Cidades
ESPECIALISTAS ALERTAM SOBRE IMPACTOS DA PANDEMIA NAS CRIANÇAS
Isolamento estreitou convívio familiar, mas falta de interação social e teleaulas afetam desenvolvimento
Pouco antes da trágica morte, em 5 de novembro, a cantora Marília Mendonça disse, em entrevista, que se sentia culpada por voltar aos palcos porque a quarentena, apesar das dificuldades, dera a oportunidade de o filho conhecê-la, fenômeno reconhecido por analistas psicossociais. Bebês que nasceram em 2020 tiveram uma experiência negada à maioria das crianças, a presença dos pais nos primeiros meses de vida. No entanto, a falta de interação social impacta o desenvolvimento, principalmente entre as crianças maiores.
“As pessoas não têm tempo de cuidar, de acompanhar todo o desenvolvimento da criança. A mãe tem um período de licença e imediatamente tem que voltar. No caso específico, a mãe e o pai [e irmãos, os que tinham] ficaram o tempo todo com a criança, tiveram esse momento para convívio, para essa formação. Contraditoriamente, isso foi positivo porque os pais ‘foram obrigados’ a cuidar dos filhos”, analisa o cientista social Jorge Vieira.
Por outro lado, pondera o pesquisador, essas crianças foram privadas do convívio com os avós e outros integrantes do grupo familiar e social. “Isso tem consequências negativas porque a criança deixou de ter relacionamento com o grupo social. Essa criança foi limitada a muitas outras interações sociais que teria”, ressalta Vieira.
A psicóloga Jaqueline Pino, especialista em terapia cognitivo comportamental, concorda que houve mais aproximação das famílias, porém lembra que estas estiveram reunidas sob tensões.
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“Entendendo o contexto socioeconômico como um fator que aumentou o nível de estresse de milhares de brasileiros, o desemprego, que possivelmente trouxe mudanças de padrões e maior estresse desses cuidadores, isso refletiu nos cuidados e interações familiares”, observa.
Embora ressaltem que os impactos da pandemia ainda estão sendo mensurados, os especialistas ouvidos dizem não ter dúvida de que o isolamento social trouxe consequências negativas ao desenvolvimento e ao aprendizado das crianças e adolescentes, especialmente sobre estes últimos, que foram privados do contato pessoal com grupos sociais com os quais conviviam antes da pandemia.
“Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos demonstrou que as crianças analisadas apresentaram QI abaixo das crianças analisadas há uma década, o que sugere mudanças de padrões nesse período. Portanto, interações limitadas,junto ao estresse dos pais contribuem para um declínio das habilidades sociais e provavelmente para o surgimento de transtornos de ordem emocional”, destaca Jaqueline Pino.
Questionados sobre as consequências no processo educacional, que foi adaptado às teleaulas, os profissionais são ainda mais enfáticos sobre as consequências de quase dois anos letivos à distância.
“Com certeza haverá consequências profundas. A educação se dá em um conjunto de interações, convivências, brincadeiras, jogos, enfim, tudo o que compõe um processo formativo do qual as crianças e os adolescentes foram privados”, alerta Jorge Vieira.
BUSCA POR TERAPIA
A psicóloga Jaqueline Pino explica que os impactos da pandemia sobre as crianças maiores e adolescentes já são observáveis. “Quanto aos pré-adolescentes e adolescentes houve aumento significativo pela procura da assistência à saúde mental como efeito da mudança de rotina, principalmente da falta da rotina. A escola é fundamental para o processo de sociabilização. A pandemia trouxe mudanças comportamentais decisivas para o adoecimento, como a depressão e os transtornos de ansiedade, mudanças de padrões de sono, alimentar e também o aumento da dependência tecnológica”.
Além da própria limitação imposta pela privação das interações, como lembram os dois especialistas, as crianças e adolescentes mais pobres foram afetadas pela falta de acesso à própria tecnologia para assistir às aulas.
“Muitas crianças não tinham acesso a computador, a aparelho celular, condições de ambientes de estudo, a família toda dentro de casa. O aprendizado ficou totalmente prejudicado, então isso vai ter consequências dramáticas para a criança e o processo de formação como um todo”, alerta Jorge Vieira. Ele destaca as dificuldades já visíveis em processos seletivos como o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que teve os menores índices de participação nos últimos dois anos.
Embora reconheçam flagrantes consequências da pandemia sobre o desenvolvimento psicossocial e cognitivo, os especialistas ouvidos pela Gazeta apontam caminhos para reparação dos danos observados.
Para Jaqueline Pino, é necessário que os pais e responsáveis pela formação das crianças e adolescentes escutem e valorizem o que elas dizem. “Quando a criança desenvolve transtornos de ansiedade, é fundamental o reconhecimento das emoções e acima de tudo, a validação do que essa criança fala e como se comporta. Trabalhar os medos e o respeito, mostrar outras possibilidades de pensamentos que ajudam a passar por esse momento, e se não conseguir ajudar como familiar e cuidador, buscar ajuda psicológica”, orienta.
Para Jorge Vieira, a reparação virá por meio de mudanças de condutas pessoais e macroestruturais.
“Nós estamos num momento de purificação, de percebermos nossas limitações. Temos que compreender nesse processo que nós destruímos o meio ambiente, desrespeitamos o outro, temos o ódio que foi construído na sociedade, então temos que recompor essas relações sociais em outro parâmetro de respeito ao outro, de convivência com o diferente, do aprendizado. Reaprender a conviver respeitando o outro”, pondera o cientista social.