Cidades
JOVEM DENUNCIA QUE SOFREU RACISMO EM SHOPPING POR 4 MESES
Advogado diz que vai entrar com ação cível e trabalhista contra estabelecimentos e investigado
“E aí, amigo macaco?”. Essas eram as palavras dirigidas por um ex-professor a um comerciário negro que trabalhava em uma loja de esportes no Parque Shopping, localizado no bairro de Cruz das Almas, em Maceió, segundo depoimento prestado pela vítima ontem à Polícia Civil. À Gazeta, o shopping enviou nota, repudiando qualquer forma de discriminação e disse que está à disposição das autoridades policiais.
Luís Felipe Ferreira Mesquita contou que vinha sofrendo ataques racistas havia quatro meses, teria pedido apoio à loja onde trabalhava e ao shopping, mas não teria recebido acolhimento. O jovem disse à polícia que os ataques começaram em agosto, quando ele iniciou o trabalho como vendedor. Ele afirma que as ofensas costumavam ser proferidas no momento em que ele se dirigia ao banheiro do shopping, já que a loja onde trabalhava não possuía o compartimento.
Ele conta que, inicialmente, notou a presença do ex-professor perto do banheiro, onde fazia gestos de tesoura, faca e imitava um macaco. Entretanto, num primeiro momento, ele afirma que não achava que os gestos estavam sendo direcionados a ele, por não conhecer o homem. Mesquita conta que na terceira semana do trabalho, ele se dirigiu à chefia da Centauro, a loja onde trabalhava, para informar o que ocorria.
Em depoimento à polícia, ele afirmou que em vez de tomar uma providência para que a importunação cessasse, a supervisora da loja teria pedido que ele não fizesse nada e ficasse observando a movimentação do homem.
Ainda durante o depoimento, Luís Felipe chegou a dizer que o Parque Shopping já sabia quem era o suspeito da agressão, devido a outras situações semelhantes direcionadas a pessoas negras e homoafetivas. E que, devido a isso, outras pessoas já teriam notificado o shopping sobre a conduta do agora investigado. Ainda durante o depoimento, a vítima afirmou que o ex-professor chegou a ser proibido de ingressar em outro estabelecimento comercial localizado dentro do shopping pelos mesmos motivos.
DESAMPARO E MEDO
“A vítima se viu desamparada e com medo de sair em seus momentos de intervalo ou necessidades de ir ao banheiro. Ao ponto de que pedia a uma amiga para verificar se o acusado estava lá ou não. Caso estivesse, a “vitima” não iria por medo de sofrer injúrias raciais e perseguição”, diz um trecho do termo de declarações ao 6º Distrito Policial, em Cruz das Almas.
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Mesquita declarou que o investigado, sabendo da loja onde ele trabalhava, passou a tomar café em local próximo, continuando a fazer as mesmas gesticulações de cunho racista. No mês de agosto, segundo depoimento, o homem chegou a ir diretamente à vítima, chamando-a de “amigo macaco” e “neguinho” e que havia pessoas no momento que presenciaram a situação.
De acordo com seu depoimento à polícia, Mesquita afirmou que não denunciou naquele mês o ocorrido porque se viu “incapacitado”, pois não sabia como proceder, já que a situação ocorria em seu ambiente de trabalho. Dentre outras declarações da vítima à polícia, está a de que ele chegou a perguntar ao homem porque ele agia dessa forma, momento em que o investigado disse que era “coisa da cabeça da vítima” e que ele era “o amigo neguinho da Centauro”. Uma das agressões mais recente teria ocorrido em 16 de novembro de 2021.
De acordo com a vítima, ela estava na loja onde trabalhava, quando o homem entrou, tocou no cabelo dela, puxou para se aproximar da vítima e falou: “Se eu tivesse fósforo, eu tacaria fogo em você”. Essa situação teria sido presenciada por seus colegas de trabalho. Nesta ocasião a vítima decidiu buscar a polícia para denunciar a situação, mas foi informada pela polícia que uma equipe policial só poderia ir, caso houvesse um flagrante.
O advogado Roberto Moura, que está na defesa de Mesquita, afirmou à Gazeta que irá entrar com uma ação cível e trabalhista contra o Parque Shopping, a loja Centauro e o ex-professor. A Gazeta entrou em contato com o Parque Shopping para saber o posicionamento do estabelecimento quanto ao assunto.
Em nota, o shopping informou que repudia qualquer forma de discriminação e que está à disposição das autoridades competentes. “O Parque Shopping Maceió repudia qualquer forma de discriminação e se solidariza com Luis Felipe, funcionário de uma das lojas do empreendimento. O shopping esclarece que acolheu Luis Felipe no Serviço de Atendimento ao Consumidor, registrando as ocorrências. A administração do shopping reforça que está à disposição das autoridades competentes para colaborar com as investigações”.