Cidades
COMOÇÃO E REVOLTA MARCAM SEPULTAMENTO DE PROFESSOR DA UFAL
José Acioli Filho foi encontrado morto dentro de casa e polícia prende suspeito; entidades falam em ‘crime de ódio’
O assassinato brutal do professor José Acioli da Silva Filho, de 59 anos, que lecionava na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), comoveu setores distintos da sociedade, que se uniram em busca de respostas e de justiça. O ex-diretor do Museu Théo Brandão foi encontrado morto na quinta-feira (16), na residência onde morava, no bairro Jaraguá, em Maceió. De acordo com o Instituto Médico Legal, Acioli foi espancado antes de ser assassinado. O suspeito do crime foi preso na noite de sexta-feira (17).
Uma testemunha, que terá a identidade preservada, revelou que esteve na residência do professor universitário na noite anterior ao crime e que o artista estava acompanhado de um rapaz, um suposto namorado, com quem Acioli estaria se relacionando há pouco tempo. Na internet, entidades culturais e ativistas se pronunciaram em busca de justiça e querem que a investigação considere, desde já, a possibilidade de o crime ter sido motivado por homofobia.
O Grupo Gay de Maceió (GGM) afirma que se trata de um crime de ódio e diz que buscará a elucidação. “Uma pessoa LGBT é assassinada a cada 24 horas, e com a pandemia da covid-19, a situação tem se agravado barbaramente e não podemos nos calar diante de tanta barbárie”, afirma o grupo representativo.
O Núcleo de Estudo e Pesquisa das Expressões Dramáticas (NEPED) da Ufal, da qual o pesquisador fazia parte, também prestou homenagem em suas redes sociais, em tom de indignação.
”Alguma coisa precisa ser feita, as pessoas serem protegidas, respeitadas em seus afetos, terem as suas dignidades asseguradas. O sentimento de revolta que nos domina é muito grande”, diz trecho da nota do núcleo.
Já a pesquisadora e realizadora audiovisual Bruna Teixeira também manifestou pesar nas redes sociais e destacou que mortes semelhantes se repetem. ”É preciso falar da solidão do homem gay idoso, é preciso falar da masculinidade jovem oportunista, é preciso aprofundar a homofobia para além do raso de dizer que é crime, é preciso proteger os corpos dos homens gays das mesmas mortes de sempre. Elas se repetem! Quando uma cidade perde um professor, um artista, um agente de mudança, por meio do ódio passional de um zé banal, perde um pedaço de tudo”, expôs.
PRISÃO
Uma das linhas de investigação para o caso é latrocínio, já que a vítima teve equipamentos domésticos e um veículo roubados. Entretanto, o delegado Ronilson Medeiros reforça que mais detalhes sobre o crime podem levar à descoberta de outra motivação. Na noite de sexta-feira, a polícia anunciou ter prendido o suspeito e recuperado o veículo do professor, um Renault Sandero, placa QLH 1147/AL Segundo a polícia, o crime está esclarecido, mas os detalhes só serão tornados públicos na segunda-feira. Os trabalhos de investigação foram conduzidos pelo delegado Ronilson Medeiros, coordenador da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa da Capital (DHPP).
ESPANCADO E ESTRANGULADO
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Acioli foi encontrado já sem vida, dentro de casa, no feriado de Emancipação Política de Alagoas, após amigos e familiares sentirem sua falta e perceberam a ausência de respostas às mensagens enviadas ao professor da Ufal. Segundo o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), acionado para a ocorrência, ele apresentava grande sangramento e dois orifícios de entrada na região da cabeça. Amigos e colegas de trabalho relataram que tentaram contato com o professor durante todo o dia, até que uma mensagem foi postada no WhatsApp, às 13h40, na tentativa de acalmar a busca dos amigos por respostas. A mensagem, no entanto, estava repleta de erros de português e não condizia com a maneira com que Acioli costumava se comunicar. Um amigo foi o primeiro a chegar ao local e mobilizou familiares e vizinhos, que avistaram Acioli desacordado no chão do quarto. Tanto a porta de entrada da residência quanto a do quarto do professor estavam trancadas e tiveram de ser arrombadas. O Instituto Médico Legal (IML) concluiu que o professor teve como causa da morte asfixia por meio mecânico. “A vítima apresentava lesões em partes do corpo, como a cabeça, que foram provocados por um instrumento cortante. Mas, a causa da morte foi estrangulamento por asfixia”, explicou o perito médico-legista Kleber Santana. “A vítima apresentava lesões em partes do corpo, como a cabeça, que foram provocadas por um instrumento cortante. Mas a causa da morte foi estrangulamento por asfixia”.
COMOÇÃO E REVOLTA
O corpo do professor Acioli foi sepultado na tarde de sexta-feira (17), no Cemitério Nossa Senhora da Piedade, no bairro Prado, na parte baixa de Maceió. Sob forte comoção e revolta, o velório foi acompanhado por amigos, familiares, intelectuais, além da comunidade acadêmica da Ufal. Membros do Candomblé, religião que Acioli frequentava, também realizaram homenagens e entoaram canções durante o funeral. A professora e ex-reitora da Universidade Federal de Alagoas, Valéria Correia, além do diretor da Escola Técnica de Artes (ETA/Ufal), David Farias, acompanharam a despedida. “Perde a Universidade, o teatro alagoano e a sociedade como um todo. Quando alguém é brutalmente arrancado do nosso convívio, quando lhe é retirado o direito de viver, todos perdemos”, disse David Farias, que evidenciou o profissional que Acioli foi. “Além de um grande artista, era um pesquisador raro, que metia a mão na massa. Mesmo com seu doutorado, além da pesquisa acadêmica, nunca deixou a cultura popular de lado. Promovia oficinas para projetos sociais e escolas públicas, confeccionava bonecos, fazia teatro de sombras, é uma grande perda”, finaliza o diretor. Amigos e alunos lançaram a campanha #JustiçaPorAcioli, que busca difundir detalhes do caso, a história de vida do educador e cobrar das autoridades rapidez nas investigações. “Pedimos celeridade. Foi um crime brutal de um colega nosso. É importante que o poder público seja ágil a dar respostas à sociedade”, diz o presidente da Associação dos Docentes da Universidade Federal de Alagoas, Jailton Silva.