Cidades
REDES SOCIAIS ACENDEM ALERTA PARA CASOS DE SUICÍDIOS
Campanha Setembro Amarelo busca conscientizar a sociedade sobre a questão
No dia 3 de agosto, a internet parou para lamentar a morte de Lucas Santos, de 16 anos, filho da cantora Walkyria Santos, que tirou a própria vida após sofrer diversos ataques homofóbicos nas redes sociais, depois que postou um vídeo ao lado de um amigo.
A cantora Luísa Sonza revelou que desde que se tornou famosa têm sofrido ataques na web, mas que a situação ficou fora de controle após o término de seu casamento com o humorista Whindersson Nunes. A artista revelou que teve depressão, pânico e ansiedade por conta da situação.
Durante o mês de setembro, vê-se o compartilhamento em massa nas redes sociais de conteúdos a respeito do “Setembro Amarelo”, que visa conscientizar as pessoas sobre o suicídio. Parece uma piada de mau gosto, considerando-se que é nessas mesmas redes que milhares de pessoas são atacadas diariamente por pessoas que não se importam com a saúde mental dos outros, e veem no anonimato uma oportunidade perfeita para disseminar o ódio.
Engana-se, porém, quem pensa que apenas pessoas famosas estão sujeitas à ação de haters - como são chamados os que espalham ódio (hate, em inglês) na internet.
A estudante Bruna Patrícia contou à Gazeta que, desde que assumiu sua sexualidade, tem sido atacada por perfis fakes. “Desde que me entendi como uma pessoa LGBT e me “assumi” abertamente para as pessoas, recebo diversos tipos de ataques pela internet. Uma vez postei um vídeo no TikTok, de uma simples transformação, como corte e cor de cabelo, de uns anos atrás pra cá, e do quanto eu tinha deixado mais de lado aquela ‘feminilidade’, foi o suficiente para esse vídeo chegar a 100 mil pessoas e milhares de comentários de cunho homofóbicos, ou do quanto eu tinha ficado feia. Lembro como hoje de ter lido coisas como ‘Foi do céu ao inferno’. Além disso, também sofri ataques pelo Instagram, onde tinham perfis falsos, que me mandavam mensagem falando que a minha sexualidade era para aparecer, entre outras coisas absurdas”, desabafa.
Como forma de tentar driblar esses ataques, a jovem relata que privou seu perfil e passou a sentir medo de compartilhar coisas sobre ela. “Foi difícil passar por isso, pensei por várias vezes só sumir das redes sociais para não ver mais esse tipo de coisa, porém, privei meu Instagram, desativei os comentários do tal vídeo e também deixei de postar, agora tenho receio de tudo que virá a público. Também ativei uma nova opção do Instagram que oculta solicitações de mensagens que possam ser ofensivas”.
Será que os ataques aconteceram em setembro ou nos outros 11 meses do ano onde discutir saúde mental não gera engajamento? As campanhas de ódio se tornam gatilho para crises de saúde mental e podem levar até mesmo o suicídio - assunto pautado pelo Setembro Amarelo.
O fato é que o mau uso desse instrumento que deveria aproximar pacificamente as pessoas as está deixando doentes, como explica a psicóloga Laurianny Cavalcante.
“Quando pensamos sobre impactos podemos pensar no lado positivo ou negativo. Depende muito da forma ou finalidade em que tem sido usado. Além da finalidade tem frequência e de quanto a rede social tem impactado a minha vida”, diz ela.
Pesquisas sobre a influência da mídia na saúde mental revelam que os efeitos do consumo de Internet podem ser prejudiciais à estabilidade emocional e, nos casos mais extremos, gerar práticas danosas à integridade da vida. Nesse sentido, é necessário mais reflexão para que as pessoas possam desfrutar os benefícios da internet, sem colocar a vida em risco.
Segundo Laurianny, o uso em horários livres não é considerado um malefício. “Eu uso o Instagram em meus horários livres, ou seja, trabalho, estudo ou faço outra coisa e uso em horários específicos pra passar tempo. Isso vai me adoecer? Muito provavelmente não e se existir uma possibilidade é bem específico em como a pessoa está e ao gatilho que vai ser acionado ao que ela está consumindo ali no momento”.
PARE DE SE COMPARAR
O famoso “queria ser assim” também tem desencadeado uma série de problemas. A psicóloga diz que atualmente as pessoas estão consumindo que mexem em suas dores, o que é um erro. Por exemplo, quando alguém que está insatisfeito com seu corpo passa várias horas por dia pesquisando e se comparando com pessoas com um corpo considerando o desejável pela sociedade. “Vidas mentirosas que tem engatilhado vidas inadequadas”, resumiu a profissional. O psicólogo Arnaldo Santtos, que atua no Centro de Promoção de Saúde, Educação e Amor à Vida (Cavida), que presta atendimento à população carente, conta que, num primeiro momento, as redes sociais contribuem para que o sofrimento das pessoas se intensifique. “A ideia de que todo mundo esteja feliz, alegre e satisfeito é uma ilusão. Dependendo do grau de sofrimento da pessoa, a rede social pode contribuir mais ainda para o sofrimento dela”.