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Desabrigados buscam m�veis nos escombros

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Uma multidão de desabrigados tomou conta, ontem pela manhã, do canal de Chã da Jaqueira que divide em duas as favelas Monte Alegre e Santa Helena. Eles recolhiam dos escombros e da lama o que podiam: fogões, botijões de gás de cozinha, camas inteiras ou despedaçadas e outros móveis. Muitos não tinham mais nada. O desempregado Ananias de Matos, de 60 anos, olhava para a parte traseira da casa dele, na Grota Monte Alegre: encravada no barro molhado, prestes a ser engolida pela barreira e com rachaduras profundas nas paredes. ?Não sei para onde vou?, balbuciava. Cícera Rodrigues de Matos, outra moradora da grota, tinha reformado a casa recentemente. Azulejos nas paredes, chão de cimento batido e pintado de vermelho contrastava com a bagunça do local: os móveis foram retirados para evitar que fossem engolidos pelo barro. ?Moro aqui com dez pessoas, entre filhos e netos. Vou ter de sair de casa. Vou apelar para os outros, não tenho para onde ir?, diz ela. Na madrugada de ontem, as paredes racharam e fizeram um barulho tão alto que assustou os moradores. ?De madrugada, isso tudo afundou?, aponta o marido de Cícera, para as rachaduras. A mesma sina foi reservada aos moradores da Rua São José, paralela à grota onde ocorreu a tragédia envolvendo sete pessoas. No desespero, o jovem Marcos André da Silva sentencia: ?Vou voltar com meus móveis para cá?. Na casa rachada, prestes a desabar, Marcos diz não temer a morte e se tiver de morrer, não vai hesitar, mas não quer perder a casa onde vive com a mulher. ?Não tenho emprego. Não tenho para onde ir?, avisa. Nem a Igreja Católica escapou da ameaça da barreira da Chã da Jaqueira. Ela também está condenada. Contudo, é na igreja que está parte dos desabrigados, que chegam a todo o instante. Da janela do templo, atrás da mesa que simboliza a partilha do pão, a esperança é de que a barreira não avance. Mas as rachaduras nas paredes denunciam o perigo iminente. Da janela da igreja é possível assistir ao trabalho de resgate do corpo do pequeno Daniel dos Santos e o cenário de destruição: casas varridas em minutos, postes ameaçando cair sobre as casas e a marcha dos miseráveis, sem ter para onde ir. (OR)

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