Cidades
Jovens alagoanos sofrem com desemprego
FELIPE FARIAS Michelle Portela,21 anos, con-cluiu com sacri-fício o Ensino Médio em 2001. Desde en-tão, segundo ela, vem percorrendo lojas e mais lojas para deixar o currículo em busca de emprego. Mesmo depois de tanto esforço, ela continua desempregada. ?Acho que estão usando os currículos para preencher prateleiras porque até hoje nunca fui chamada?, ironiza. Ela diz que nem sequer procurou uma empresa grande, limitando-se a distribuir o currículo em magazines por achar que as oportunidades neste último setor seriam melhores. ?Nas empresas grandes eles não vão deixar de empregar um universitário para me colocar?, resigna-se. Michelle calcula já ter distribuído ?mais de vinte currículos?, todos sem resposta, e reclama da falta de oportunidades. ?O jovem não tem crédito e sempre leva a fama de inconseqüente. Em concursos, por exemplo, a regra de desempate é a idade maior. Até nisso o jovem perde?. A jovem Michelle não é uma exceção à regra. O alagoano adolescente ganha mal e é pouco alfabetizado. As conclusões estão no relatório da Unesco, organismo das Nações Unidas para a educação, ciência e cultura, que aponta Alagoas como o Estado brasileiro onde a qualidade de vida do jovem é a mais baixa de todo o Brasil. O Relatório de Desenvolvimento Juvenil de 2003, divulgado esta semana, criou um novo indicador: o Índice de Desenvolvimento Juvenil (IDJ), que avalia as condições de vida dos integrantes da faixa etária que vai dos 15 aos 24 anos, usando critérios semelhantes aos do já conhecido IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Só que ao invés de levar em conta aspectos mais gerais da população, como mortalidade infantil ou expectativa de vida, o IDJ se voltou para critérios específicos dos jovens, como freqüência no ensino médio, ou taxa de mortalidade por causas violentas, agrupando-os em itens como educação, saúde e renda. Desses três, Alagoas apresentou o pior desempenho no País em dois deles. A média nacional de analfabetismo entre os jovens foi considerada baixa: 4,2%. O problema, segundo a pesquisa, está na ?distribuição desigual? desse indicador. Enquanto Santa Catarina e Amapá ficaram acima da média, com apenas 1% de analfabetismo entre seus habitantes de 15 a 24 anos, Alagoas tem 15,4% de integrantes dessa faixa etária que não sabem ler nem escrever. O Estado é também o que possui o menor índice de jovens matriculados nos ensinos Médio e Superior (apenas 16,2%) e ficou atrás de todos os outros ainda no item renda. A pesquisa levou em conta a renda familiar per capita (RFPC), ou seja, o total de ganhos de uma família dividido pelo número de componentes, baseado no salário mínimo. A média brasileira é de 1,46. O Distrito Federal é onde o jovem ganha melhor: 2,46 salários, em média. Alagoas é onde ganha pior: 0,73, ou seja, menos de um salário mínimo, em média. Por outro lado, o Estado obteve um desempenho relativamente melhor em relação à violência. Violência Ao avaliar a incidência de mortes por causas violentas, como crimes e acidentes, o relatório colocou Alagoas em 13o lugar, com média de 67,96 mortes causadas por algum desses motivos, para cada grupo de 100 mil óbitos. O índice alagoano está abaixo da média nacional, que foi de 74,42 por cada 100 mil mortes. O campeão nesse item no Nordeste foi Pernambuco, com média de 127,97 mortes violentas entre jovens por cada 100 mil. O IDJ usa a mesma escala do IDH: de 0 a 1, da pior para a melhor situação, após atribuir uma numeração a cada um dos índices analisados; de mortes violentas, de quantidade de matriculados e de analfabetos e assim por diante. O Estado campeão brasileiro foi Santa Catarina, mas seu IDJ ficou bem abaixo do ideal: 0,673. Porém o pior IDJ do país ficou mesmo com Alagoas: 0,337. ?Não foi surpresa?, avaliou Terezinha Falcão Freire, professora do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Exclusão Entre 1997 e 99, ela esteve à frente de uma pesquisa sobre exclusão social no Estado que chegou a números parecidos. Os dados foram contestados pelo governo, como agora. O governador Ronaldo Lessa diz que os números não incorporaram seus dois primeiros anos de governo, principalmente quanto ao avanço na educação, com a criação de mais de 150 mil novas matrículas na escola.