Cidades
RISCO DE NEGRO SER ASSASSINADO EM AL É 42 VEZES MAIOR QUE O DE BRANCO
Atlas da Violência mostra ainda que todas as mulheres vítimas de homicídio no Estado em 2019 eram negras
A população negra tem 42,9 vezes mais chances de sofrer homicídio que a branca em Alagoas, é o que mostra o Atlas da Violência 2021, divulgado nessa terça-feira (31) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A discrepância aferida no estado é a maior do Brasil. Para se ter uma ideia, o segundo colocado nesse ranking é o Amapá, onde essa taxa é de 9 vezes. O valor aferido nacionalmente é de 2,6.
Os números do Atlas fazem referência ao ano de 2019. A taxa de homicídios de negros em Alagoas é de 42,2, a sétima maior do Brasil. Os pesquisadores destacam que “Ao analisarmos as proporções por raça/cor entre as vítimas de homicídios em 2019, podemos visualizar de forma mais evidente os níveis de desigualdade racial entre as UFs, especialmente porque em estados como Alagoas, o exemplo mais representativo, quase a totalidade das vítimas de violência letal são negras, mesmo com os negros constituindo uma proporção bem inferior a isso, 73,7% da população total”, destaca.
O Atlas aponta que 99% das vítimas de homicídio em Alagoas no ano de 2019 eram negras. Ao todo, foram 1.082 negros assassinados no estado em 2019. A taxa geral de homicídios em Alagoas no ano de 2019 foi de 5,1, a sexta maior do Brasil.
De acordo com a pesquisa, os negros representaram 77% das vítimas de assassinato no país em 2019. Essa prevalência é, historicamente, um dado frequente em estudos sobre a violência no Brasil, o que é preocupante na avaliação dos autores do estudo, porque persiste a cada nova edição do Atlas.
A diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e coordenadora do Atlas, Samira Bueno, diz que há dois “Brasis”. “Mais do que persistir, o fato é que o Atlas mostra que essa desigualdade racial se acentua ao longo da última década. Então, além de a gente ter, historicamente, negros mortos em função de homicídios, e essa taxa de mortalidade ser muito maior do que entre não negros, o fato é que a gente tem dois Brasil: o Brasil em que brancos, amarelos vivem e a taxa de homicídios é de 11 por grupo de 100 mil habitantes, e o Brasil em que negros habitam e a taxa é de 29 por 100 mil habitantes. Então, é essa distância brutal e isso vem se acentuando nos últimos anos.”
O estudo ressalta ainda a queda, em menor ritmo após uma década, da taxa de homicídios entre os negros quando comparada à da soma dos brancos e indígenas.
Entre 2009 e 2019, a taxa geral de homicídio do Brasil caiu 20,3%, já entre negros, a redução foi de 15,5%, enquanto o recuo entre não negros foi de 30,5%.
“Se considerarmos ainda os números absolutos do mesmo período, houve um aumento de 1,6% dos homicídios entre negros entre 2009 e 2019, passando de 33.929 vítimas para 34.446 no último ano, e entre não negros, por outro lado, houve redução de 33% no número absoluto de vítimas, passando de 15.249 mortos em 2009 para 10.217 em 2019”, diz o estudo.
“Isso é nosso legado, fruto de uma nação racista, escravocrata, e que relegou a população negra às piores condições de vida, aos piores absurdos do ponto de vista de discriminação, e que se refletem até hoje quando a gente fala dos indicadores de educação, quando a gente fala dos indicadores de mercado de trabalho e que talvez ainda mais visíveis quando a gente está falando dos índices de violência”, afirma Samira.
MULHERES
O Atlas mostra ainda que todas as mulheres vítimas de homicídio em Alagoas no ano de 2019 eram negras. Foram 89 vítimas ao todo. Alagoas é o único estado do Brasil com 100% de vítimas negras em relação aos homicídios femininos. Para se ter ideia da discrepância, o percentual nacional de homicídios de mulheres negras é de 23%. O estado com menor percentual é o Rio Grande do Sul, com 23% também. Quando considerada a taxa de homicídios de mulheres negras a cada 100 mil habitantes, Alagoas ocupa o quarto lugar nacional, com taxa 7. A liderança fica com o estado de Roraima, com 9,6. A taxa nacional é de 4,1. Os números do atlas mostram que, no geral, Alagoas é um estado ainda violento para mulheres. O estado possui a sexta maior taxa de homicídios por 100 mulheres. O valor aferido em Alagoas é de 5,1. A taxa nacional é de 3,5. O estado com o maior índice é Roraima, com 12,5 e o menor é São Paulo, com 1,7. Cenário nacional Em 2019, as mulheres negras representaram 66% do total de mulheres mortas no país, com uma taxa de mortalidade por 100 mil habitantes de 4,1, enquanto a taxa entre mulheres não negras foi de 2,5. “A desigualdade racial se perpetua nos indicadores sociais da violência ao longo do tempo e parece não dar sinais de melhora, mesmo quando os números mais gerais apresentam queda. Os números deste Atlas, mais uma vez, comprovam essa realidade”, diz o estudo.
Para o economista Daniel Cerqueira, diretor-presidente do Instituto Jones dos Santos Neves e um dos coordenadores do Atlas, esse dado “é uma herança maldita da nossa história colonial, que é a herança do racismo”. “Esse processo de racismo subsiste desde os tempos coloniais até hoje. Todo ano, quando a gente faz esse tipo de análise, a gente vê essa discrepância tão grande entre mortes de negros e não negros.”
Caso Nayane: laudo do IML não encontra sinais de violência, mas investigação continua
Gari de 31 anos é morto a tiros no Vergel do Lago, em Maceió
Acidente mata agente comunitária de saúde em Palmeira dos Índios
Soluções defensivas do CRB - 30/07/2026