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Crian�as pobres de Macei� improvisam para brincar

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FÁTIMA ALMEIDA Brincadeira de roda, queimado, pega-pega, esconde-esconde... Parecem arquivos fechados na memória de algum adulto. Apenas parecem! Essas brincadeiras fazem parte do dia-a-dia de muitas crianças que moram na periferia, longe da influência do mundo virtual, das poucas iniciativas públicas de diversão e lazer e sem dinheiro para freqüentar alternativas como os parques de diversão, cinema e teatro. É assim que a criançada se diverte, superando a falta de opção para preencher os momentos de folga, sobretudo no período de férias escolares. Para os primos Caio e Nathália, de cinco anos, os montes de barro colocados há meses na Praça Padre Cícero, no bairro do Benedito Bentes, à espera de obras, são o próprio parque de diversão. Lá eles gastam parte da inesgotável energia infantil, subindo e descendo sem parar, escorregam na areia, correm no desafio do pega-pega, passam por debaixo dos pneus e parecem felizes com a liberdade que o espaço oferece. Por horas a fio, eles se divertem como se não tivesse nada melhor. Parecem não fazer conta dos brinquedos pagos do parque de diversão instalado a poucos metros, do outro lado da praça. Os brinquedos do parque, no entanto, chamam a atenção de Jéssica Apolinário, 12, residente no mesmo bairro. Se a mãe tiver algum trocado, vai pedir para ir à noite, andar de roda-gigante ou na barca. Se não der, não tem problema. Ela gosta de juntar a turma da rua para brincar de esconde-esconde, queimado ou rouba-bandeira. Enquanto vive a realidade de menina pobre, Jéssica sonha com outras aventuras. ?Se tivesse dinheiro iria passear muito. Iria ao cinema, ao teatro, ao parque de águas e naqueles circos grandes, com animais que fazem palhaçada?. Também iria mais ao Shopping, ?andar naquelas escadas que a gente bota o pé e ela sobe sozinha?. Esportes Eraldo Freitas, 13, gosta de ?esportes radicais?. Nisso ele inclui a velha bicicleta, bem defasada em relação ao seu tamanho, mas obediente as suas manobras radicais. Na praça, perto de onde mora, no Graciliano Ramos, ele divide o espaço com a turma da chimbra, (bola de gude), que disputa palmo a palmo a vitória de cada partida. Eraldo e os colegas também fazem parte de uma unanimidade que gosta de futebol. ?Que pena que só tem um campo para todo mundo. Às vezes, a gente quer brincar e não pode!?, lamentou ele. Caio, Nathália, Jéssica e Eraldo ilustram um quadro de diversões que, embora pareçam coisas do passado dos pais de muitas crianças, sobrevivem nas grotas; nos bairros periféricos; nas pequenas cidades do interior, onde a falta de dinheiro é preenchida com criatividade. Na vida dessa criançada, às margens dos apelos capitalistas, o carrinho de brinquedo, às vezes, é feito de lata, com as rodinhas recortadas na borracha da velha sandália havaiana e o ?controle remoto? é um cordão que permite puxar o brinquedo para onde o dono quiser. Embalagens de cigarro viram notas de um dinheiro fictício para compras no mercadinho da imaginação. A mesma imaginação que transforma o cabo de vassoura num cavalo de corridas. As partidas de futebol constituem uma das poucas unanimidades entre crianças ricas, que habitam a área nobre, e as pobres, que vivem na periferia. A diferença é que nas classes de melhor poder aquisitivo as quadras e campos são fartos e bem estruturados nos condomínios, espaços privados e nos ginásios esportivos das escolas.

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