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Desaparecidos permanecem como sombras do passado

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BLEINE OLIVEIRA Numa terça-feira de fevereiro de 1975, a dona de casa Elza Miranda esperou até muito tarde que o marido voltasse para o jantar, para receber alguns primos que chegariam de Maceió para uma visita ao casal, que há alguns anos se mudara para o Rio de Janeiro. A espera consumiu a madrugada e os 29 anos seguintes da vida de dona Elza, que até hoje, não sabe o que aconteceu com seu marido. O fato pareceria mais um caso de violência não fosse ele a maior expressão da esquerda em Alagoas e dirigente nacional do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o histórico Partidão. Dona Elza é viúva (?) do advogado e jornalista alagoano Jaime Amorim de Miranda, um dos brasileiros ?desaparecidos? pelo regime militar. Vivendo na clandestinidade no Rio de Janeiro, Jayme desapareceu no dia 5 de fevereiro de 1975, sem que até hoje, sua família saiba o que ocorreu. Passados 29 anos do desaparecimento de seu marido, Elza Miranda lembra dele como um militante corajoso, alguém para quem a morte não importava desde que se pudesse alcançar o objetivo. ?Ele acreditava no que fazia para construir um País melhor para o povo. Tinha uma ideologia e lutou para realizá-la?, declara a mulher que enfrentou todas as dificuldades de ser esposa de um desaparecido político num dos momentos mais duros da repressão militar. Dona Elza teve que lutar muito para criar os quatro filhos. Ela sabia pouco sobre as ações do marido. Justamente para protegê-los, Jayme Miranda nunca envolveu a família nas atividades políticas que desenvolvia. O que sabia era suficiente para enfrentar as adversidades que poderiam surgir, caso ele não voltasse pra casa. O jornalista Jayme Miranda foi preso no dia 1º de abril de 1964, em Maceió, logo depois do golpe militar. O autoritarismo da época levou à prisão outras expressões políticas, sindicais e intelectuais do Estado, como Dirceu Lindoso, José Alípio Vieira Pinto, Rubens Colaço, João Moura e José Moura Rocha. Na época, Jayme era secretário-geral do PCB e editor do jornal A Voz do Povo, que combatia o autoritarismo. Ao ser libertado, oito meses depois, ele saiu de Alagoas com a família para viver clandestinamente no Rio Janeiro. ?Durante os 10 anos em que moramos no Rio, mudamos de endereço nove vezes?- afirma Elza. Ela lembra do homem que fez história na luta pela democracia como um pai amoroso, atencioso e alegre que nos momentos livres ensinava os filhos a falar Francês e Inglês, que ia com eles jogar bola na praia. ?Jayme aproveitava ao máximo o pouco tempo que tinha para estarmos juntos. Dentro do possível íamos ao cinema, saíamos para dançar...?- lembra Elza, que tinha 37 anos quando tudo aconteceu. Hoje, ela lida com a ausência do marido como um passado doloroso, mas que não a impediu de se investir da coragem necessária a garantir a sobrevivência dos filhos. Durante os meses seguintes ao desaparecimento, Elza recebeu ajuda para mantê-los, mas preferiu voltar a Maceió, onde poderia se estruturar melhor junto de familiares. Aqui reconstruiu a vida, mas não voltou a se casar. ?Imaginava que algum dia, ele fosse voltar!?- declara. Jaime e Elza tiveram quatro filhos: Olga, Yuri, Jaime e André. Há cerca de cinco anos, dona Elza recebeu uma indenização do governo, que assumiu responsabilidade pelo desaparecimento dos brasileiros que lutaram contra o regime militar. O dinheiro ajudou a resolver alguns problemas, mas não fez passar a dor que ela e os filhos enfrentam até hoje, nem tirou a esperança de saber o que de fato aconteceu com Jayme Miranda depois que ele saiu de casa naquele dia de fevereiro de 1974. ?Temos algumas informações, mas nenhuma concreta. Alguns dizem que ele foi morto com uma injeção letal e o corpo jogado num rio, outros que foi jogado vivo de um avião no mar?- diz dona Elza.

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