Abuso
REDE ATENDE MAIS DE 600 VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA SEXUAL EM ALAGOAS
Dados do IBGE apontam que 14,6% dos adolescentes já sofreram algum tipo de violação sexual
Dados da Rede de Assistência às Vítimas de Violência Sexual (RAVVS) em Alagoas mostram que no ano passado, 676 pessoas buscaram atendimento através de hospitais do estado. Já neste ano, os números alcançaram a marca de 618 indivíduos assistidos.
A coordenadora da Rede, Camille Vanderlei, explica que o trabalho de assistência tem como objetivo garantir toda a atenção à saúde, tanto na baixa quanto na média e alta complexidades. “Hoje nós temos, dentro da média e alta complexidade, as UPAs [Unidades de Pronto Atendimento], que são preparadas para receber vítimas de violência sexual e realizar a profilaxia (medidas preventivas)”, ressalta.
Camille conta que em Maceió, a Ala Lilás do Hospital da Mulher é referência no atendimento às crianças e adolescentes de até 14 anos e mulheres, independente da faixa etária. Somente no mês de agosto, o Hospital da Mulher acolheu 22 vítimas, sendo 17 do sexo feminino e 8 do sexo masculino – a maioria com idades de 0 a 11 anos.
O Hospital Geral do Estado(HGE) também é uma porta de apoio, atendendo casos de trauma em que a vítima apresenta quadros de sangramentos e que precisam ser estabilizadas, pois correm risco de vida.
Em Rio Largo, a unidade Ib Gatto Falcão tem atendimento 24h para vítimas de todas as idades. Em Arapiraca, o hospital Dr. Daniel Houly é a unidade de trauma que está preparada para receber os pacientes de violência sexual.
A Rede também busca qualificar os profissionais que trabalham no atendimento às vítimas, a fim de que seja prestado um serviço humanizado e de acolhimento. Além disso, caso não tenha sido feito uma profilaxia adequada e acabe ficando grávida devido ao estupro, é realizado aborto previsto em lei, tendo um acompanhamento psicológico, ginecológico e social por no mínimo 6 meses.
UMA HISTÓRIA REAL
Dezembro de 2008. E.M., então com 7 anos, acompanhava a mãe em seu trabalho, no que seria um dia comum na vida da criança. Com sono, ela deitou no sofá para descansar enquanto a mãe continuava a faxina “Quando menos esperei, senti dedadas em minhas genitais, achei que estivesse sonhando, mas acordei e quando abri os olhos vi o patrão da minha mãe, que se levantou correndo, entrou no carro e saiu. Fiquei bem dolorida na região e passei a ter medo de qualquer homem que não conhecesse. Infelizmente, na época e, infelizmente, na época, não consegui contar à minha mãe”, lembra. Esse seria o primeiro caso sofrido por E.M.. Naquele mesmo ano, ela seria violentada pela ex-cunhada de sua mãe, que aproveitou a ausência do marido para praticar o ato. “Na hora de dormir deitei com ela na cama, só que quando eu já estava dormindo, ela começou a me tocar igual o primeiro episódio”, relembra. A estudante conta ainda que foi ameaçada de morte pela abusadora, caso denunciasse o fato. “Nunca mais fui a mesma criança de antes, minha cabeça ficou confusa”, confessa E.M., que desenvolveu traumas irreversíveis, como ansiedade, medo e marcas sensíveis pelo corpo. Relatos como esses não são raros. Uma em cada cinco meninas de 13 a 17 anos já sofreu algum tipo de violação sexual. Cerca de 14,6% de adolescentes nesta mesma faixa etária, já foram tocadas, manipuladas, beijadas ou tiveram partes de seus corpos de alguma maneira exposta contra a sua vontade. Os dados são da última Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE) realizada em 2019 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados abordam um panorama de 11,8 milhões de estudantes de 13 a 17 anos, das redes pública e privada de educação, e trazem índices preocupantes de abuso sexual. Entre aqueles que já sofreram violação 29,1% apontaram o(a) namorado(a) como o agressor; 24,8% o amigo(a); 20,7%, um desconhecido; 16,4%, outros familiares; 14,8%, outras pessoas; e 6,3%, pai, mãe ou responsável. O estudo informa ainda que 8,8% de meninas e 3,7% dos meninos entrevistados relataram terem sofrido estupro, sendo que em 68,2% dos casos, o aluno tinha 13 anos ou menos. De acordo com a pesquisa, para esse tipo de agressão, o(a) namorado(a) (26,1%) e outra pessoa da família (22,3%) foram os principais autores apontados. Mas desconhecido (19,2%), amigo (17,7%), outra pessoa (14,7%) e pai, mãe ou responsável (10,1%) tiveram percentuais também relevantes.
NOTIFICAR É PRECISO
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Iniciado em 2018, o projeto “Abuso sexual: notificar é preciso” já notificou mais de 500 casos de abuso sexual somente em Maceió. Pensada pelo promotor de Justiça Lucas Sachsida, a iniciativa é uma forma de combater ativamente a violência sexual e proporcionar ajuda às vítimas que sofreram abusos.
De acordo com o promotor, as notificações são feitas através dos órgãos de primeiro contato, hospitais e escolas. Assim que o Ministério Público é notificado, medidas cabíveis são tomadas, tanto para acolher a vítima, quanto para buscar o culpado e abrir inquérito. * Sob supervisão da editoria de Cidades.