimo exótica, ?eles trocam roupas por desenhos por todo corpo e tem muito orgulho disto?, relatava o diário de bordo da tripulação. Nasceu a tattoo, que no idioma do Taiti, significa ?desenho no corpo?. Apenas em 1959, chegou ao Brasil a tatuagem elétrica, com o dinamarquês ?Knud Harld Likke Gregersen?, o ?Lucky Tattoo?. Knud afirmava que suas tatuagens eram ?de boa sorte?. Entre outras personalidades Knud foi o responsável pelo famoso dragão cantado por Caetano Veloso na canção Menino do Rio.

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