Cidades
TELESSAÚDE DEVE PERMANECER APÓS PANDEMIA, DIZEM MÉDICOS
Pacientes e profissionais de saúde afirmam que experiência de consultas online foi uma quebra de barreiras
Em meio a uma gravidez, em plena pandemia de Covid-19, a geneticista Larissa Sampaio se viu diante a um desafio: adaptar-se à realização de consultas online, coisa que a profissional criticava num primeiro momento. “Antes da pandemia, o atendimento online era aprovado apenas na modalidade médico para medico. Eu poderia fazer desde que ao lado do paciente tivesse um médico para poder fazer um exame físico”, explica. “Eu sabia que isso era realizado de certa forma, e confesso que tinha meus preconceitos. Realmente, eu achava que não era a forma adequada de se fazer o atendimento”.
Com medo dos riscos, a profissional superou a resistência e se surpreendeu com o processo.
A experiência de Larissa não destoa dos dados sobre a telesaúde no País. Após 18 meses de pandemia no Brasil, os números da Federação Nacional de Saúde Suplementar (Fenasaúde) contabilizam que, entre fevereiro de 2020 e janeiro de 2021, foram realizados 2,6 milhões de consultas a distância com médicos, psicólogos, fisioterapeutas, dentistas, entre outras especialidades. A prática está sendo chamada de telessaúde.
Ainda segundo os dados da Federação, com índice de satisfação dos usuários de 75% a 94% e alta resolutividade de casos, 40% do mercado dos usuários de planos e seguros de saúde e odontológicos, mais de 30 milhões de pessoas, já estão inseridos nessa realidade.
Para os alagoanos que puderam acessar o serviço, a experiência foi positiva. “Foi como se ele estivesse ido à minha casa. O diálogo foi o mesmo, a prestação do serviço dele pra mim foi a mesma que foi no consultório, não deixou de estar olho no olho”, conta Auriléia Santos, paciente que aproveitou a opção para uma consulta com seu ginecologista. “Pra mim foi até mais cômodo, mais confortável. Não me deixou a desejar em nada”.
Segundo ela, com o acesso aos resultados dos exames online, tudo que era necessário já estava ao alcance do médico. “Ele acessou de lá, e eu abri o exame daqui, enquanto ele lia”, contou. “Nada supera o presencial, mas, na minha experiencia, eu achei ótimo”.
Humberto Sarmento, psicólogo, afirma que a modalidade de atendimento deve permanecer entre os seus pacientes mesmo após a pandemia. Ele, que hoje atende pessoas de outros estados e até mesmo de fora do País, após aderir ao teleatendimento, destacou que os profissionais estão capacitados para atender por esse tipo de alternativa e que as recomendações para o bom andamento da consulta também passam pela atenção dos pacientes. “O Conselho de Psicologia nos deu direcionamento técnico para a nossa atuação e alguns formadores ofertaram capacitações para atendimentos online. Isso foi de suma importância para a compreensão ética e técnica do processo”, ressaltou. “É importante que se preserve a etica, que se usem fones de ouvido, que o paciente esteja em local reservado, para que sejam garantidos o sigilo de seus conteúdos. Antes de iniciarmos os atendimentos reforçamos que isso parte também do próprio cliente”.
Foi a dificuldade sentida pela geneticista, devido à necessidade de observações físicas no corpo dos pacientes. Tendo desenvolvido um protocolo de envio prévio de fotos e exames, a habilidade digital dos pacientes surgiu como barreira em alguns momentos. “Acho que em todo o tempo em que eu fiquei fazendo o atendimento exclusivamente online, de março de 2020 a julho desse ano, eu só não consegui de fato fazer talvez cinco consultas, que eu tive que marcar para outro dia, porque o paciente não conseguiu de jeito nenhum, ou a internet não tava funcionando. Atendia seis pacientes por turno no consultório e passei a pegar apenas quatro no online, para ter espaço para lidar com esse tipo de dificuldade”, destaca. Houve ainda casos que precisaram aguardar até o retorno do encontro presencial.
Mesmo assim, para quem resistia à prática, agora o momento mostra que a alternativa não deve mais deixar de ser considerada. “Não se poderá mais voltar atrás e proibir o atendimento 100% online entre médico e paciente. Tornou-se uma possibilidade, principalmente na minha área, que não tem especialistas em todo o Brasil. Há ainda pacientes que tem várias condições, são debilitados, ou moram no interior. O atendimento a distância ajuda em tudo isso”.