Cidades
Crimes da paix�o terminam em trag�dia
FÁTIMA ALMEIDA A notícia do assassinato do estudante de Direito Márcio Edsandro Correia (23), no domingo passado, na Jatiúca, abalou a estrutura emocional da doméstica E. G. (38). Ela não conhecia a vítima nem o assassino confesso, Gerson Lopes de Albuquerque Júnior (23), ex-marido da namorada de Márcio, mas o motivo do crime ? o ciúme de um homem e o inconformismo com o fim da relação ? foi o mesmo que quase a matou no início do ano. Por não aceitar voltar para o ex-companheiro, de quem tinha se separado por causa do ciúme doentio, E.G. foi alvo de cinco tiros desferidos por ele no meio da rua, em frente à casa onde morava, no interior de Alagoas. As feridas físicas e psicológicas ainda não cicatrizaram e magoam facilmente cada vez que se fala no assunto ou acontece algo que lembre o trágico episódio de sua vida. ?Eu queria esquecer, mas não posso. As marcas estão na minha mente e no meu corpo, nas cicatrizes das balas e das cirurgias que tive de me submeter?, diz ela. Para a retirada dos projéteis, E. G. teve que se passar por uma cirurgia que lhe abriu o tórax e o abdome de cima a baixo. A exemplo de Gerson, que chegou a ser preso mas foi libertado em seguida, o ex-companheiro de E. G. também foi preso em flagrante, mas depois de um mês voltou a gozar de plena liberdade, que usa inclusive para continuar fazendo ameaças à sua vítima. ?Ele liga para o meu telefone, faz ameaças, diz que vai completar o serviço?, diz E. G. Durante a entrevista, ela foi acompanhada o tempo todo pela psicóloga Ana Amália Torres e pela coordenadora do Centro de Apoio às Vítimas de Crime (CAV/Crime) de Maceió, Juliana Pedrosa. A história de E. G. começou igual a muitas outras histórias de amor. Ela conheceu o companheiro no bar de sua mãe, onde trabalhava, e se apaixonaram. ?Ele era gentil, carinhoso, tinha o comportamento de um cavalheiro?, diz ela. Depois de três meses estavam morando juntos. Parecia um conto de fadas, até que o ?príncipe? começou a demonstrar o seu lado vilão. ?O ciúme começou a ficar doentio; o paraíso começou a se transformar num inferno. Depois de seis meses eu não podia mais conversar nem sorrir para as pessoas. Até ir na casa da minha mãe ficou complicado. Começou a implicar com as minhas roupas, tudo era motivo para ciúme e briga, mas ele nunca fazia ameaças. Até um dia em que puxou uma faca para mim. Aí eu percebi que a relação não tinha mais razão de continuar e resolvi deixá-lo?, relata a vítima. Isso aconteceu em janeiro deste ano, mas o inferno de E. G. não parou por aí. No dia 05 de março, depois de muitas tentativas de trazê-la de volta, o ex-companheiro procurou-a pessoalmente para perguntar se ela iria voltar. Já estava preparado. Ao ouvir o ?não?, só fez puxar o gatilho e atirar para matar. Foram cinco tiros. Ela passou mais de 40 dias internada em um hospital, entre a vida e a morte. Venceu a vida, mas a decepção foi inevitável. O criminoso já estava em liberdade. Hoje os sentimentos de E. G. são de medo, impotência e revolta. Desde a tentativa de homicídio ela não anda mais desacompanhada. Pretende deixar o Estado, mas antes quer ver o responsável na cadeia, pagando pelo seu crime. É a isso que ela tem se dedicado ultimamente, enquanto se recupera e tenta reconstruir sua vida. E em todas as suas decisões tem contado com o apoio do CAV, não só do ponto de vista psicológico, mas também jurídico e social. ?Quero contribuir para que este não seja mais um crime impune contra a mulher?, destaca.