Cidades
Depois da explos�o, fiquei totalmente perdida!
Depois do atentando terrorista de 11 de maio, na Espanha, como uma estrangeira se sentiu em meio à consternação nacional? Você participou de algum ato público? Fiquei totalmente perdida! Eu não sabia de nada, e saí de casa cedo. Ia trazendo comigo a mochila para ir a Madrid, quando encontrei uns amigos da universidade e eles me disseram o que tinha acontecido. Mas ninguém sabia exatamente o que era. Apenas tinham a notícia das explosões. Ainda assim, eu estava decidida a ir, quando liguei para o Luizinho e ele me disse que também que não tinha muitas informações, mas que estava em choque com tudo. Então fui tentar me informar sobre o que tinha se passado e resolvi ficar em Barcelona. Durante o dia todos estavam preocupados porque não sabiam se teria sido o ETA (o que, de alguma forma, protegeria Barcelona) ou outro grupo terrorista, que não nos livraria de nada. Nesse dia, muitas aulas foram canceladas e muito do comércio foi fechado. No dia seguinte teve uma paralisação e todos foram às ruas. A emoção foi muito grande, por todos os sentimentos que surgem em uma situação como essa... Medo, saudade, tristeza e, principalmente, alegria por estar bem.. É impossível conter as lágrimas!!! À noite teve outra manifestação com milhares de pessoas gritando pela paz. Foi muito forte. Acho que vocês devem ter acompanhado pelo noticiário. Como está o clima nas ruas de Barcelona? O impacto também foi grande no lugar onde você mora? Sim, o impacto foi grande porque a gente não sabia o que poderia acontecer, principalmente depois que foi divulgada a carta da Al-Quaeda. O que mudou na sua vida, depois do atentado? Você ficou com medo? A Espanha se tornou um lugar perigoso? Deu vontade de voltar no primeiro avião? Não mudou muita coisa, mas agora estou muito mais atenta... Uma arquiteta morando em Barcelona às vezes esquece do mundo... Não deu vontade de voltar... Risco existe sempre, em qualquer lugar que você vá. Você imaginava que poderia ocorrer uma coisa dessas? Nunca imaginei isso, mas é bom fazer parte da história... E estou participando de muita coisa importante aqui... O atentado, as eleições, o Fórum de Desenvolvimento... Isso tudo vai me dar uma bagagem muito maior do que eu esperava. Vou ter muita história para contar quando chegar! Entre os mortos e feridos no atentado estariam pessoas com mais de 20 nacionalidades diferentes, inclusive um brasileiro morto. O que você acha desse fato? Qualquer morte que aconteça com uma brutalidade como essa é muito triste, independente da nacionalidade. Triste é ver uma política de imigração como essa, com as pessoas tendo que morrer para que a situação de suas famílias seja legalizada. As eleições aí na Espanha culminaram com a vitória do PSOE de Zapatero, de virada. Será que o episódio da explosão dos trens foi a causa principal da derrota de Aznar (primeiro?ministro espanhol)? Como seus colegas espanhóis vêem tudo isso? Isso é outra coisa nova para mim: o envolvimento com política. Como todos com quem conversei, eu estava sem entender como o Aznar poderia continuar no poder. Não só pelo apoio dado à guerra do Iraque, mas por toda forma de governar, por toda dificuldade que está colocando aos novos países que estão entrando na União Européia, pela política de imigração etc. Realmente fiquei feliz com a vitória de Zapatero. No Brasil, sua família ficou preocupada? Como você deu o recado de que estava sã e salva? Onde você estava na hora das explosões? Relembra para gente esse exato momento? Conta para gente como foi que você escapou da tragédia, não chegando ao destino da estação. Você que decidiu não viajar? Teve algum estalo na alma? Uma premonição? Eu não sabia a dimensão do atentado até que meu namorado me ligou dizendo que no Brasil todos estavam falando nisso. Liguei para meus pais e a primeira pergunta foi: ?E aí, está gostando de Madrid??. Foi quando me dei conta de que eles ainda não sabiam e fui explicar tudo. Eles ficaram loucos!!! Eu escapei da tragédia porque eles escolheram a quinta-feira e não a sexta... Eu poderia estar na estação, porque iria chegar às 6h30 da manhã. Mas tenho uma proteção muito forte que sempre me acompanha. Ainda tenho muito o que fazer nesse mundo, tenho muito trabalho para desenvolver, muita coisa para conhecer, muito o que aprender. Conte para gente como você foi morar na Espanha. Soube que você está fazendo um curso de design em artesanato. Como foi a adaptação? Os espanhóis são tão receptivos como são os alagoanos? Quando você foi para a Espanha já existia algum temor de atentado? Vim fazer uma Pós-Graduação em Arquitetura, Arte e Artesanato. No início não foi fácil por causa do frio. Não pelas pessoas, que são ótimas. E como no curso os alunos são, em sua maioria, estrangeiros, todos estão abertos para fazer amizades e conhecer um pouco da cultura de cada país. Eles me pedem muito caipirinha e samba! Todas as meninas querem aprender a sambar! Quanto ao temor de atentado, se existia, eu não sei. Acho que se soubesse pensaria duas vezes antes de vir... E seu trabalho de design? O que você vai trazer para a gente de novas idéias, novos formatos, novas concepções? Como o artesanato brasileiro é visto por aí? Não me canso de buscar idéias novas, técnicas novas, materiais novos... Tô levando muita coisa boa para o Brasil, porque aqui tem muita coisa ruim também. Não é por ser Barcelona, por ser Europa, que tudo tem que ser o melhor. É preciso estar atento para isso! Os brasileiros estão desenvolvendo coisas maravilhosas. É uma pena que ainda não valorizamos tanto o que é nosso, nossa cultura, nossas raízes. Sempre acreditamos que o que vem de fora é melhor, e isso nos faz ter medo e nos faz sair ?de casa?. Mas é bom sair para ver que temos tudo nas mãos, só falta segurança para fazermos as coisas. Fiquei muito orgulhosa ao ver em uma loja as peças da Aninha Maia e da Rosa e ouvir da vendedora que são as peças mais procuradas. Isso nos dá a certeza de que, independente do lugar onde você trabalhe, se fizer o melhor, sempre vai ter espaço. E é isso que estou fazendo... Aperfeiçoando meu trabalho, crescendo profissionalmente para poder levar para Maceió sempre o melhor.