Cidades
CASOS DE MIOPIA EM CRIANÇAS AUMENTAM DURANTE A PANDEMIA
Segundo especialista, exposição a telas afetou gravemente a visão dos estudantes, principalmente os mais novos
O período prolongado da Pandemia de Covid-19 deixa sequelas maiores do que as diretamente associadas à ação do vírus. Com o maior tempo de exposições a telas, principalmente com o ensino remoto, o número de crianças com desenvolvimento de problemas na visão aumentou exponencialmente.
Segundo um artigo publicado em 2020 no American Journal of Ophthalmology, aproximadamente 1,37 bilhão de estudantes (80% dos estudantes mundiais) de 130 países foram afetados pelas medidas do lockdown.
Em Alagoas, a situação não é diferente.”A gente conseguiu perceber, este ano, um aumento exponencial, tanto das crianças que não usavam óculos, mas tinham uma pre disposição que acabou estimulando a miopia, como de crianças que já tinham e o grau galopou para índices mais altos”, aponta a oftalmologista Juliana Ferreira, que atende adultos e criança na capital.
É esse o caso do pequeno Rodrigo Rocha, de oito anos. Acostumado ao uso constante do celular, ainda aos sete foi diagnosticado com miopia e utiliza óculos de dois graus, um número alto em relação à idade.
“Percebemos a lentidão dele com as tarefas escolares. Ele tinha dificuldade de ler, e isso foi chamando a atenção. Agora, durante a pandemia, eu senti a dificuldade dele com a televisão, chegava muito próximo e começou a apertar os olhos. Ai a gente realmente viu que tinha algo errado e levamos no médico”, explica a mãe, Auriléia Santos.
Contudo, a oftalmologista salienta que os pais não devem esperar alguma queixa para levar as crianças ao médico. “Recomendamos aos pais uma visita ao menos anual no oftalmologista, principalmente até os sete anos de idade, enquanto a visão da criança ainda está em desenvolvimento”, salienta.
“Ele passava entre seis e sete horas, talvez até oito em alguma tela. Ele tinha aula online um horário, e todo o outro horário era jogando no celular. O oftalmologista apontou o uso excessivo. Eles colocam muito perto do rosto quando estão jogando e vão perdendo esse foco de longe”, conta Auriléia.
Já a oftalmologista explica que o ocorre na condição é um crescimento exagerado do olho e que o uso prolongado das telas força a visão, contribuindo para o desenvolvimento da doença. “Além do desenvolvimento ou aumento do grau, a criança também acaba ficando com o olho ressecado, ardência, ou até um quadro de cansaço ocular. A criança vem com uma queixa de dor de cabeça e o pai acha que vai usar óculos, mas não é grau. Com muito estimulo próximo, esse olho simplesmente não tem condições de descansar e isso fadiga a musculatura”, explica.
TRATAMENTO
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Juliana esclarece que a miopia, infelizmente, não regride. Contudo, há uma série de fatores que contribuem para o retardo do desenvolvimento do grau desses pacientes. “Nós acompanhamos a curvatura dessa córnea e o crescimento desse olho, e se tiver saindo de uma curva de normalidade a gente pode receitar o uso de um medicamento, um colírio, que ajuda a conter. Não é o tratamento indicado para qualquer paciente, só pra crianças com um aumento muito radical. É um tratamento prolongado, que a gente acompanha até os 18 anos”, explica. É ainda o caso do pequeno Rodrigo. A mãe conta que o menino já foi encaminhado para uso do medicamento. E que, além disso, a mudança de hábitos também é essencial. “O médico orientou apenas três horas de celular por dia, o restante é negociar com ele outras atividades. No caso dele, precisa manter no grau que ele já está, porque ele é muito novo”, afirma a mãe.
RECOMENDAÇÕES
A Sociedade Brasileira de Pediatria orienta limites de tempo de exposição, de acordo com cada faixa etária: Crianças menores de dois anos não devem ser expostas a nenhuma tela; entre dois a cinco anos, até uma hora por dia; de seis a dez anos, até duas horas por dia; e para adolescentes de 11 a 18, até três horas. Para qualquer faixa etária, o recomendado é se desligar de qualquer tela durante as refeições e se desconectar uma a duas horas antes de dormir. “A gente também recomenda aos pais que promovam sempre brincadeiras ao ar livre, nem que seja o mínimo de exposição ao sol, agora nesse período de pandemia”, ressalta a médica. “Essa criança precisa ter um tempo de pausa e a exposição solar tem um fator protetivo para a miopia, além de contato social, lembrando que os impactos do confinamento vão para além da visão, em todas as necessidades de desenvolvimento”.