Cidades
Alagoanos ficam em trincheiras opostas em 64
MÁRIO LIMA Na próxima quarta-feira, 31 de março, o Brasil marca os 40 anos do Golpe Militar com um governo liderado por um ex-sindicalista, Luiz Inácio Lula da Silva, e o Partido dos Trabalhadores (PT) no poder. A sociedade civil passou por experiências marcantes ao longo desses 40 anos, como a Diretas Já, as primeiras eleições para presidente após o golpe. O que mudou de lá para cá? A GAZETA ouviu testemunhas oculares, que estiveram nos lados opostos do front. Entre aqueles que apoiaram a contra-revolução ? como o professor Lincoln Cavalcanti chama a tomada de poder pelos militares, para estancar uma revolução em curso, as Reformas de Bases do presidente deposto João Goulart, até um dos agitadores estudantis de Alagoas na época, o atual secretário de Infra-estrutura do governo Lessa, Jailson Rocha Bóia. O engenheiro Jailson Bóia, então com 18 anos, no dia 31 de março estava no centro de Maceió, no prédio União dos Estudantes Secundaristas. Ele era líder estudantil nacional, subsecretário da União Brasileira dos Secundaristas (UBES). ?Nós estávamos perto do prédio da antiga GAZETA, olhando as labaredas do incêndio consumirem a sede do jornal A Voz do Povo e do Partido Comunista Brasileiro (PCB). No comando do empastelamento estavam o delegado Rubens Quintella e o secretário de Segurança Pública na época, coronel João Mendes?, relembra. Pela sua agitação contra o golpe pegou sua primeira prisão ? 40 dias ? na antiga penitenciária do Estado, na Praça da Independência. ?Fiquei numa cela apertada com 25 pessoas dentro, depois ainda peguei outra prisão em Recife, quando decretaram o AI-5?. Para ele, ?o golpe foi uma interrupção brutal na democracia brasileira?. ?A sociedade civil brasileira ainda não se recuperou do trauma, pois acabaram com a inteligência, com a cultura e o planejamento adequado para o País?, opina. E os tempos são outros para o ex-líder estudantil. Segundo ele, o País continua até hoje ?rendido ao imperialismo americano?. ?Hoje a coisa está se repetindo. Estou sentindo um cheiro de 64 no ar, no governo Lula, essa coisa de ele priorizar o acordo com o FMI em detrimento dos projetos sociais. Veja a Venezuela como está, a Argentina também. Tem cheiro de golpe no ar?, acredita Bóia. Tropas na rua O capitão da reserva e escritor alagoano Carlito Lima tinha 24 anos, era tenente do Exército, servia no Recife, na segunda companhia de guarda. ?Apoiei o golpe militar, e não fui apenas testemunha ocular, tive participação atuante. No início da manhã, me foi dada a primeira missão: dissolver uma manifestação dos bancários. Os soldados batiam forte com os coturnos no calçamento, provocando medo nas pessoas. Quando a tropa se aproximou da aglomeração um sargento ao meu lado gritou: ?Vamos atirar tenente, vamos atirar senão a gente morre!?, comandei mais alto ainda para meus soldados??. ?Ninguém atira só com minha ordem. Foi um grande alívio quando estávamos cara a cara com os ?inimigos?, mas os sindicalistas se dispersaram?, conta Carlito, que mostra essa e outras histórias em seu primeiro livro ?Confissões de um Capitão?.