Cidades
Fiscalizar para prevenir ocupa��o
O urbanista Pedro Cabral defende a fiscalização como forma de prevenir a ocupação irregular de áreas públicas e de encosta, as mais procuradas para constituição de favelas. E lembra que o fenômeno da favelização também tem como causa um planejamento urbano inadequado, com as causas mais conhecidas, como o êxodo rural. Para ele, não adianta construir um conjunto que tenha só as casas e não tenha possibilidades de desenvolvimento de iniciativas de geração de emprego e renda. Ou então que se situe muito distante de onde estão mercados geradores e consumidores. ?A pessoa vai deixar a casa de alvenaria e se mudar para uma favela que fique mais perto do centro?. Dilema A complexidade de como enfrentar o problema pode ser resumida ainda num dilema que deve ser equacionado pelos responsáveis pelo planejamento e que pode ser resumido pela equação concentrar x espalhar. ?Se você opta pela verticalização, isso vai resultar em custo maior para a construção civil. Se opta pela horizontalização, distribuindo as moradias em extensas áreas urbanas, cresce o custo do transporte?, explica. Para ele, o combate às chamadas ?cidades informais? não passa somente pela desocupação, passa ainda pelo desenvolvimento de projetos que incentivem a permanência do homem do campo nas zonas rurais. O que sobrou da casa do pedreiro desempregado Manoel Tenório da Silva Filho, 34, foi a parede onde pintou o número que identificava a residência que acabou tragada pela lama que matou nove pessoas na Grota Santa Helena. Depois de passar pelo abrigo montado pela prefeitura numa escola do bairro, ele está decidido a voltar para o mesmo lugar, apesar do risco. ?Pagar aluguel eu não tenho condições. E dar R$ 2 mil num terreno também não tenho como. Então, o jeito é voltar para cá?. Revolvendo o chão Juntamente com vizinhos, Tenório passa os dias revolvendo o chão na tentativa de achar os documentos soterrados pelo deslizamento na esperança de arrumar emprego e fazer ?os trocados? que diz serem necessários para reerguer o casebre. A justificativa é a mesma dos demais vizinhos que se dizem obrigados a retornar para a mesma Grota e a conviver com o risco de uma nova tragédia: a falta de opções de moradia em outro lugar. No fatídico 1º de junho, Tenório tinha levado a esposa grávida e a filha de um ano e cinco meses para a casa de sua mãe, que aparentava ser mais segura, enquanto ajudava os vizinhos que moravam um pouco abaixo na Grota, cujas casas estavam sendo castigadas pela enxurrada. Foi o que salvou o pedreiro e a família porque a casa foi soterrada pelo monte de terra. Seu irmão, Gilvan Tenório, ainda se feriu quando a linha do teto da casa de Manoel ruiu; mas também acabou se salvando, perdeu a casa, ficou em abrigo e igualmente também cogita em retornar. É dele a sugestão para fazer os trocados que o irmão tanto precisa para reerguer sua casa: ir trabalhar na lavoura da cana, em Mato Grosso, mesmo sem carteira assinada. ?É um calor que chega aos quarenta graus no meio do campo. Mas dá para ganhar alguma coisa?. As famílias desabrigadas na Grota Santa Helena têm poucas esperanças de que a proximidade das eleições mude sua realidade: ?Os homens conversam demais?, ironiza. A vizinha Maria Josefa da Conceição, que também teve a casa atingida, ficou abrigada e há duas semanas retornou para a casa, na Grota, tem na ponta da língua a resposta para a descrença nos político, às vésperas da eleição: ?Disseram que iam mandar um trator para cá, tirar essa lama; mas até hoje não veio?, informou.