Cidades
NÚMERO DE GESTANTES QUE DESCOBREM HIV NO PRÉ-NATAL AUMENTA
Infectologista diz que número de jovens com menos de 30 anos com diagnóstico positivo de HIV também tem crescido nos últimos anos
Os dados do Ministério da Saúde mostram como a Aids ainda é motivo de preocupação: houve aumento de 8,5% do número de pessoas com HIV em Alagoas quando se compara 2020 e 2021, respectivamente 571 e 620 registros. Cresce também a busca por ajuda quando a doença já está em estágio avançado, assim como a demanda de gestantes que são surpreendidas durante o pré-natal com a descoberta do vírus.
Em entrevista à Gazeta, Mardjane Alves de Lemos Nunes, médica infectologista do Hospital Hélvio Auto, do PAM Salgadinho e integrante da Sociedade Alagoana e Brasileira de Infectologia, fala sobre o que tem chamado mais sua atenção no atendimento de casos de pacientes com HIV.
“Com a ampla disponibilidade de testes rápidos ofertados em todas as unidades básicas de saúde e nos centros de testagem, chama atenção a quantidade de pacientes com diagnóstico tardio, ou seja, que já chegam ao infectologista com imunidade baixa. Outro ponto é a idade dos casos novos, muitos jovens com menos de 30 anos diagnosticados”, responde.
De acordo com a médica, com o número crescente dos casos de HIV/Aids em jovens, vem aumentando também o diagnóstico em gestantes, que em sua maioria, se descobrem com o vírus durante a rotina de exames do pré-natal, mas também há casos diagnosticados na maternidade, no momento do parto, o que diminui as chances de proteção do bebê.
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“Quanto mais precoce for o diagnóstico do HIV na gestação, menor o risco de transmissão da mãe para o filho. As mulheres que vivem com HIV, ou seja, que já sabem da sua condição sorológica, podem engravidar e parir com segurança, com baixíssimo risco de transmissão para seus filhos, pois conseguimos aplicar todo o protocolo de prevenção da transmissão vertical (mãe/bebê) de forma precoce”, detalha Mardjane Alves.
CRIANÇAS INFECTADAS
O Unicef (Fundo de Emergência Internacional das Nações Unidas para a Infância) apresentou que em 2020, no mundo, ao menos 300 mil crianças foram infectadas pelo HIV ou uma criança a cada dois minutos. Também que outras 120 mil morreram de causas relacionadas à Aids no mesmo período ou uma criança a cada cinco minutos.
A situação foi agravada durante a pandemia de Covid-19. A médica infectologista Mardjane Alves explica que o protocolo no atendimento de gestantes com HIV consiste principalmente no uso de medicações antirretrovirais pela mãe, parto seguro, uso de medicações no bebê nos primeiros dias de vida, e uso de fórmulas lácteas fornecidas gratuitamente, em substituição a amamentação.
“Desde que a mulher chegue ao final da gravidez com carga viral indetectável, é possível inclusive ter um parto normal, com segurança. Um ponto importante que vale a pena ser destacado, é o risco de transmissão vertical (da mãe para o bebê) durante a amamentação. O período de lactação merece total atenção, e a mãe deve ser orientada a usar preservativo em todas as relações sexuais, enquanto durar este vínculo direto entre a mãe e o bebê”, detalha.
Mardjane reforça que além do uso de preservativos, a rotina de testagem da mãe e seu parceiro deve ser mantida, com objetivo de diagnosticar precocemente, caso haja infecção materna. “Não podemos esquecer também das parcerias sexuais da mãe. Estas devem se incluídas na rotina de pré-natal, com testagem regular e orientação quanto ao uso de preservativo em todas as relações sexuais. Reconhecer e acolher a diversidade das famílias e de relacionamentos afetivos é fundamental, para que possamos ofertar orientações adequadas e efetivas”, reforça.
A reportagem pergunta à médica se atualmente os pacientes com HIV têm conseguido tratamento adequado. Ela lembra que a disponibilidade de antirretrovirais com excelente eficácia é um ponto forte e inquestionável no programa brasileiro de assistência às pessoas vivendo com HIV/AIDS, mas obstáculos que os usuários enfrentam para acessar os serviços especializados podem ser decisivos ao sucesso do tratamento.
“A problemática socioeconômica é sem dúvida uma barreira a ser superada. Garantir acesso a transporte é o mínimo. Mas como esperar que alguém que não tem acesso a alimentos, por exemplo, se sinta motivado a tomar remédio todos os dias, se a maior urgência que ele vive é a fome? Com isto destaco que tratamento adequado não é só remédio adequado. Uma epidemia que já ultrapassa quatro décadas nos ensina todos os dias que o HIV não é apenas um problema de saúde, e seu enfrentamento, portanto, exige muito mais que remédios e médicos especializados. Saúde, educação e bem-estar social mínimo (alimento, transporte, moradia) são indissociáveis no enfrentamento de uma epidemia tão complexa”, finaliza.
AIDS
De acordo com o Sistema de Informação de Agravos de Notificação do Ministério da Saúde (Sinan/MS), dados encaminhados pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), os números relativos à Aids mostram que de janeiro a outubro de 2021 foram confirmados 199 casos da doença e, em todo ano de 2020 foram 351. Uma queda de 43,3%, lembrando que os números de 2020 referem-se a todo o ano. Em Maceió, de 2010 a 2020 foram notificados 4.897 casos de HIV/Aids. A reportagem solicitou o número de mortos em Alagoas, mas a Sesau informou que os dados não estão disponíveis devido ao ataque hacker na última semana, que deixou o sistema do Ministério da Saúde fora do ar. O último divulgado apontava entre 2019 e 2020, mais de 1,4 mil óbitos no estado.