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VOLUME DE RESÍDUOS HOSPITALARES AUMENTOU 40% EM AL NA PANDEMIA

Tratamento especializado do descarte de leitos Covid contribuiu para reduzir infecção, diz infectologista

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Imagem ilustrativa da imagem VOLUME DE RESÍDUOS HOSPITALARES AUMENTOU 40% EM AL NA PANDEMIA
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O sistema montado para enfrentamento da Covid-19 conta com um verdadeiro “exército de anônimos”, quase sempre invisíveis em todas as frentes de atendimento, desde as centrais de triagem de síndromes gripais, aos hospitais que atenderam apenas casos graves de infecção por coronavírus, nos momentos de pico da pandemia. Além dos cuidados especializados com os pacientes, coube aos serviços de saúde a contratação de serviço especializado para recolher e tratar os resíduos hospitalares contaminados, cujo volume cresceu 40% no auge da doença em Alagoas. Especialista ouvido pela Gazeta, o infectologista Marcelo Constant, diz que o descarte adequado dos resíduos reduziu a infecção.

Enquanto a chamada “linha de frente” contou com uma infinidade de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, técnicos em enfermagem e psicólogos, nos bastidores, atuaram trabalhadores da higienização, lavanderia, hotelaria e, principalmente, coletores especializados para retirar o lixo oriundo dos pacientes infectados. O trabalho contou com pessoal qualificado para conter a contaminação por meio do material descartado.

A coleta e o tratamento de resíduos sempre foram parte relevante da rotina do ambiente hospitalar que a Covid-19 fez intensificar e exigir atenção ainda maior. O trabalho começa com a separação do material e a retirada imediata dos ambientes com acondicionamento adequado. Na prática, consiste em três tipos de isolamento: a separação dos pequenos insumos, normalmente feita em caixas e recipientes próprios, em especial o material perfurocortante, associado aos medicamentos; pequenos objetos plásticos; máscaras, toucas, em alguns casos, pró-pés, aventais e luvas.

Tudo isso seria foco permanente de contaminação se não fosse cuidadosamente isolado. Os resíduos são gerados a cada plantão, tanto o que é usado pelos profissionais, quanto o que é retirado dos pacientes, em especial durante o banho. Depois tudo segue para uma embalagem plástica própria, branca, identificada como “resíduo altamente contaminado”. Por fim, são colocados em recipientes maiores, as chamadas bombonas, com capacidade para 25kg cada, que, por sua vez, são vedadas até a coleta feita no mesmo dia para evitar acúmulo.

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COLETA E TRANSPORTE

A coleta é outra parte fundamental do processo feita por outro exército de colaboradores. Por conta do potencial contaminante, o material hospitalar não pode ser transportado em veículos compactadores urbanos comuns. E nem pode ser descartado no meio ambiente sem tratamento. Deste modo, segue em caminhões-baú fechados. Por isso, só pode ser feito por empresa especializada que siga padrões internacionais para o descarte adequado.

A reportagem localizou, em Maceió, a Serquip, que há 16 anos realiza esse procedimento em hospitais particulares e unidades públicas. Durante a pandemia, o ritmo de trabalho tornou-se mais intenso, mas seguindo os mesmos critérios determinados pelo Ministério da Saúde.

“De acordo com o próprio Ministério da Saúde, os Resíduos de Serviço de Saúde provenientes dos leitos de pacientes com Covid devem seguir o mesmo procedimento de tratamento dos demais resíduos da mesma categoria, ou seja, não houve procedimento além do que já fazemos rigorosamente desde sempre. Reforçamos apenas os treinamentos com nossos colaboradores quanto à adequada higienização”, explicou Bruno Dórea, gerente administrativo.

O treinamento garantiu um resultado importante – não houve nenhum afastamento por conta do trabalho com o material do coronavírus. Bruno lembra que, mesmo com os riscos associados à atividade e ao período, muitas categorias procuraram se preservar, antecipando doses de vacina. Porém, os coletores de resíduos não entraram nos grupos prioritários. Precisou haver uma pressão da entidade que representa o setor para que pudessem garantir a imunização.

REDUZIDO A CINZAS

Enquanto isso, a rotina, além da coleta, segue o padrão previamente determinado e executado com a destinação do material do coletado. Após a retirada nas diversas unidades, o lixo hospitalar segue para a sede da empresa, no Distrito Industrial. Lá é retirado das bombonas usadas no armazenamento e transportado para incineração a alta temperatura, reduzido a cinzas. “Depois do tratamento térmico, posteriormente, o material é enviado para Aterro Sanitário devidamente licenciado, onde é coletado em recipientes de alta densidade e resistência e transportado em caminhões baús”, completa o especialista.

Conforme pesquisou a reportagem, essa cinza, considerada o resíduo final, além de menor volume, não oferece risco de contaminação porque o efeito ou potencialidade dos vírus não resiste à alta temperatura. Por isso, o descarte é permitido, mais ainda assim, por precaução, em ambiente devidamente destinado para isso e com padrões de qualidade. Mesmo durante o processo de queima, os gases que são dissipados se dispersam sem oferecer riscos de contaminação.

