Cidades
RECÉM-DUPLICADO PELO GOVERNO DO ESTADO, TRECHO DA AL-220 JÁ ESTÁ CHEIO DE BURACOS
Em vários pontos da pista entre Campo Alegre e Arapiraca, o asfalto está se esfarelando
As caras placas de vinílica que alardeiam a obra de duplicação da AL-220, entre Campo Alegre e Arapiraca, avaliada em R$ 67 milhões, nem desbotaram, mas o asfalto se esfarela em alguns trechos. Reflexo do material sem qualidade colocado no local pelo governo Renan Filho, que vem pagando uma fortuna a um grupo seleto de construtoras para executar suas obras.
O modelo adotado por Renan Filho (MDB) para a realização das grandes obras, entre elas a de privatização, acabou excluindo a maioria das empresas alagoanas. De acordo com matéria divulgada pelo jornalista Arnaldo Ferreira, mais de 100 delas deixaram de operar em obras estaduais. Apenas quatro acabaram sobrevivendo ao filtro e uma do Rio Grande do Sul.
“As quatro que regularmente venceram as licitações faturaram, efetivamente, R$ 1.412.728.919,38, apesar do empenho de R$ 1,9 bilhão. Entre as empresas do programa de rodovias estaduais destacam-se: L. Pereira e Cia Ltda., que recebeu R$ 571.400.017,33; FP Construções Ltda., com R$ 364.873.761,47; Amorim Barreto Construções Ltda., com R$ 266.727.570,28; e a Engemat - Engenharia de Materiais Ltda., que ganhou R$ 209.727.570,28 para executar obras rodoviárias”, revelou a reportagem
Os problemas com as estradas recém-concluídas foram denunciados na semana passada por parlamentares que flagraram a situação. Se por um lado o fato por si só já causa indignação, por representar dinheiro público gasto, por outro há o risco de surpreender motoristas que não tiveram tempo de “decorar” onde os buracos estão e correrem risco de acidentes ou danos aos veículos.
“Eu tento adivinhar para evitar prejudicar o carro”, relatou um motorista de van que faz o trecho Maceió-Arapiraca na rede social. Eles, juntamente com condutores de caminhões, micro-ônibus, motociclistas e proprietários de carros particulares, são as principais vítimas. Principalmente porque a maior parte do percurso oferece condições de desenvolver velocidade, mas, de repente, surge a falha asfáltica, a freada brusca e o catabil.
A região é muito usada para o escoamento da produção da agricultura familiar, mas principalmente da produção canavieira da região. Aliás, foi por isso e para evitar acidentes que os investimentos foram feitos. Sendo assim, não se justifica o argumento de que os buracos são provocados pelos caminhões pesados, pois essa já era uma realidade local. Logo, a empreiteira contratada deveria levar em conta esse aspecto e produzir um asfalto para atender a essa condição.
Outra falha que existe na região foi denunciada pelos próprios moradores em março deste ano. É que o projeto só levou em conta os veículos automotores e ignorou ciclistas e, principalmente, os pedestres. Ela foi concluída sem uma passarela para atender os moradores locais. Por causa disso, eles interditaram a via, queimaram pneus e pararam o trânsito, mas o problema ainda não foi resolvido.
Sobre o esfarelamento do asfalto, quem primeiro constatou o fato e denunciou nas redes sociais foi o deputado Davi Maia (DEM). Do seu jeito peculiar e responsabilizando o governador Renan Filho (MDB), o parlamentar cobrou em um vídeo solução para o problema. “Olha a qualidade do asfalto do governo de Alagoas. A estrada de Maceió a Arapiraca foi duplicada recentemente, mas está deteriorando. É feita de que essa estrada: de farinha é?”, indagou o parlamentar do Democratas.
Um dia após a divulgação do vídeo, a reportagem da Gazeta de Alagoas esteve no local e não só confirmou como encontrou outra dezena de buracos, bem como vários trechos com remendos feitos recententemente. Até mesmo nesses locais, por causa da qualidade do material, também há o esfarelamento.
Além de Maia, que faz oposição ao governo, até mesmo os integrantes da base governista Breno Albuquerque (PRTB), Ricardo Nezinho (MDB), Gilvan Barros Filho (PSD) e Jairzinho Lira (PRTB) também fizeram cobranças sobre reparos em rodovias. Na última quinta-feira, um pacote com 19 indicações para o DER foi aprovado em plenário com essa finalidade.
Na sexta-feira, enquanto as fotos eram produzidas no ponto onde havia buracos tanto na faixa da direita como na da esquerda, foi possível ver as diferentes reações dos condutores. Os que visualizavam o carro parado desconfiavam e reduziam a velocidade, já outros só notavam muito próximos e era difícil conter a frenagem mais brusca, fazendo o tradicional som da derrapagem. Outros não percebiam e passaram em alta velocidade, já que no local é possível desenvolver entre 60 e 80 km/h. No período noturno o risco é ainda maior.
Nos carros menores, a depender das condições mecânicas do veículo e dos pneus, a possibilidade de dano é real. Talvez por isso alguns poucos motoristas pela janela fizeram o sinal de situação negativa gesticulando com as mãos o polegar para baixo.
A Gazeta buscou informações com a Secretaria Estadual de Transporte e Desenvolvimento Urbano sobre se o valor dos reparos já faz parte do contrato de construção, ou representa um custo extra ao que já foi pago pelos quilômetros entregues. Não era com o órgão, mas sim com o Departamento de Estradas de Rodagem (DER). Em contato com a equipe, ainda pela manhã, via aplicativo de mensagens, a resposta não chegou até o fechamento desta edição no período noturno.
O detalhe que chamou a atenção é que a qualidade do asfalto do trecho novo é visivelmente inferior ao que está sendo coberto. Tanto que, em outro ponto, no local onde a duplicação não avançou após a Usina Porto Rico, nos limites antes da chegada a BR-101, é possível notar a faixa de pista interditada ainda inteira.
Logo em seguida, o que ocorre é um estreitamento, que avança pela BR-101 que passa ao lado da Usina Caeté. Por causa do intenso movimento, é considerado pelos motoristas a área de maior risco, em especial pelo volume de veículos com carga pesada que trafegam dia e noite. No período noturno, o perigo é ainda maior.