loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quinta-feira, 06/08/2026 | Ano | Nº 6282
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Cidades

Cidades

Tens�es e protestos antes da ditadura em Macei�

Ouvir
Compartilhar

VALMIR CALHEIROS O grande momento dos acontecimentos de 1964, entre os quais as constantes greves aconteceriam em Alagoas, num domingo de Ramos, - dia 29 de março, dois dias anteriores portanto, de ser implantada a ditadura militar no País, marcada pelo autoritarismo, pela supressão dos direitos constitucionais, perseguição policial e militar, prisões e torturas dos opositores e censura prévia aos meios de comunicação, permaneceu até a consolidação da abertura política em 1985. Aguardava-se, para a noite desse domingo, com enormes expectativas e preocupações, o comício pelas reformas de base, no Parque Rodolfo Lins (antiga Praça do Pirulito), na Levada ? imediações do Mercado Público, em Maceió. O ato, organizado pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), e pela maioria dos sindicatos e federações de trabalhadores, e as mais influentes entidades estudantis, à frente o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal e a União dos Estudantes Secundários de Alagoas (Uesa), contaria com a presença de dois dos mais importantes líderes do movimento reformista em nível nacional: o então deputado Leonel Brizola e o governador de Pernambuco Miguel Arraes. E teria as mesmas finalidades do histórico comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, realizado há poucos dias (13 de março), e que atraíra cerca de 200 mil pessoas. Cerca de um mês antes, os alagoanos tinham lido nesta GAZETA uma notícia procedente de Moscou de que o jornal Pravda acabara de fazer referência ao Brasil, destacando que o País passava ?por uma fase de transição com o seu governo empenhado em promover o progresso da nação livre do jugo estrangeiro, que durante longo tempo sugou e espoliou a economia e a liberdade do seu povo (...) e que o presidente Goulart (Jango) está atualmente enfrentando as forças da reação auxiliadas pelo capitalismo norte-americano, visando empreender que se fazem necessárias para o progresso do País.? As previsões trazidas pelos jornais nos primeiros dias do ano de 64 tinham sido pessimistas. Como as do mais conhecido astrólogo em Alagoas, Odú Tenório. Segundo ele, esse ano seria marcado por mais agitações. Protestos e armas O governo do Estado acabava de comemorar o terceiro ano de administração. Há vários dias, nas áreas mais movimentadas de Maceió, já eram vistos cartazes e faixas de todos os tipos e com frases e slogans os mais diversos de protestos contra o imperialismo, o capitalismo, por mudanças no País, inclusive da Constituição, e também de reação às propostas dos seguidores do Partido Comunista (PC), de outros segmentos da esquerda, e do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), do governo. Inclusive, várias denominavam Brizola como o ?Judas da Semana? e exibiam em letras bastante destacadas ?Alagoas quer paz; fora Brizola e Arraes.? No dia 29, os sindicalistas da Petrobras marchariam pela cidade conduzindo tochas acesas. Cientificado a respeito, o governador Luiz Cavalcante, e cujo vice era o ex-deputado estadual e futuro senador Teotônio Vilela, teria orientado o secretário de segurança a não usar armas, dizendo que o combate ao fogo se faz com água e logo apareceram caminhões-pipa nas ruas também tomadas pelas forças policiais conduzindo fuzis, metralhadoras e outras armas. As vias de acesso ao Parque Rodolfo Lins foram interditadas com bastante antecedência, juntamente com as rodovias e ferrovias nas fronteiras com Pernambuco e Sergipe. Ouviram-se alguns tiros de revólver e rajadas de metralhadoras em alguns pontos da capital alagoana. Houve o registro de apenas uma pessoa ferida em Maceió: um trabalhador da Petrobras, conforme informou o Jornal de Alagoas. A ordem era impossibilitar que Arraes e Brizola chegassem a Alagoas como ?agitadores desses outros estados, na busca da vitória de suas lutas, sobretudo em Alagoas pelo fato de este estado ser governado por um representante das Forças Armadas? (o governador Cavalcante, mais conhecido popularmente como ?Major Luiz?, era general da reserva). Uma das primeiras medidas adotadas pela então Secretaria de Segurança, comandada pelo coronel do Exército João Mendes de Mendonça, foi a não autorização para a realização do ?monumental comício das reformas?. As mobilizações contrárias aos chamados agitadores e comunistas nos dias que antecederam ao 31 de março tiveram a participação de políticos de vários partidos, entre os quais a União Democrática Nacional (UDN) e o PSD (Partido Social Democrático), das classes produtoras, da Igreja, de outros setores conservadores, e de entidades representativas das mulheres. Sobretudo, dessas últimas, que foram consideradas decisivas logo que saíram às ruas em passeata. Em contraponto ao comício programado para o Parque Rodolfo Lins, esses setores com o governo do Estado chegaram a patrocinar convocação nas primeiras páginas dos principais jornais e por outros meios de comunicação, para um comício contra o comunismo e pela Pátria, às 18 horas do mesmo dia 29, na Praça Deodoro, no centro da cidade, a cerca de 200 metros do local do outro. As duas concentrações terminaram não acontecendo. Dúvidas Havia dúvidas de que o movimento militar fosse vitorioso. A prova disto está no fato, que só chegou ao conhecimento da opinião púbica várias semanas depois, de que antes de a ?revolução estourar, o então governador de São Paulo, Adhemar de Barros, mandou um avião da Vasp para Maceió, a fim de facilitar a fuga do seu colega alagoano para algum país da América do Sul, em caso de derrota?. O próprio governador Luiz Cavalcante admitiu que houve essa generosidade do governador paulista, e que mandou chamar o comandante do avião e lhe pediu para que voltasse para São Paulo. ?O avião em Maceió era até uma tentação?, disse. Um mês depois de instaurado o novo regime, Cavalcante, que, segundo garante o professor Lincoln Cavalcante, um de seus irmãos e secretário de estado nos últimos meses da administração do ?major Luiz?, declarou, primeiramente a ele, que estava contrariado com certas decisões adotadas pelo governo federal. ?O mano não pertencia à linha dura do Exército. Apoiava, desde a primeira hora, o governador Carlos Lacerda (do então Estado da Guanabara), para a presidência da República nas eleições que deveriam ser realizadas em 1965, e não tinha a simpatia do então ministro da Guerra e chefe do Comando Revolucionário, general Arthur da Costa e Silva?.

Relacionadas