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Lixo garante sobreviv�ncia a legi�es de miser�veis

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FÁTIMA ALMEIDA A latinha de cerveja, descartada pelos milhões de consumidores amantes da geladinha, sumiu do lixo urbano. Disputadíssima por um batalhão de trabalhadores informais, que encontraram no recipiente vazio uma fonte de renda, ela tornou-se um objeto raro no saldo das festas, nos bares, na praia e nas ruas, onde são largadas displicentemente pelos consumidores. Para eles, o que vale é o conteúdo. Mas para um exército de famílias de baixa renda, a latinha vazia significa a esperança de barriga cheia e uma atividade que está ganhando porte de profissão: o catador de latinhas. O mais importante de tudo isso é o benefício que essa atividade traz para o meio ambiente. Se permanecesse no meio onde é jogada, a latinha levaria de 200 a 500 anos para se decompor. Imagine, agora, o saldo de latinhas descartadas durante o carnaval, se fossem esquecidas nos lixões, terrenos baldios, margens dos rios, lagoas e mar, e imagine o acumulo de muitos outros carnavais, dias de praia e futebol... Felizmente, a latinha é catada quase que imediatamente para reciclagem e embora a atividade não venha de uma consciência ambiental, o meio ambiente agradece. A procura está mesmo agregada ao valor que ela acrescenta ao bolso do cidadão. Amassada e pesada, a latinha que é tirada do lixo é vendida até a R$ 3,50, o quilo, para atravessadores. O destino final é a indústria de alumínio. Em épocas fartas, como o Maceió Fest e o carnaval, a cata de latinhas mobiliza famílias inteiras, que chegam a trocar seus barracos, em algum ponto da periferia de Maceió, pelo relento da Praia da Pajuçara, o entorno de Jaraguá ou os balneários onde é a grande concentração popular. Crianças e adultos, dos 7 aos 70 anos de idade entregam-se à atividade para assegurar o pão na mesa da família. A arrecadação nessas épocas chega a superar a faixa dos R$ 400, assegura Maria Teixeira de Araújo, moradora do Vergel do Lago, desempregada, mãe de seis filhos na faixa de 2 meses a 11 anos de idade, a maioria já engajada na cata das latas. De tão procurada, a latinha não compõe mais os ingredientes das caixas de coleta do lixo. Nem mesmo no aterro controlado de Maceió, o ?lixão da Cobel?, ela é mais encontrada. ?Os catadores recolhem antes de o carro passar?, explicou Paulo Noronha, coordenador do aterro. Ele já teve que fazer um acordo com catadores da parte alta da cidade (Jacintinho, Feitosa e adjacências), que descem em mutirão todas as noites para os bares do Stela Maris. ?Levem as latinhas, mas preservem os sacos, sem espalhar o lixo?. Sustentando famílias Embora seja a mais concorrida, por ter um valor maior, a latinha de alumínio não é a única renda tirada do lixo. Há oito anos ?seu? Heleno José dos Santos, 63, residente da Vila Emater, tenta assegurar o seu sustento catando as latinhas de ?ferro?, de alguns refrigerantes. O preço do quilo não é nada atrativo: R$ 0,9. ?Mas está difícil concorrer com a garotada catando latinha de alumínio. No momento, ele está parado por motivos de saúde, mas quando em atividade costuma juntar cerca de 200 quilos por semana, o que lhe garante um ganho de R$ 18, algo em torno dos R$ 70 por mês. ?Moro sozinho. Dá pra comer?, ressaltou ele, que antes trabalhava na roça. Seu vizinho, José Carlos da Silva, também vive do lixo, mas em outro ramo. Cata os sacos de nylon (chamados sacos de linha), lava e vende para os feirantes no mercado, a R$ 0,12 a unidade. Ele afirmou que dá para recolher 100 sacos por dia no lixão, o que lhe garante uma renda de aproximadamente R$ 350 por mês. É com esse dinheiro que ele sobrevive há dois anos, desde que ficou desempregado, e ajuda a sustentar os quatro filhos, que vivem com a mulher. Esse é o lado bom da história. O ruim, segundo José Carlos, é ter que, praticamente, viver no lixo.

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