Cidades
MPAL notifica artistas e direção do Teatro Deodoro por blackface em espetáculos
Notificação atendeu ao pedido de investigação protocolado pelo Instituto Negro de Alagoas (Ineg-AL)
Maylson Honorato
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18/12/2021 às 4h00
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O Ministério Público do Estado de Alagoas (MPAL) notificou artistas e gestores da Diretoria de Teatros do Estado de Alagoas (Diteal-AL), órgão do governo do Estado que gerencia o Teatro Deodoro, após o Instituto Negro de Alagoas (Ineg/AL) apontar a realização de espetáculos com personagens negras caricaturadas. A prática, conhecida como "blackface", é criticada em diversas partes do mundo por inferiorizar a pessoa negra.
De acordo com o Ineg, os espetáculos “Celebrar”, da Jeane Rocha Academia de Dança, e “Encontro com Humor de Natal”, da drag queen Paty Maionese, contaram com personagens conhecidos pela alcunha racista “nega maluca”. No caso do humorístico, trata-se da personagem “Nega da Praça”, já no espetáculo de dança, a figura recebeu o nome de “Catirina”.
“Ambas personagens, se caracterizam pela apresentação caricaturada dos traços fenotípicos da população negra, expondo a mesma ao ridículo e ao vexatório”, explanou o Ineg em postagem nas redes sociais. “Mais conhecida como blackface, a prática consiste não apenas na abordagem estereotipada dos traços físicos da população negra, mas também a ela é atribuído comportamentos tidos como engraçados, provocadores de riso e galhofa na platéia”, complementa o instituto, no pedido de investigação apresentado ao MP.
Além dos artistas dos espetáculos mencionados, o MP notificou Sheila Diab Maluf e Alexandre Holanda, gestores do Teatro Deodoro, para que se manifestem acerca das apresentações consideradas racistas. O prazo para que se posicionem é de 15 dias, contados a partir do dia 13 de dezembro. Quem assina as notificações é o promotor Antônio Jorge Sodré Valentim de Souza, da 61ª Promotoria de Justiça da Capital.
Jeferson Santos, coordenador presidente do Instituto do Negro de Alagoas, afirma que a ação do Ineg visa coibir qualquer tipo de manifestação que atente contra a dignidade da pessoa negra em Alagoas.
"A prática de blackface é um ato claro de racismo, na medida em que aborda de forma estereotipada as características físicas da população negra. A consequência disso é a reprodução da ideia do negro como um indivíduo biológica e culturalmente inferior ao branco. Uma espécie de cidadão de segunda classe.", explica o coordenador, que detalha as consequências do ato para a população negra.
"O que temos por consequência é a destruição da autoestima da população negra ou, se quiser, sua construção negativa. Dito de outro modo, o negro, enquanto invenção do branco em nossa sociedade, se constitui num ser negativamente criado. Tal situação impede que o negro olhe pra si mesmo de forma positiva e, consequentemente, possa se levantar contra esse estado de coisas", finaliza Jeferson.
OUTRO LADO
Intérprete da drag queen Paty Maionese, o ator Robson Barros diz que ainda não foi notificado oficialmente. Ele é o produtor e diretor do espetáculo “Encontro com Humor” e afirma que convidou um artista para participar do espetáculo com o intuito de ajudar o intérprete neste momento de dificuldade para a classe artística.
“Eu respeito todas as lutas e jamais irei desconstruir a história de ninguém. Esse artista já faz o personagem há 18 anos e convidei para participar do espetáculo, para ajudar”, explica.
Robson ressalta que não criou o personagem e que está tranquilo em relação à notificação do Ministério Público de Alagoas.
“Eu não inventei o personagem para o espetáculo. É uma peça que recebe convidados. Ele já existia e eu queria apenas ajudar o Joselino, que é quem interpreta a personagem. Estou aguardando o pronunciamento oficial”, finaliza o artista.
O Teatro Deodoro informou que já respondeu à notificação do MP de Alagoas e se colocou à disposição do órgão e do Instituto Negro de Alagoas para que um Termo de Ajustamento de Conduta seja formalizado, encontrando uma solução “a fim de garantir o respeito à dignidade da pessoa negra e a liberdade de manifestação artística”.
Na resposta da instituição, a Diteal afirma que o órgão “não pode controlar o exercício da atividade artística desenvolvida nos seus equipamentos culturais, sob pena de estar ferindo instrumento legal relevante e incorrer em prática de censura”.
A Jeane Rocha Academia de Dança emitiu uma nota de retratação e diz compreender que a comunidade negra e outras minorias estão cansadas de ter que ensinar sobre opressões. Além disso, a nota também diz que a situação não será repetida pela academia de dança.
Confira a nota da Jeane Rocha Academia de Dança:
A Jeane Rocha Academia de Dança vem a público se retratar acerca do fato ocorrido no espetáculo de ballet “celebrar”, onde, em dado momento, utilizou-se da personagem “Catirina”, incorrendo na prática de “blackface”.
Sabemos que a comunidade negra, dentre outras minorias, por tanto sofrer com o racismo estrutural e direto, está cansada de ter que ensinar, mas é inegável que, como seres humanos, continuamos passíveis de erros e estamos em constante aprendizado.
Oportuno dizer que não tivemos qualquer intenção de desmerecer ou diminuir quem quer que seja, uma vez que, nos mais de 15 anos de existência, nossa Academia sempre prezou pela inclusão e diversidade.
Nesse sentido, externamos, em nome de toda a equipe, nosso pedido público de desculpas, e informamos a toda a sociedade que isso jamais tornará a acontecer.
Estamos à disposição de toda a sociedade, bem como das autoridades, no sentido de reparar, mesmo que minimamente, esta situação.