Temporais
CHUVAS DEVASTAM FAMÍLIAS QUE JÁ VIVEM EM SITUAÇÃO PRECÁRIA
Transbordamento da lagoa Mundaú deixou famílias do Dique Estrada desesperadas, sem ter para onde ir
Se a situação já era difícil para quem vive à beira da Lagoa Mundaú, no Dique Estrada, em Maceió, com o volume de chuva que caiu em Alagoas no último fim de semana, ela ficou ainda pior. O transbordamento da maior lagoa do estado deixou famílias da localidade, que fica no Vergel do Lago, desesperadas, sem ter para onde ir porque perderam tudo o que tinham.
A Gazeta de Alagoas esteve em vários pontos do bairro nesta segunda-feira (4), um dos mais afetados pela chuva e o que viu foram moradores devastados. Em alguns pontos, como a Travessa e Avenida Pontes de Lima, as famílias estavam presas em suas casas, ilhadas, sem terem como sair. A situação era a mesma na Avenida Clemente Aleluia, mais conhecida como Avenida Cruzeiro do Sul.
Nessas localidades, a água chegava acima da cintura e só havia duas opções de sair das casas: com embarcação ou a nado.
João Lima dos Santos, de 46 anos, é pescador. Ele não dormiu entre domingo e segunda-feira (4). Mesmo com dores pelo corpo como consequência da Chikungunya, ele não teve outra alternativa a não ser a de mover todos os esforços para salvar os móveis e tentar conter a água que entrava sem parar do fundo para a frente de sua residência.
“Eu não dormi, nem minha esposa, tirando água e limpando a noite toda. Muita água. Água veio de trás e vindo para a frente. Uma tristeza. Moro aqui há 29 anos e nunca vi isso aqui. Eu nasci e me criei aqui e nunca vi isso. É a primeira vez”, conta, dizendo que a água começou a entrar por volta das 19h de domingo (3). “E assim foi a noite toda. Veio parar mais agora às 4h da manhã”.
A Igreja São Pedro, que fica próxima à Avenida Clemente de Aleluia por pouco também não foi tomada pela água. Assim, o local pode abrigar, até a manhã de segunda-feira ao menos 30 pessoas que foram tiradas às pressas das residências e não tinham para onde ir. No local, havia mulheres grávidas, idosos, pessoas com deficiência, das quais a necessidade de ajuda acaba sendo redobrada.
Selma Cavalcante de Lima, 70 anos, é uma das abrigadas no estabelecimento religioso. Ela mora nas proximidades da Lagoa Mundaú com mais cinco filhos, sendo dois adultos com deficiência. Selma conta que eles foram resgatados de embarcação e ela foi carregada nos braços por voluntários.
“A água começou a entrar de quatro horas da tarde e foi até madrugada. Providenciei logo, junto a igreja e pedi uma canoa para nos resgatar. Só resgatei o fogão, o resto perdi tudo. Eu vim nos braços porque dei preferência da canoa aos meus filhos. Consegui ainda trazer um colchão para o meu filho, mas para o outro eu não consegui nada”, relata Selma, que diz morar desde os 13 anos na localidade e nunca ter visto uma situação parecida. “A gente sempre ver enchendo a rua, mas a casa não”. Se quase 60 mil pessoas estão desabrigadas e desalojadas e foram afetadas de alguma forma pelas chuvas em toda Alagoas, a situação no Dique Estrada é o retrato representativo da condição desesperadora dessas famílias. E a situação se agrava quanto mais à margem da Lagoa Mundaú essa família vive.