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PAIS E PROFESSORES RELATAM AS DIFICULDADES DA EDUCAÇÃO ESPECIAL

Ensino remoto durante a pandemia se tornou maior desafio para educadores e as famílias

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Imagem ilustrativa da imagem PAIS E PROFESSORES RELATAM AS DIFICULDADES DA EDUCAÇÃO ESPECIAL
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O ensino remoto, durante a pandemia da Covid-19, se mostrou um dos maiores desafios para pais, professores, e toda a rede de ensino, que precisaram se reinventar para não deixar os estudantes sem acesso à sala de aula. As crianças em idade escolar sentiram na pele a impossibilidade de sair de casa e todas as limitações impostas pelo novo formato. No entanto, não há como mensurar a ampliação dessas dificuldades para aqueles que, num regime normal de aulas, já são acompanhados de enormes adversidades.

“A exclusão ganhou um significado bem maior com a pandemia”, revela Waleska Dacal, professora há 20 anos, e que nos últimos dois tem desenvolvido trabalhos com alunos que possuem necessidades especiais de educação, em uma escola da rede pública do estado.

“Os alunos com necessidade de educação especial precisam de atendimento especializado e encontros diários. Muitos deles não conseguem ler ou escrever sozinhos e precisam de um profissional que saiba integrá-los. Nossa principal preocupação, durante a pandemia, foi não os deixar mais excluídos do que eles já são”, afirma Waleska. Uma das fundadoras da Sala de Recursos na escola onde trabalha - espaço próprio para o Atendimento Educacional Especializado (AEE) na rede pública (que atualmente conta com 4.730 cadastros de solicitações de atendimento especializado, segundo a Secretaria de Estado da Educação) -, a professora diz estar conseguindo atingir os 11 alunos os quais assiste na instituição. Porém, o alcance veio através de muita determinação da profissional. “Os primeiros relatos foram perturbadores. Após o fechamento da escola, os meninos ficaram ansiosos e agitados. Eles queriam voltar para as atividades a todo custo, muitos não compreendiam a situação. Como alguns deles também tem dificuldades com as plataformas mais comuns, fomos nos adequando a cada uma das necessidades. Tentamos manter contato com os pais, deixamos materiais para eles pegarem na escola, não abrimos mão de nenhum dos nossos”, relata a professora.

É o caso de Djalma, de 14 anos. Ele, que tem um diagnóstico de hiperatividade e dificuldade cognitiva, foi transferido para a sala da professora Waleska após não se adaptar às demandas das aulas online numa turma regular. Mesmo assim, a mãe, dona Rosimeire da Silva conta os desafios de acompanhar, em casa, as dificuldades do filho. “Ele ficou agitado e nervoso com as atividades. Fez muita diferença a mudança para a Sala de Recursos. Ele já teve, numa escola anterior, um auxiliar de sala. Hoje, em casa, sou eu que o ajudo. As respostas que não sei, deixamos em branco e depois eu falo com a professora. Ele faz no tempo dele. É difícil, mas a gente caminha”, narra Rosimeire.

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Já Luiza Carvalho, mãe do Elias, de 12 anos, diagnosticado com TDAH, fala sobre a importância do diagnostico para o acompanhamento correto do filho. “Ele finalizou o 5º ano e entrou no 6º já no ensino remoto. As primeiras aulas online dele eram apenas em áudio. Era muito difícil fazê-lo se concentrar. Ele mesmo falava ‘mãe, é horrível’. Ele foi diagnosticado no fim do ano passado. Hoje, com atividades mais lúdicas e em vídeo, ele consegue aprender, mas os momentos de explicação ainda são os mais difíceis”, conta. Precisando de acompanhamento correto e específico, a mãe, em casa, faz o que pode pela educação do filho. “É difícil, mas a gente vai conseguindo. Compramos um celular só para que ele pudesse acompanhar as atividades. Mas muitas pessoas não têm essa condição. E para quem não tem nem sequer o diagnóstico, acha que o filho é preguiçoso ou incapaz. Agora pudemos nos adaptar para ele, mas não é fácil”, destaca. Contudo, nem todas as instituições e famílias puderam caminhar nesse mesmo sentido. Mesmo com as adaptações, Nadja Maria, mãe da Maria Júlia, de 9 anos, e do Júlio, de 11, ambos com transtorno intelectual e hiperatividade, afirma que os meninos não conseguiram acompanhar as atividades online satisfatoriamente. “Eles ficaram bem ansiosos, estressados, perderam muito o foco. Em casa eles estão dispersos, acomodados, até a forma com que se posicionam em frente a câmera, tudo isso influencia muito. A internet cai, há barulho na rua, animais em casa, e tudo isso tira a atenção deles. Muitas vezes a Júlia dormiu na aula online. Júlio fica totalmente disperso, mexendo em alguma coisa, não há ambiente que nem a sala de aula”, desabafa Nadja.

