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Presos albergados formam comunidade livre

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EDNELSON FEITOSA Longe da superlotação dos presídios, da violência nas celas e corredores, uma comunidade formada de presos em regime aberto - os abergados - é um exemplo raro de convivência pacífica e produtiva, de homens que já cometeram crimes e hoje tentam mudar sua vida. É o Conjunto Gama Lins, no Tabuleiro do Martins, com duas ruas e 600 casas, sendo 40 delas ocupadas pelos albergados e sua família. Tudo começou em 1993, quando o albergado João ?da Linha? construiu o primeiro barraco, num terreno que hoje fica nos fundos do presídio Baldomero Cavalcanti e perto do Instituto Penal São Leonardo, onde a maioria dos albergados cumpre a pena. O detento trabalhava num roçado durante o dia, recolhendo-se à noite ao São Leonardo. Ele alegava aos companheiros que não era um lugar ruim, pois podia plantar, ficava perto da penitenciária e, assim, não corria o risco de perder o horário de voltar à prisão. O Gama Lins é um local simples e sem infra-estrutura. Nas duas ruas tem igreja evangélica, mercadinho, bar e discoteca. A farmácia, a padaria e o depósito de material de construção são luxos que os moradores precisam dividir com os vizinhos do Conjunto Denisson Menezes. O protesto pela ausência do poder público é geral. No conjunto falta água, serviço de coleta de lixo, meio-fio, telefone público e linha de ônibus. Há excesso de pobreza, lama e buraco. É lá que mora Ana Maria, uma presa albergada, que convive com José Augusto, outro albergado, há três anos e meio. Ele ajuda Ana Maria a cuidar de duas filhas e duas netas de um militar assassinado na década de 70. Ela conta que conheceu Augusto numa visita ao Baldomero Cavalcanti. Gostou dele e esperou que conseguisse o regime aberto, o que aconteceu faz um ano. Ele é um dos presidiários beneficiados pelo convênio da Secretaria de Ressocialização com a Casal. Tem trabalho e salário. Sai de casa 5 horas e só retorna às 18 horas. Folga nos sábados e domingos. Tem de se apresentar ao sistema penitenciário duas vezes por semana. A situação de José Augusto é semelhante a dos outros 40 albergados que moram no Gama Lins e outros 15 que residem em barracos próximos, pois o conjunto é um verdadeiro ?favelão?. Namoro nas visitas A história de vida desses personagens tem quase sempre o mesmo começo. Uma amiga - mulher de presidiário - chama a outra para conhecer o presídio. Daí a surpresa e um encontro com o preso de sua vida. Foi assim com Ana Maria e José Augusto. Também com Ducilene e Cristovão. Eles estão juntos faz um ano. Ainda não têm filhos, mas ele comenta com os colegas albergados que não vai demorar. As visitas ao presídio acontecem nas quintas e domingos. ?Minha amiga me convidou para visitar seu namorado. Foi então, que conheci o João e estamos juntos. Sei o problema dele e que pode demorar para ele deixar a prisão. Mas estou confiante. Ele não tem família em Maceió e ficava sozinho nos dias de visita. Agora, ele espera minha chegada. Acho que vai dar certo?, afirmou Ducilene. Cristóvão é um dos mais de 400 presos condenados pela Justiça hoje cumprindo pena no Baldomero. Pelo que determina a lei ele vai precisar cumprir mais de um terço da pena para conseguir regime especial de prisão. O que, dependendo do crime, pode passar dos quatro anos de cadeia. Medo do preconceito Escapar do preconceito, da discriminação, do medo natural dos outros, por se tratar de uma pessoa segregada que volta ao convívio social. Parece o fator principal que leva tantos albergados a estarem unidos numa comunidade afastada, que tem pessoas humildes, marginalizadas também, como vizinhos. Gente que, se não aceita, pelo menos admite que eles tenham em suas casas a liberdade que conseguiram após o tempo passado na prisão. O cozinheiro Manoel Lucas da Silva, que mora no Gama Lins há sete anos, declarou que nunca teve problemas com presos albergados. ?Nunca me causaram qualquer problema. Ser vizinho de um preso não me assusta, pois sei que são pessoas boas que precisam de uma nova oportunidade?, afirmou ele. Apesar de reunir tantos albergados, o índice de criminalidade é baixo no Gama Lins. Este ano, não ocorreram homicídios no local, contra cinco crimes acontecidos no conjunto vizinho (Denisson Menezes) conforme dados fornecidos pela Delegacia do 10º Distrito. Ana Maria lamenta o fato de o tráfico de dro-gas ser o crime mais comum, e revela que os próprios alberga-dos estão preocupados em dar um basta à situação.

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