Cidades
AL � o quinto Estado brasileiro em exclus�o digital
Fátima Almeida Alagoas é o quinto Estado do Brasil em exclusão digital. No Nordeste estamos à frente apenas do Maranhão e Piauí. Segundo pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas em abril de 2003, mais de 97% da população alagoana não tem acesso a computadores. Isso, significa um pouco mais de 2,7 milhões de pessoas. Num Estado onde os indicadores sociais ainda apontam índices alarmantes de fome, analfabetismo, mortalidade infantil e desemprego, a exclusão digital representa um entrave a mais nas portas para um futuro melhor, capaz de distanciar os filhos da pobreza da situação de miséria que reina na maioria dos lares alagoanos. Os dados da pesquisa, condensados no Mapa da Exclusão Digital no Brasil, da Fundação Getúlio Vargas, mostram que dos mais de 2,7 milhões de alagoanos que não têm acesso a computador, pouco mais de 1,6 milhão estão em idade economicamente ativa (considerada na faixa entre os 15 e 60 anos), ou seja, estão fora de uma realidade cada vez mais em ascensão no mundo inteiro que exige conhecimentos de informática como princípio básico para inserção e manutenção no competitivo mercado de trabalho. A situação no interior do Estado fica ainda mais dramática. Uma das tabelas do Mapa mostra que em pelo menos 14 dos 102 municípios alagoanos (mais de 14%) não possuíam um único computador na época pesquisada. Por amostragem, e combinando com dados do censo do IBGE 2000, a pesquisa mostra que pouco mais de 100 mil alagoanos têm acesso a computador, e destes, quase 79 mil estão em Maceió. No ranking da porcentagem de incluídos digitais em Alagoas, Maceió é o primeiro, com apenas 9,89% de sua população com acesso à informática, seguido de Piranhas, com 3,2%; Mar Vermelho, com 2,98%, e em quarto lugar vem Arapiraca, com 2,94%. O município de Ibateguara é o lanterninha da inclusão digital no Estado, com 0,05% de incluídos. Democratização Na opinião do engenheiro Antônio Carlos Firmino Costa, coordenador-executivo em Alagoas, do Comitê para Democratização da Informática (CDI), a exclusão digital é uma ferida vergonhosa porque significa a redução sumária das chances de melhoria da qualidade de vida para uma camada socialmente excluída. ?Hoje, sem conhecimento de informática, dificilmente se consegue emprego, e sem emprego a miséria continua?, observou ele. Desde 1999, Antônio Carlos juntou-se a outro alagoano, Cláudio Marcos e um pequeno grupo de pessoas igualmente encantadas com uma reportagem sobre o trabalho de inclusão digital iniciado em favelas do Rio de Janeiro, em 1995, pelo jovem Rodrigo Baggio, por meio de uma Organização-Não Governamental criada por ele, denominada Comitê para a Democratização da Informática, e resolveram implantar o CDI em Alagoas. Deu trabalho, mas deu certo. Em novembro do mesmo ano, o Comitê estava oficialmente formado, com a mesma missão da entidade matriz: promover a inclusão social, utilizando as tecnologias da informação como instrumentos para construção e o exercício da cidadania, a transformação de vidas e o desenvolvimento comunitário. ?Nosso objetivo é diminuir as desigualdades sociais através da informática e promover o exercício da cidadania em comunidades de baixa renda, abrindo oportunidades para a inserção no mercado de trabalho?, explicou Antônio Carlos. Ontem, o Comitê comemorou, com um dia de atividades na Vila Brejal, em Maceió, os nove anos de atividade da ONG no Brasil, que ficou institucionalizado como o Dia Nacional da Inclusão Digital. Dentro da proposta de cidadania, as comemorações envolveram a comunidade, parceiros e voluntários do projeto, numa espécie de feira de ciências da informática. O Comitê, que nasceu nas favelas do Rio de Janeiro, chega às comunidades por meio das Escolas de Informática e Cidadania (EICs). Hoje é uma rede (a Rede CDI) com 37 comitês no Brasil, 751 escolas, das quais quatro estão em Alagoas: Na Vila Brejal, Benedito Bentes, Santo Eduardo e no município de Palmeira dos Índios. Desde 1995, as EICs já formaram 575.820 educandos no Brasil e no exterior. Nos arquivos do CDI/AL, mais de 15 pedidos de implantação de escolas esperam para serem avaliados. ?Estamos em plena expansão no Estado e com encaminhamentos para a implantação de oito escolas no Sertão?, anunciou Antônio Carlos. Cidadania As escolas de Informática e Cidadania são implantadas por meio de instituições já existente e de comprovada atuação e credibilidade na comunidade. Elas fazem a minuta do projeto que deve incluir na proposta o aprendizado de informática atrelado à construção de projetos socioeducativos. O Comitê faz a pesquisa sobre a relação da instituição requerente com a comunidade, a avaliação do local para as instalações da EIC e busca parcerias junto a empresas públicas e privadas para a adoção da escola. O passo seguinte é a seleção da