Cidades
Gatos levam alagoanos para usinas do Sudeste
FÁBIA ASSUMPÇÃO A falta de emprego no campo no período da entressafra da cana-de-açúcar e a promessa de salários mais vantajosos são os dois principais fatores para que milhares de lavradores alagoanos se aventurem todos os anos a trabalhar em outros estados. Na rota dos trabalhadores rurais alagoanos estão as usinas de cana-de-açúcar nos estados do Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo e, com menos freqüência, o Rio de Janeiro. E também as fazendas de trigo, milho e algodão no Mato Grosso do Sul. Boa parte dessa mão-de-obra sai da Zona da Mata alagoana, de municípios como Branquinha, União dos Palmares, São José da Laje e Murici. A maioria é cortador de cana que não encontra emprego durante o período da entressafra da cana, que começa em maio e se estende até novembro. Só em Branquinha, a 69 quilômetros de Maceió, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município estima que pelo menos mil pessoas foram trabalhar fora este ano. Praticamente todas as semanas saem ônibus com pessoas recrutadas pelos chamados ?gatos? ? intermediários que contratam os trabalhadores. Mato Grosso, Espírito Santo e Minas Gerais têm sido os principais destinos dos trabalhadores alagoanos. Mato Grosso é um dos estados que têm aparecido com certa freqüência entre os primeiros no ranking dos que mais registram casos de trabalho escravo. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Branquinha, Abdias Ulisses, garante que a maioria dos trabalhadores tem saído do Estado com a carteira de trabalho assinada, o que lhe garante seus direitos trabalhistas. Mas admite ser possível que trabalhadores saiam clandestinamente do Estado sem o conhecimento do sindicato. Uma das maneiras encontradas pelos empreiteiros para burlar a fiscalização, de acordo com o sindicalista, é dar o dinheiro para a compra da passagem pelo próprio trabalhador, que apanha o ônibus na rodoviária. Foi por causa disso que a empresa São Geraldo assinou em junho um Termo de Compromisso e Ajustamento de Conduta com a Procuradoria Regional do Trabalho que fica obrigada a enviar a relação com nome e toda a documentação. Desilusão da volta Um grupo de mais de 400 trabalhadores rurais de Murici tomaram como destino o corte da cana-de-açúcar em Minas Gerais. Mais de 300 já voltaram, quando perceberam que as coisas não eram exatamente como os ?gatos? haviam prometido. Eles foram contratados para trabalhar numa usina de cana-de-açúcar, mas apenas 80 permanecem lá. Os outros voltaram quando descobriram que o dinheiro que iriam receber mal dava para pagar as despesas com alimentação e outros gastos. O trabalhador rural S. (que prefere omitir a identidade) foi um dos que desistiram da empreitada este ano. Ele explica que uma das vantagens de trabalhar fora do Estado é o salário. ?Enquanto aqui a gente recebe trabalhando no corte da cana cerca de R$ 250,00, lá a gente pode fazer até R$ 600,00?. Mesmo reconhecendo que nos outros estados ?as coisas? são mais caras do que aqui, S. considera vantajosa a diferença dos salários. ?No Mato Grosso, só para carpir o pasto a gente ganha por quinzena R$ 600,00, salário que a gente não ganha de jeito nenhum aqui, nem mesmo no corte da cana?. Só que este ano as coisas foram diferentes. O trabalhador que esperava tirar R$ 1.200,00, só conseguiu tirar na primeira quinzena pouco mais de R$ 250,00. S. reconhece que alguns trabalhadores podem cair em armadilhas quando vão trabalhar pela primeira vez em outros estados, como aconteceu com ele há 12 anos. Ele foi contratado por um empreiteiro para trabalhar numa fazenda em Mato Grosso. Chegando lá, foi levado para o meio do mato, onde só havia um barracão para alojar os trabalhadores, que ficavam em condições totalmente insalubres. Ele decidiu fugir junto com o cunhado, numa viagem que durou uma noite e um dia pelo meio do mato.