Cidades
As �ltimas florestas intactas de Alagoas
RODRIGO CAVALCANTE A maioria dos cortadores de cana que trabalha nos municípios de Ibateguara e São José da Laje não sabe por que tanta gente ?de fora? aparece por lá para visitar uma faixa de terra ?cercada de mato? no meio dos canaviais. Mas não são apenas eles que ignoram a importância da região. ?Pouca gente no Brasil sabe que nessa área se encontra um dos fragmentos de mata atlântica com um dos maiores índices de biodiversidade de todo o País?, diz Marcelo Tabarelli, diretor do Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (Cepan), órgão vinculado à Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e que, desde 2001, firmou uma parceria com a Usina Serra Grande, proprietária da área, para pesquisar e garantir a preservação dos remanescentes da floresta na região. ?Esse fragmento de floresta em Alagoas é um verdadeiro tesouro biológico que permaneceu praticamente intacto durante séculos?. A história é bem conhecida: quando os colonizadores portugueses trouxeram a cana-de-açúcar para o Brasil ainda no século XVI, a imponente mata atlântica praticamente sumiu do mapa do Nordeste. Em todo o Brasil, estima-se que originalmente a mata atlântica ocupava cerca de 1,1 milhão de quilômetros quadrados. Hoje, as estatísticas apontam que a sua área não chega a 5% desse total. Em Alagoas, segundo a estimativa da Fundação SOS Mata Atlântica, a floresta ocupava praticamente a metade do Estado, do Litoral até a Zona da Mata ? dos quais restariam apenas 2%. ?Nos fragmentos de floresta localizados entre os município de Ibateguara e São José da Laje é possível ter uma idéia de como era a vegetação dessa região do Nordeste antes da chegada dos primeiros europeus?, diz Tabarelli. ?É uma verdadeira viagem no tempo?. National Geographic O fragmento de mata atlântica mais preservado da Usina Serra Grande é chamado floresta de Coimbra. Além de contar com um posto fixo de estudo dos pesquisadores da Cepam, a área de 3. 500 hectares de floresta já recebeu a visita de pesquisadores de instituições como a Conservation International (conservação internacional), a BirdLife (ONG que luta pela preservação dos pássaros), uma universidade alemã e, mais recentemente, chegou a ser tema de uma reportagem especial sobre a mata atlântica na revista National Geographic, que enviou de Washington para lá o fotógrafo e pesquisador Mark W. Moffett. Não é à-toa que a região atrai o interesse de tantas organizações. Em apenas um ano de trabalho, um inventário realizado pela Cepan identificou no local 224 espécies de aves, 275 espécies de plantas e 30 espécies de anfíbios. (Numa única jornada de 15 horas, um pesquisador da Universidade Estadual de Campinas encontrou mais de cem espécies de borboletas). Segundo os estudiosos, isso significa que, na prática, as florestas pertencentes à Usina Serra Grande abrigam cerca de 50% de todas as espécies de aves e 20% de plantas que ocorrem na floresta atlântica ao norte do Rio São Francisco. Os pesquisadores não têm dúvidas de que espécies ainda desconhecidas pela ciência serão encontradas em Serra Grande e que suas florestas abrigam mais de 7.000 espécies de plantas e vertebrados.