Destruição
FAMÍLIAS NÃO SABEM COMO RECONSTRUIR SUAS VIDAS APÓS AS CHUVAS
Desabrigados e desalojados alagoanos contam como perderam tudo o que tinham após temporais que caíram em Alagoas há uma semana
“O nível da água subiu de um jeito que até hoje a gente está sem entender como foi que subiu tanta água. Eu perdi tudo, menos a vida”. A afirmação desesperada é da moradora de Jacuípe, Marcela Raiane Silva Lesse. Ela é uma das 68 mil pessoas afetadas diretamente pelas chuvas torrenciais que caíram há uma semana em Alagoas, deixando famílias devastadas e metade das cidades do estado com cenário de pós-guerra.
Há uma semana as chuvas se intensificaram no estado, o que levou a transbordamento de rios e lagoas e, consequentemente, invasão de água nas residências de Norte a Sul de Alagoas. A cidade de Jacuípe, por exemplo, vivencia corriqueiramente o transbordamento do rio que leva o mesmo nome. No entanto, segundo Marcela, ela nunca tinha visto nada parecido. Por lá, há 3.000 pessoas entre desalojadas e desabrigadas.
“Eu já vi várias vezes encher, mas rápido, violento e devastador igual foi não. Há dez anos eu morava na casa da minha mãe, acordei com o pessoal gritando na rua, e vi enchendo, mas igual agora de 2022, nunca vi nada igual. Quando as águas baixaram, a cidade ficou parecendo um cenário de guerra”, relata. Ela diz que o nível da água subiu rapidamente. “Não deu 20 minutos. O nível da água subiu de um jeito que até hoje a gente está sem entender como foi que subiu tanta água. E foi quando eu perdi tudo e começou a devastação da cidade”, conta. Marcela disse que, quando o nível do rio Jacuípe começou a subir, a água ainda não tinha chegado à residência dela, que tem a calçada alta. Ela começou, então, a suspender os móveis e colocar alguns pertences em cima do sofá. Em seguida, foi para a casa da mãe com o esposo e o filho de quatro anos. No entanto, com o passar das horas, ela retornou a residência para ver como a estava a situação. Foi quando se deparou com a água já acima da cintura. Com o esposa e a ajuda de dois amigos, ainda tentou suspender mais ainda o sofá, no entanto, devido ao peso, ele revirou e todos os objetos caíram ao chão. “É desesperador, é triste e só a gente que passa é quem sabe. Quando vi aquilo me partiu o coração, a geladeira e o armário veio parar na sala, encontrei o colchão do meu filho na cozinha e molhado”, conta, informando que ainda conseguiu salvar também uma televisão. Marcela tem uma tia que mora na Rua Senador Arnon de Melo, também em Jacuípe, que quase perdia a vida se não fosse resgatada pelos vizinhos. Em um gesto de solidariedade, eles também se arriscaram em meio à inundação para retirar a mulher, de 45 anos, e sua filha da residência que, apesar de terem tentado se proteger no primeiro andar, a água entrava no imóvel de forma violenta. Segundo Marcela, a tia ficou todo o dia de sábado e madrugada de domingo presa em casa. O nível da água subia velozmente e a força com que invadia a rua levou o portão da casa dela. “Ela começou a gritar desesperada para sair da casa junto com a filha”. Foi por volta das 10h40 de domingo, que a tia de Marcela foi socorrida por quatro homens. “A água estava na altura do pescoço e, na correnteza, a filha dela se soltou. Ela se desesperou mais ainda. Dois seguraram minha tia, e mais dois foram buscar a menina. Mas conseguiram atravessar a filha dela. Quando foi no resgate dela, minha tia já não tinha mais força e o pessoal começou a gritar: ‘Rosa você consegue, guerreira’. Até que ela conseguiu passar”. Talita Miriam dos Santos Rodrigues, de 34 anos, mora desde muito pequena na Rua Radialista Clemente Aleluia localizada no bairro Vergel do Lago, um dos mais atingidos pelas chuvas em Maceió, devido ao transbordamento da Lagoa Mundaú, por onde o bairro margeia. A moradora conta que a água entrou rapidamente na residência, o que fez ela e os pais, uma tia de 76 anos e um irmão com deficiência de 36 anos se levantarem apressadamente para preservar o máximo de bens possível. Se Talita já vivia em uma situação difícil, em decorrência de seu pai precisar de tratamento para uma diabetes severa, agora ela se vê pedindo ajuda tanto para recuperar os móveis que perdeu, como também para custear o tratamento do pai, que foi resgatado de canoa e com um dos pés coberto por plástico para evitar infecções por causa da doença.