REGULAMENTAÇÃO PRÓPRIA

Procurada para falar sobre esse processo, a Sudes confirmou que a coleta hospitalar tem regulamentação própria sem depender do Código de Limpeza Urbana, já que o próprio padrão de funcionamento das unidades de saúde, de qualquer porte, já depende da existência de um projeto de coleta de resíduos por empresa especializada.

“Resíduo hospitalar é responsabilidade da clínica, hospital e deve ser dado o destino correto por empresas privadas contratadas para o recolhimento, que provavelmente deve ser a incineração. Mas isso aí já está em outro código, que deve ser da área da saúde”, explicou a Sudes.

A Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) informou que segue os padrões ambientais exigidos nas unidades de saúde da rede estadual e mantém contrato com a própria Serquip para a destinação adequada. “A Sesau evita a poluição do meio ambiente e contribui para a sua proteção, conforme determina a legislação brasileira, que rege a política de resíduos sólidos, conforme prevê a resolução 358/2005 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), órgão consultivo e deliberativo do Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama), instituído pela Lei 6.938/81, que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, regulamentada pelo Decreto 99.274/90”, explicou a Secretaria.

ESPECIALISTA RECONHECE EVOLUÇÃO DO TRATAMENTO E DESTINAÇÃO DE DESCARTES

O aumento do volume de resíduo hospitalar também criou uma dinâmica própria de trabalho dentro das unidades. No auge da doença, a produção aumentou de 33 para 60 bombonas por dia na Santa Casa de Maceió, que também passou a ser referência no atendimento de Covid-19.

Segundo Romualdo Barbosa da Silva, que tem 25 anos de empresa e há 9 é responsável pela hotelaria do hospital, a estratégia de trabalho contou com frentes para a higienização dos espaços – áreas comuns e quartos –, coleta do material usado e lavagem de lençóis e roupas.


“Foi o maior desafio da nossa atividade até agora. Garantimos o processo de higienização e limpeza com uma dedicação ainda maior porque todos foram acionados para garantir esse monitoramento diário. Se o paciente vai para exame, o elevador é limpo e quando volta, fazemos o mesmo processo. Todos os quartos, corredores, tudo é higienizado com um produto especial, o quaternário de amônia”, explica Romualdo.


Quanto ao resíduo, ele conta que os cuidados foram redobrados, já que o material resultante dos leitos Covid tem todo um protocolo para o descarte. Tudo devidamente identificado e junto com a empresa especializada, não há acúmulo. A parceria garante o funcionamento da operação.

A arrumação dos quartos, com “roupa de cama” limpa, bem como a vestimenta de pacientes e profissionais, passa por um processo próprio com lavagem à base de peróxido de hidrogênio.

“As equipes atuando com 12h x 36h criaram uma dinâmica de atendimento às demandas que não permite acumular serviço. [No período de maior demanda], deslocamos pessoal de outras alas, já que o foco era o atendimento de Covid. Sofremos também com afastamentos, mas quando uns voltavam, outros saíam e demos conta. Todo mundo ficou mais vigilante para o recolhimento do material descartável diariamente, tanto nas UTIs como nas enfermarias”, detalhou Romualdo.


Segundo ele, a responsabilidade e o envolvimento das equipes mudaram a percepção sobre a importância do trabalho. “Notamos essa mudança, o que foi muito importante. Sinto-se orgulhoso em falar isso, porque o trabalho foi ainda mais reconhecido. Os colegas perceberam isso também, o que é bom para todos. Eles perceberam o quanto nosso trabalho é uma espécie de complemento do processo de tratamento. Ajudamos a evitar que houvesse contaminação. Tratamos nosso resíduo e a rouparia, que pode ser reutilizada com total responsabilidade e com padrões sanitários rigorosos”, conta Romualdo.

Reconhecimento


Com a experiência de mais de quase 40 anos de atendimento, o médico infectologista Marcelo Constant referenda a qualidade dos profissionais da área e sua contribuição ao enfrentamento da Covid-19.

"Sem nenhuma dúvida, o que foi feito, no auge, e ainda é feito, tem seu valor. Em outras momentos do passado, se soubéssemos cuidar dos resíduos como sabemos hoje, evitaríamos a letalidade, por exemplo, do cólera. Mas naquele tempo não se tinha tanto conhecimento", explicou Constant.

Em sua avaliação, o número de mortes poderia ter sido ainda maior caso o planejamento e a execução do tratamento dos resíduos não fosse qualificado.

Até o ambiente interno dos quartos, mantido pelo setor de hotelaria, tem a função clara de garantir conforto com segurança sanitária. Por isso, o médico destaca que o atendimento destas pessoas aos pacientes, nos momentos da troca de material, também contribui para a recuperação.

"Se não fossem essas pessoas e a qualidade do que fazem, os efeitos no indivíduo teriam repercussão negativa. A atenção e o cuidado que se dá ao paciente muda sua condição", completa o infectologista.

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