Cidades
JÚRI INOCENTA HOMEM QUE FICOU 5 ANOS PRESO POR ESQUARTEJAMENTO
Envolvido em trama de assassinato cruel, taxista foi acusado, mas conseguiu comprovar inocência no curso do processo e foi absolvido
Um crime bárbaro, ocorrido em Arapiraca em 2016, levou Eduardo Fernandes dos Santos, hoje com 36 anos, a cumprir 5 anos e 5 meses de reclusão no Presídio do Agreste. Ele foi acusado de esquartejamento de um homem, crime gravado e disseminado pelas redes sociais. Mas Eduardo não cometeu crime algum, conforme reconheceu o júri popular realizado no dia 1º de fevereiro deste ano, que o absolveu, antecipando a revogação imediata da prisão preventiva pela Justiça.
Emocionado, Eduardo contou a própria história à Gazeta de Alagoas.
À época do crime, Eduardo Fernandes trabalhava como taxista. Em 12 de outubro de 2016, ele recebeu a ligação de uma mulher, solicitando uma corrida para o período noturno. “Ela ligou para mim horas antes, dizendo que precisava dos meus serviços e uma e pouca da manhã ligou novamente, pedindo para eu ir buscá-la no bairro Bom Sucesso [Arapiraca]”, conta.
A mulher entrou no carro com uma adolescente e informou uma localidade onde apanhou mais dois homens. Neste momento, ele disse ter visto que a mulher tinha uma arma de fogo e uma faca na bolsa . Segundo Fernandes, o grupo de dois homens e duas mulheres ordenou que ele seguisse até o bairro Caititu, ainda em Arapiraca.
“Eu estava muito nervoso, então ela pediu para eu ficar caladinho. Parei numa casa antiga, desceram os dois, com a doze, pegaram a vítima e as duas mulheres ficaram dentro do carro. O cara [a vítima] estava despido e foi colocado na mala do meu carro”. Em seguida, o motorista seguiu até um povoado chamado Alecrim, em Girau do Ponciano. No local ermo, eles retiraram a vítima - Geraldo dos Santos - da mala do carro e começaram a agredi-lo.
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“Ele [a vítima] disse: ‘A senhora vai me matar, mas eu não fiz nada não’. Foi uma barbaridade, elas se divertiam ao fazer aquele ato. Em momento algum pensei que ia escapar daquilo, pensei que seria o próximo”, conta.
As investigações policiais afirmaram que Geraldo dos Santos foi assassinado e esquartejado, tendo a cabeça sido retirada, assim como alguns órgãos, porque os criminosos diziam que Geraldo tinha matado duas crianças. A Polícia Civil concluiu que Geraldo não tinha cometido crime e o caso do qual ele foi acusado pelos assassinos nem ocorreu em Alagoas.
Fernandes diz que só sobreviveu porque ninguém do grupo criminoso sabia dirigir. Além disso, exaustos e cansados, eles ficaram impossibilitados de voltar a Arapiraca a pé, devido à distância. Quando o grupo chegou a Arapiraca, conta Fernandes, a mulher o ameaçou.
“Pensei logo em mim, nas minhas filhas e no meu pessoal. Depois que eles saíram do carro, fui para casa desesperado. Minha esposa percebeu. E eu sem querer dizer para não colocar a vida dela em risco. Se eu fosse à delegacia, será que eles iriam me proteger? Foi uma dúvida que passou pela minha cabeça. Se fizeram aquilo com aquela vítima, o que não fariam contra a minha vida?”.
O vídeo do assassinato, gravado pelos próprios criminosos, disparou em aplicativos de mensagens. Uma das mulheres foi reconhecida na imagem. Em uma semana, a Polícia Civil chegou aos autores do crime: Thayse Nascimento Duarte, Romário dos Santos Silva, Ubirajara da Silva Santos e uma adolescente. Além deles, o depoimento de Thayse levou a Eduardo Fernandes dos Santos.
ALÉM DA PRISÃO, TRAGÉDIA FAMILIAR
Após a prisão de Thayse e Romário, Eduardo Fernandes foi preso. Ubirajara fugiu e e permanece foragido. Eduardo ficou 5 anos preso.
“As
pessoas acreditavam que eu tinha participação do crime. Mas quando
entrei no pavilhão e conversei com um e com outro, consegui provar
minha inocência e me manter firme e forte lá dentro. Até que
aconteceram algumas fatalidades em minha vida”, conta.
Em outubro de 2021, ele recebeu a notícia da morte da filha de 12 anos, em consequência de um choque elétrico. “Me chamaram no presídio, me levaram à enfermaria, senti um negócio estranho. A enfermeira pediu que me dessem um remédio, o supervisor disse: você tem que ser forte”.
A Justiça o liberou para o sepultamento. ”Fiquei desesperado, Deus tinha levado ela”, relata.“Não tenho ódio e nem raiva de ninguém, mas tenho mágoa porque perdi o tempo com minha filha”, diz.
O júri popular dos acusados ocorreu no dia 1º de fevereiro na comarca de Girau do Ponciano. Os réus Thayse, Romário e Ubirajara foram condenados por homicídio qualificado, por motivo torpe e com uso de recursos que impossibilitaram a defesa da vítima. Os três ainda foram condenados por corrupção de menores e Thayse por porte ilegal de arma de fogo e tráfico de drogas. Respectivamente, eles pegaram 29 anos e 10 meses de reclusão, 20 anos e 31 anos de prisão sem direito a recorrer em liberdade.
A Justiça considerou que os réus ultrapassaram os limites da norma penal, tendo em vista que a situação ainda foi filmada, “demonstrando despudor em sua conduta”.
Eduardo foi inocentado pelo Tribunal do Júri de todas as acusações. Perguntado se acreditava, ele responde: “Eu acreditava, porque a Justiça de Deus tarda, mas não falha. Acreditava em Deus e em meus advogados”, expõe.
O advogado, Joáis Barros comenta que, ao analisar o processo, e escutar mais de uma vez a versão de Eduardo, acreditou “100%” nele.
“Ao ouvir a narrativa dele, eu me dispus a aceitar o caso. Ao analisar o processo, observei a injustiça que estava ali presente, pois em momento algum, na fase judicial, alguém acusou o Eduardo de ter participado do crime. Na segunda-feira, antes do júri, tive uma nova conversa com ele e pude confirmar tudo o que tinha analisado no processo e acreditei 100% no que ele estava falando”, relata o advogado criminalista.
Ao término do júri, Eduardo chorou e ganhou um abraço da filha mais nova. ”Tenho que ter força para cuidar da minha filha. Agora pretendo erguer minha cabeça, trabalhar, voltar dignamente e que a justiça limpe meu nome, que foi sujo diante dessa barbaridade que aconteceu”, diz.
Barros também afirma que os réus Thayse e Romário negaram, na fase processual e também diante do júri, a participação de Eduardo no crime. O advogado de defesa disse ainda que o nome de Eduardo só apareceu no inquérito policial porque ao depor, Thayse informou que ele conduzira o veículo.
Para Barros, devido à repercussão do caso, o desafio da defesa era que Eduardo já entraria no júri como condenado. “Sabíamos que ele entraria praticamente condenado e teríamos um grande trabalho para demonstrar que ele não teve participação no crime, o que prontamente ficou demonstrado que o Eduardo foi uma das vítimas do crime e não o autor desse fato”, relata e acrescenta:
Agora a defesa de Eduardo, junto com a família, analisa a interposição de ação indenizatória contra o Estado