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“Ditadura acabou, mas elite continua predat�ria”

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MÁRIO LIMA O professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Sávio de Almeida faz uma análise do golpe e suas conseqüências para Alagoas e para o País. Ele relata também, aonde estava no dia do golpe, e como o arcebispo Dom Eugênio Sales salvou a sua pele. Para você quais foram as origens do golpe? Esta pergunta é difícil de ser respondida, pois remete à necessidade de se fazer uma análise detalhada do que estava em marcha. Conjunturalmente, o País passava por uma nova fase; já se conseguia pensá-lo como um todo. As soluções teriam que passar pela discussão da estrutura e, então, aparece a ordem de mudança estrutural. As reformas de base entram no processo político e a contradição leva a 1964, uma forma brusca de conter o crescimento pelas reformas, especialmente, acredito, com ênfase na questão agrária. Daí, o colapso democrático; havia a necessidade de institucionalizar uma liderança que mediante a retirada das salvaguardas de direito e através do absoluto controle do estado forçasse um caminho para a nação. Isto é vencido por uma frente de condições formais e informais, por um conjunto altamente diferenciado de práticas e estratégias que iria desde a luta armada até a manutenção de uma ordem mínima de conversação, o que informou o comportamento de boa parte da Igreja à qual sempre pertenci e que somente agora começa a aparecer em profundidade o que fazia. Ordem mínima de negociação não significava aceitar o sistema, mas reagir radicalmente com meios em que o confronto não fosse levado para a via armada. Esta tese não vinga, a conversação vai ser impossível. D. Eugênio mesmo se retira posteriormente, continuando sem aderir à luta armada. Nestas oportunidades já estarei tomando parte ativa na luta direta dentro da Universidade. Alagoas foi um dos primeiros a aderir ao golpe, tão logo foi anunciado. Como você viu esse episódio e aonde você estava naquele exato momento, em 31 de março? Eu havia chegado fazia bem pouco tempo em Maceió, não mais do que uns 10 dias. Havia sido convidado para participar da montagem do sistema Paulo Freire em Sergipe (eu havia participado no Rio Grande do Norte), mas estava resolvido a ficar em Maceió. Não fui, como não fui para o MEC em Brasília. Foi minha sorte. Dom Eugênio de Araújo Sales garantiu a minha integridade junto a um general de vida católica, apesar da posição de direita: General Murici; caso não me engane era comandante do IV Exército, coisa assim. Eugênio colocou o dedo em cima e pediu para que eu me escondesse uns seis meses e não voltasse para Natal. Somente poderia voltar com sua permissão. Àquela época eu era ligado à Ação Popular, conhecia bem poucas pessoas aqui em Maceió. Depois é que vai se desenvolver uma rede de relações, assumo posição contra a luta armada por não vê-la como saída (cheguei a ter envolvimento), permaneço articulado à Igreja através de D. Eugênio e aceito a tese da ordem mínima. É preciso lembrar que a Igreja esteve sob pesada ameaça, chegando mesmo a haver uma comissão secreta de negociações, participando D. Evaristo, D. Eugênio, acho que o D. Avelar. A finalidade era resguardar a Igreja: há um belo livro escrito sobre o assunto. Sobre a minha ligação com D. Eugênio dei um depoimento que foi publicado na Revista de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, elogiado, pelo que eu soube, por D. Evaristo Arns. Era para de certa forma fazer com que Eugênio falasse abertamente sobre o que se fez secretamente. Abriu-se então o que um amigo meu, professor do Departamento de Ciências Políticas da USP, chamou de Nova Lista de Schindler, uma comparação meio exótica mas interessante e oportuna. O Estado de Alagoas nunca mais foi o mesmo depois do golpe, ou nunca fora antes, já que a pobreza aumentou em relação direta à concentração de rendas, à baixa escolaridade, à falta de informação e à alienação política e econômica. Será que essa situação que vivemos hoje, com os mais baixos indicadores sociais do País, tem reflexo ou é conseqüência direta dessa militarização institucionalizada? Claro que o período de ditadura teve conseqüências sobre toda a vida nacional. Mas o caso de Alagoas em si, não pode ser atribuído única e exclusivamente ao fato de que se viveu uma ditadura. Alagoas é o caso típico de uma elite predatória que continuou durante a ditadura, saiu da ditadura e tem vida ativa atualmente. O tempo perdido pelo capital em Alagoas chama-se governo Luiz Cavalcanti. O major colocava oportunidades para o capital, mas ele jamais reagiu no sentido progressista. Atualmente há mudança no perfil do capital, mas as maquinações tradicionais refreiam os avanços. É pena. Alagoas precisa crescer, e seu crescimento não pode ser traduzido no discurso operacional de Estado, naquela retórica desagradável e cansada: veja o que era e veja como somos. Alagoas precisa é de uma arrancada desenvolvimentista e neste sentido seu quadro de capital tem que dar sua contribuição. Ao lado do crescimento econômico que me parece dificilmente demonstrável o desalinho social, a forma perversa da construção de uma sociedade mendigante. O que mudou no perfil antropológico, cultural e pessoal do alagoano. Será que mudamos mesmo? Como você vê Alagoas hoje, com relação àquela de 40 anos atrás? Existe algum elo histórico entre esses dois momentos? Jamais poderíamos ser os mesmos que éramos; Alagoas passa por um processo acentuado de transformações e talvez a mais grave se traduza no modo típico como foi feita e vem sendo feita a urbanização. A urbanização - permita-me o termo - é uma variável tipo ?omnibus?, para todos. Ela é um espaço em que os fatos, as condições gerais podem ser facilmente vistas. Alagoas passa por novos esquemas de integração ao nacional... Não há possibilidade de sermos os mesmos. Você vê alguma mudança brusca para um cenário futuro em Alagoas, com por exemplo um movimento popular forte à altura, para se confrontar com os poderosos de plantão. Ou vamos continuar naquela história de estrela radiosa que refulge ao surgir das manhãs. Não gosto de ser profeta. Isso foi bom no Antigo Testamento. Eu acredito que tudo tem que vir somando. É preciso que apareça uma nova liderança, que tenha a condição de não repetir a mesmice alagoana. Os poderosos de plantão são fortes; não serão derrotados por discurso, mas por convencimento. O povo tem que se chamar para ler a sua própria vida, aprender consigo mesmo. Eu creio e morrerei acreditando que chegaremos lá. Por que não? Existe uma cabeça de burro enterrada aqui? Claro que existe, enterrada e andando morta-viva.

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