Cidades
CORONOFOBIA FAZ COM QUE PESSOAS EXAGEREM CUIDADOS CONTRA COVID
Comportamento precisa ser observado para que ajuda psicológica possa ser buscada o mais rápido possível
Juliana Dionísio ficou afastada dos amigos e dos familiares, teve a jornada de trabalho intensificada e uma ansiedade crescente com a pandemia do novo coronavírus. Uma realidade que transformou não só a vida dela, mas a de muitas pessoas. A coronofobia é um problema real, que tem se refletido nos consultórios de psicologia, com o aumento da demanda. De acordo com a psicóloga Camille Wanderley, uma das principais queixas está relacionada aos conflitos parentais decorrente de um convívio mais próximo, reflexo do isolamento social. Há também muitos casos de dificuldade de estabelecimento de habilidades sociais.
“Há um crescimento dos sentimentos negativos nas pessoas, como medo, angústia, desesperança e desvalia, aumentando a incidência de transtornos mentais, uso de substâncias psicoativas e ideação suicida”, pontua a profissional, destacando que, como seres sociais, as pessoas precisam de interação para sobreviver, o que foi quebrado com o isolamento social.
“Com o isolamento social, nossas rotinas foram transformadas abruptamente, paralelo a isso, fomos invadidos por muitos medos, como incertezas em relação ao futuro, à morte, às questões financeiras e à contaminação pelo vírus. A forma de se relacionar com as pessoas mudou e o afeto através do contato físico foi restrito. Essas e outras questões impactaram no modelo comportamental que cada pessoa possui. Nunca passamos por uma situação dessas e, por isso, não tínhamos repertório comportamental e emocional para reagir a esse cenário”, diz Camille.
De fato, ninguém duvida que a pandemia mexeu, de forma significativa, com a saúde mental das pessoas. Muitas delas conseguiram superar as angústias e os medos provocados por um longo momento de incertezas, mas algumas pessoas continuam mergulhando em um “mundo à parte” com medo do contágio e do surgimento de uma nova onda de contaminação.
Há relatos de pessoas que desenvolveram, por exemplo, a depressão, após ficarem muito tempo em casa, sozinhas. Há ainda, quem adota cuidados excessivos com medo do contágio até hoje [quando os números estão em queda, resultado da vacinação], como usar várias máscaras de uma só vez, passar álcool em gel repetidas vezes até as mãos ressecarem, não sair de casa em hipótese alguma, limpar superfícies com álcool inúmeras vezes, entre outros costumes.
Nesses momentos, é importante ficar atento e buscar ajuda. Algo mais sério, e silencioso, pode estar acontecendo.
“A pandemia trouxe algo considerável para a população, que foi a importância do cuidado da saúde mental, minimizando o preconceito ao falarmos de cuidarmos da mesma. Não podemos negligenciar nossa saúde mental, tampouco manter preconceitos de que o adoecimento mental é coisa de ‘doido’ ou de pessoa ‘fraca’, que é frescura. Todos precisam cuidar da saúde mental, independentemente de classe social, raça e orientação sexual”, diz.
Juliana Dionísio não foi contaminada pelo vírus, mas perdeu um amigo para a doença. Com a mãe idosa morando na mesma casa que ela, a professora, que reside em Arapiraca, destaca que continua evitando atividades de lazer, reuniões e refeições em locais fechados até hoje.
Ela afirma que já pensou em buscar atendimento psicológico para ajudar a encarar os medos, mas que o próprio isolamento tem dificultado isso. “Eu já pensei em buscar apoio, mas o atendimento on-line não é viável por conta da falta de privacidade e o isolamento só tem dificultado isso”, conta.
Especialistas enfatizam a importância de as pessoas perceberem que não poderão proteger, sozinhas, o mundo inteiro do vírus e que cada um deve fazer a sua parte. Outra ajuda relevante para diminuir a ansiedade provocada pela pandemia pode vir de atividades que mexam com o corpo. Fazer exercícios físicos, de qualquer tipo, é sempre uma boa pedida. Por fim, adotar hábitos saudáveis de alimentação também pode ajudar a colocar a saúde mental nos eixos.
“É necessário reconhecermos as limitações que os medos estão causando nos vários campos da nossa vida. Esse reconhecimento muitas vezes ocorre através de amigos e familiares, que verbalizam a mudança de comportamento”, pontua Camille.
Pesquisa
Uma pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde no ano passado revelou que cerca de 29,33% dos brasileiros procuraram ajuda de psicólogos e 34,2% não buscaram auxílio, porém gostariam de obter apoio psicológico para lidar com a ansiedade e o estresse durante a pandemia.