equipe de gestão, formada por voluntários, e a capacitação para gerir a escola e captar recursos. Os conhecimentos de informática são trabalhados por temas escolhidos pela própria comunidade, dentro dos problemas vivenciados por ela. Para os educandos, não tem limite de idade, desde que sejam alfabetizados, mas os adolescentes e jovens têm sido priorizados por causa da necessidade maior, para inserção no mercado de trabalho. As escolas cobram valores simbólicos que variam entre R$ 5 e R$ 10, que ajudam a manter os serviços. Os educadores são voluntários do projeto ou, em alguns casos, contratados pelas entidades mantenedoras. Parceria Os equipamentos e a manutenção do Comitê vêm por meio de parcerias com empresas e voluntários, que dão apoio financeiro, técnico, de produtos e serviços. No rol do CDI de Alagoas, entram desde multinacionais como a Philips, Microsoft, a ONG Visão Mundial, Xerox do Brasil, Kellogg Fundação, a empresas locais como a Incomel, Promissão, Supritudo, Digital, Neoline, Maxicabos, Fottofon, Big TV, Audita e ID.5. ?Hoje é cada vez mais presente a responsabilidade social das empresas. Sempre estamos em busca de novos parceiros, e são eles que mantêm o projeto?, ressaltou Antônio Carlos. Por meio de doações de voluntários, o Comitê tem 47 computadores em Alagoas e está prestes a receber uma doação de 50 máquinas da Xerox do Brasil. ?Isso vai duplicar a nossa capacidade de atendimento. Cada máquina doada significa a inclusão de 80 pessoas?, observou o coordenador, destacando a importância dos parceiros voluntários do projeto. O próprio presidente José Justino, é um voluntário. Um convênio com a Secretaria Municipal de Ação Social e outros parceiros ajuda a manter o trabalho de inclusão digital e cidadania de ambulantes da orla, por meio da Associação dos Prestadores de Serviço da Orla, junto com o CDI, na EIC do Santo Eduardo. ?São novas perspectivas que se abrem para eles?, salientou o presidente José Roberto de Oliveira. Histórias e inclusão Entre voluntários, educadores e educandos, o Comitê para a Democratização da Informática trabalha com pessoas de todas as idades, que sabem bem o peso de ser um excluído digital num mundo informatizado. Afinal o computador está cada vez mais presente no dia-a-dia das pessoas, senão como ferramenta de estudo e trabalho, mas em atividades mais simples, como receber o benefício social ou movimentar a conta no caixa eletrônico do banco, ou ainda no exercício da cidadania através do voto. ?Outro dia, estava no povoado Candunda, depois de Senador Rui Palmeira, onde não tem nem água encanada, mas tem uma instituição chamada Cactus, e por meio dela estamos implantando uma escola por lá, com o apoio da Visão Mundial. Lá eu perguntei a uma senhora de uns 70 anos, se ela já tivera contato com um computador e fiquei espantado quando ela respondeu que sim. ?No caixa eletrônico, onde recebo o meu benefício?, contou Antônio Carlos, dando uma dimensão da presença do computador no dia-a-dia do cidadão. Foi por isso que a dona de casa e líder comunitária Maria Nita de Araújo Tenório resolveu ter as suas primeiras aulas de informática na EIC do Santo Eduardo, aos 77 anos. ?Eu me sentia vazia, sem saber mexer num computador. Aprendi e vou levar meus conhecimentos para a Associação da Terceira Idade. Vou ensinar aos filhos e netos dos associados?, comentou animada. Para ela, o domínio da informática foi como uma grande conquista que ainda faltava na sua vida. A jovem Josenilda Amâncio se rendeu à causa e virou voluntária do projeto, dedicando dois dias da semana a ensinar informática a pessoas carentes. ?A gente sente um crescimento pessoal vendo que está contribuindo para o crescimento de outras pessoas?. Suély Martha de Lima sempre quis fazer um curso de informática, mas nunca teve dinheiro para pagar. Matriculou-se na EIC, aprendeu e, hoje, é educadora voluntária. A história se repete com Bruno Gustavo e Núbia, que atuam na EIC da Vila Brejal, e o que mais compensa, segundo eles, é saber que estão ajudando a oferecer a pessoas carentes uma importante ferramenta de trabalho, junto com lições de cidadania. ?Eles aprendem também a responsabilidade com a sua comunidade?, esclareceu ela. Esse é o sentimento que mantém o educador Sherme dos Santos Pereira, 20, portador de deficiência, ligado à EIC de sua comunidade, no Benedito Bentes. Ele foi para lá encaminhado pela Adefal e, hoje, enquanto se prepara para uma nova oportunidade de emprego, anuncia que nada o fará deixar de ser voluntário. ?Tenho que deixar um espaço para esse exercício de cidadania?, ensinou. O que mais o comove Sherme no contato com os educandos é a expressão de encantamento quando eles tocam na máquina pela primeira. ?É como se dissessem: eu também posso!?. Mas a frase que mais lhe agrada os ouvidos é quando ouve alguém dizer: ?professor, eu já estou trabalhando!?.