MEDO DOS RÓTULOS

Tendo em vista que uma das primeiras dificuldades da criança com deficiência já é a própria aceitação dos pais em relação a sua realidade, a professora Waleska destacou ainda a realidade difícil vivida em outra instituição na qual também leciona. “Iniciamos uma turma com a qual nunca tivemos contato anterior. Dificulta muito. Precisamos avaliar esses alunos, conversar com os pais e entender qual a necessidade de cada um. Mas, principalmente, há problemas com os familiares. Pais que não aceitam as deficiências do filho. A escola tem os equipamentos, mas o pai é resistente. Não quer rótulos. Não busca o diagnóstico, pelo qual teríamos a Classificação Internacional de Doenças (CID) do aluno. Sem esse norte, é muito difícil trabalhar”, ela aponta. Para a docente, as angústias e problemas dos pais durante a pandemia também reflete na educação das crianças. Nesse sentido, Nadja afirma que, na sua experiência, mesmo com todas as dificuldades, o acompanhamento e carinho com os filhos é a garantia do desenvolvimento deles. “O problema dos pais hoje é a não aceitação. Já vi pais tirando os filhos da escola por isso. Eu sempre aceitei. A gente tem que correr atrás agora porque mais tarde pode se agravar. Não é uma besteira. Há apoios psicológicos, terapeutas, médicos, psiquiatras, neurologistas, toda uma equipe para a gente poder trabalhar a parte psicológica da criança”, sublinha a mãe.

É NECESSARIO FORMAÇÃO

A Educação Especial é a “modalidade de educação escolar oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação” (Redação dada pela Lei nº 12.796/2013, art.58, que alterou a LDB). Para ofertá-la, tanto a instituição de ensino como o profissional da educação precisam de estrutura e conhecimentos específicos para aplicá-la.

Para a professora da Ufal e Doutora em Educação, Maria Dolores Fortes, a realidade da pandemia escancarou a necessidade de valorização desses professores. Num contexto em que a capacitação é essencial, todos se desdobraram como puderam para alcançar os seus alunos, apesar da falta de equipamentos, remuneração adequada e qualificação. Ela explica que as necessidades específicas da modalidade online, por si só, já pediriam uma preparação concreta dos professores para lidar com a nova realidade. No contexto da educação especial, esses profissionais demandam muito mais tempo e investimento para preparar um conteúdo adequado. Coisas das quais nem sempre dispõem.

“A educação remota é muito mais difícil, é mais fria. Necessita de tempo, preparo e investimento. Eu sei que tivemos avanços muito grandes. As secretarias investiram o que puderam, os professores também, se desdobrando em dez, apesar das mortes e das dores. Mas, infelizmente, como a gente tem um acúmulo de vários déficits, de formação, econômico, de investimento em tecnologia, nós precisaríamos que tudo isso fosse resolvido para que todos estivéssemos mais prontos para lidar com esse novo formato. Nem sempre o professor tem tempo ou informação continuada adequada para conhecer as ferramentas para lidar com alunos com deficiência visual, auditiva, motora ou cognitiva”, opina a educadora. Ela salienta, no entanto, que a solução imediata é o acolhimento, respeito e valorização desses profissionais. “Esse professor precisa ter uma remuneração justa e incentivo para poder se capacitar e amparar todas essas realidades, preparando um conteúdo didático e eficiente para cada uma das necessidades, presencial ou remoto, síncrono ou assíncrono. É tempo de investir na vida, na qualidade de vida. Que eles possam tomar a vacina e voltar a sala, gradativamente, tendo em vista o momento em que se vive, pensando na saúde emocional e física dos professores e dos alunos”, conclui.

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