Cidades
O alagoano que quebrou a m�quina da tortura
MÁRIO LIMA ?Uma tristeza alegre?. A frase dita por Iracilda Lisboa de Moura traduz o sentimento da família do revolucionário alagoano Manoel Lisboa, depois de finalmente conseguir a transferência dos restos mortais, que estavam em São Paulo, para o Parque das Flores, em Maceió, 30 anos depois de sua morte. Para ela, apesar do sofrimento, das feridas reabertas, das lembranças tristes, é um alívio saber que o que sobrou do seu filho está perto. ?Na hora que eu quero posso ir ao cemitério rezar por ele e recordar as boas lembranças de mãe?, diz, emocionada. Dona Iracilda, que muitas vezes escondeu o filho dos militares, ficava dividida entre o filho mais novo, que quando foi preso no Recife levou a mãe a fazer uma peregrinação por quartéis e delegacias, até conseguir soltá-lo, e a segurança dos outros três filhos, por serem funcionários públicos federais e correrem o risco de sofrer retaliações. O pai de Manoel Lisboa era oficial da Marinha e viajava muito, não tinha como acompanhar o dia-a-dia do filho. ?Nós temíamos pela segurança dele, que fosse preso e torturado, do sofrimento, ou até assassinado?, relembra dona Iracilda, que chegou a ficar dez anos sem notícias do filho. Apenas chegavam até ela boatos sobre por onde ele andava. ?Numa das vezes em que ele apareceu, eu perguntei: quem é esse homem? E Manoel comentou: agora sei que ninguém vai me reconhecer, porque minha mãe não me reconheceu?, conta ela. Entre as muitas histórias que chegaram aos ouvidos da família sobre os horrores sofridos pelo revolucionário, antes de morrer vítima da tortura, uma delas teria sido na máquina de choque. Durante mais uma sessão choques elétricos, Manoel Lisboa teria se revoltado contra aquela situação em que se encontrava e destruído a máquina, como protesto pela tortura que minava o seu corpo e dilacerava a alma?. Nós ouvimos essa história e ficamos impressionados e pensando: se é verdadeira, o que aconteceu depois com ele??, destaca Alfredo, sobrinho de Manoel Lisboa. Em 16 de agosto de 73, Manoel Lisboa foi preso, na Praça Ian Flemming, no Recife, no bairro do Rosarinho, quando conversava com uma operária. Algemado e arrastado pelos militares foi conduzido numa viatura para o DOI- Codi do IV Exército. No dia 5 de setembro, a imprensa publicou a informação de que Manoel Lisboa tinha morrido após tiroteio com órgãos de segurança, no bairro de Moema, em São Paulo. Mas a farsa montada para justificar o assassinato do revolucionário, em conseqüência das torturas, foi desmascarada. As investigações mostraram que Manoel Lisboa foi levado para São Paulo apenas para que o delegado Fleury, responsável pela sua prisão e considerado um dos homens mais violentos da repressão, pudesse montar a versão oficial.